Brasil

A farsa da guerrilheira

Convocando os bolsonaristas para a guerra, a ativista Sara Winter diz que deseja montar um exército a favor de Bolsonaro. O que se vê, porém, são gatos pingados com pautas confusas

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FRANCO ATIRADORA Militante de direita, Sara Winter apoia o presidente Bolsonaro (Crédito: Divulgação)

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No domingo 3 um detalhe chamou a atenção em meio às manifestações bolsonaristas, inconstitucionais e antidemocráticas a favor do fechamento do Supremo Tribunal Federal e contra o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ): cerca de 20 barracas em frente ao Congresso, em Brasília. Tratava-se do acampamento “Os 300 do Brasil”, iniciativa liderada pela ativista Sara Winter, de 27 anos, em plena pandemia montado em apoio a Bolsonaro: “vamos ucranizar o Brasil”, postou ela em seu Twitter. Apesar do discurso inflamado nas redes sociais, era notório que o acampamento não passava de uma farsa. Além das barracas serem todas iguais e chegarem todas juntas, o que mostra que foram compradas no atacado e estavam todas vazias. Pesa a suspeita de serem fornecidas pela Havan, do apoiador bolsonarista Luciano Hang, já que produtos semelhantes são vendidos em suas lojas. Outro indício da farsa da guerrilheira: ela divulgou ter treinado 150 pessoas no que chamou de “o primeiro treinamento de guerrilha da direita”. Vídeos mostraram, porém, cerca de 50 pessoas cantando gritos de guerra. Nos posts para convocar apoiadores, mais radicalismo: além de procurar “dispostos a dar a vida pela Nação”, Sara disse que seriam ensinadas a elas “técnicas de subversão e cooptação de pessoas” e que os participantes deveriam usar “roupa adequada pra um treinamento físico de combate” cujos participantes, antes de entrar, teriam de entregar seus celulares para evitar gravações: “Venha com o ímpeto de ir pra guerra”, disse ela.

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AS VÁRIAS FACES DE SARA Depois de liderar o Fêmen, se converteu religiosa e virou antifemista que posa com armas e defende “bala na testa” de estuprador

Sara foi líder no Brasil do Fêmen, um grupo feminista ucraniano conhecido por mulheres que protestam nuas. Aos 19 anos, passou 25 dias na capital Kiev para ser treinada pela organização. Após fazer um aborto, ficar grávida novamente e ter o filho Héctor Valentim, hoje com 4 anos, se desvencilhou do movimento, se converteu ao cristianismo e se tornou antifeminista, a favor da “tradicional família brasileira”. Suas bandeiras, no entanto, são uma confusão ideológica. Sara tem como principal causa a defesa da vida humana desde o ventre da mãe, o que atrai principalmente alas religiosas. Posts conclamam manifestações com escritos “humanitários”: “me ajudem a salvar bebês do aborto”. Mas suas outras causas nada têm a ver com a preservação da vida: posou com armas incitando a violência e afirmando que “resposta para estuprador é uma bala na testa”. Além disso, falta respeito à Constituição e à Democracia ao pedir o derretimento das instituições do Estado brasileiro: “a gente só sai daqui quando o Rodrigo Maia cair”, diz ela.

Ideologia radical

Para o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP), Sara esteve envolvida na violência física aos profissionais da imprensa que cobriam o evento no domingo: “As agressões aos jornalistas foram dos comandados de Sara Winter”, disse ele. O crime está sendo investigado pela Polícia Civil a pedido do Ministério Público do Distrito Federal. Apesar de ser uma das principais organizadoras do “Acampamento dos 300”, Sara afirma que seu idealizador é o jornalista conservador Oswaldo Eustáquio e que fez isso “a pedido do Professor Olavo [de Carvalho]”. O movimento é financiado por uma vaquinha online que até a quinta-feira 7 recebeu R$ 62.819 de 668 doadores. Sara afirma teve apoio de políticos para divulgar a iniciativa, como as deputadas Bia Kicis (PSL-DF), Carla Zambelli (PSL-SP) e Caroline De Toni (PSL-SC). Um dos organizadores que aparece ao seu lado é Evandro de Araújo Paula, assessor parlamentar no gabinete de Kicis. A deputada apoiou abertamente a iniciativa em seu Twitter.

COINCIDÊNCIA? As barracas usadas no acampamento dos 300 são iguais às vendidas no site da Havan, do bolsonarista Luciano Hang (Crédito:Divulgação)

Em 2018 Sara se candidatou a deputada Federal pelo DEM, no Rio de Janeiro, partido do Rodrigo Maia, mas teve apenas 0,22% dos votos válidos e não se elegeu. Sara já foi responsável por coordenar políticas para a maternidade no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, de Damares Alves, a quem chamou de “mãe adotiva”. Nascida no interior de São Paulo, afirma que no passado foi vítima de diversos tipos de violência, como sexual, e que trabalhou como prostituta. Entre seus arrependimentos, está simpatizar com os skinheads e com o nazismo, ideologia que largou após estudar história. Como consequência, ela traz a tatuagem de uma cruz de ferro, símbolo utilizado por movimentos racistas. Seu nome verdadeiro é Sara Fernanda Giromini e opositores acreditam que ele foi mudado para homenagear Sarah Winter née Domville-Taylor (1870-1944), espiã de Hitler e membro da União Britânica de Fascistas. A explicação que a Sara brasileira dá, porém, é que a mudança aconteceu aos 14 anos por se assemelhar a “Autumn”, sobrenome da cantora Emilie Autumn cujas canções feministas a então adolescente gostava de ouvir. Procurada, Sara não respondeu ao contato da reportagem. Com histórico de ideologias tão radicais e controversas, é fácil para qualquer pessoa desconfiar de suas atuais bandeiras. Seus poucos seguidores movidos à paixão, porém, evidenciam a atual polaridade do país e contribuem para o debate público de baixa qualidade.

 

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