Cultura

A fábrica de extermínio de Hitler

Em “O Holocausto”, Laurence Rees mostra como o assassinato de milhões de judeus se tornou necessidade da máquina de guerra nazista

“O trabalho liberta”, frase na entrada do campo de concentração de Auschwitz: mão de obra escrava marcada para morrer (Crédito:Album / akg-images)
“A jornada do Holocausto foi gradual, cheia de idas e vindas, até encontrar sua expressão final nas fábricas de morte”; Laurence Rees, historiador

O historiador e documentarista inglês Laurence Rees, de 61 anos, se tornou especialista no Holocausto judeu porque ficou intrigado com o surgimento e o progresso do monstruoso modo de produção e destruição nazista. Por isso, sentiu necessidade de compreendê-lo para estabelecer uma interpretação racional de um dos maiores monumentos à incoerência, à violência e ao genocídio. Sua pesquisa durou 25 anos e resultou no livro “O Holocausto — Uma Nova História”, lançamento da editora Vestígio. Rees entrevistou centenas de sobreviventes, soldados e oficiais nazistas responsáveis pelos campos de concentração. Tratou de organizar depoimentos inéditos em uma narrativa que busca explicar o nexo entre a chamada “solução final” e a dinâmica da guerra. O resultado é uma história sistemática de um tema muito abordado, mas, até agora, superficialmente analisado.

Rees descortina o nascimento do monstro e o descreve do seguinte modo: no final de 1941, o exército alemão dava aos primeiros sinais de que começava a perder a Segunda Guerra Mundial para os Aliados. Era preciso incentivar a produção das indústrias do Terceiro Reich com um aporte numeroso de mão de obra produtiva — e eliminar aqueles que atrasavam o avanço econômico, como os deficientes físicos e mentais, além da população de judeus. O chanceler alemão Adolf Hitler acreditava que o afluxo de migrantes judeus inviabilizaria o estoque de alimentos e resultaria em fome para toda a população.

Três anos antes, na Conferência de Evian, convocada pelo presidente americano Franklin Delano Roosevelt, que reuniu representantes de 32 países no balneário francês, Hitler havia proposto que todos os países acolhessem os judeus radicados na Alemanha. Ele os culpava por terem desencadeado a Primeira Guerra Mundial. O Führer se dispusera a expulsar os judeus aos países que simpatizassem com eles, “até em navios de luxo”, como declarou. Mas ninguém aceitou recebê-los, fato que Rees identifica como um dos dois fatores causadores do Holocausto, como ficou conhecido o extermínio judeu, além do de outras populações, como poloneses, ciganos e minorias, como os homossexuais. O segundo fator foi a crescente escassez de recursos da Alemanha. Isso acelerou a construção da indústria da morte nazista.

AKG-images / ullstein bild; 2005 Roger-Viollet / Topfoto
CULPA Adolf Hitler em rara aparição no fim da guerra: atribuiu a derrota aos judeus (Crédito:Walter Frentz)

Van de gás

“Evian foi um momento crucial do Holocausto”, diz Rees em entrevista à ISTOÉ. “Por que os Aliados não tomaram providências? Ainda que o restante dos países tenha se manifestado de forma simpática, agiram muito pouco. Mesmo assim, ainda era cedo para imaginar os horrores que se seguiriam.”

Com o recrudescimento da guerra, os nazistas se sentiram obrigados a pôr em prática o extermínio. A solução foi encontrada por Hans Frank, chefe do Governo Geral. “Os judeus devem desaparecer”, disse. “São tremendamente prejudiciais a nós devido à quantidade de comida que devoram.” Para conter a escalada que colocava em risco a vida dos “arianos”, Frank criou o primeiro dispositivo para matar judeus: a van de gás. O veículo passou a transportar deficientes físicos e mentais, crianças e mulheres. Enquanto a viagem ocorria, gás carbônico era despejado no compartimento traseiro, matando os passageiros, que eram enterrados no caminho. Morreram centenas, mas as vans chamavam atenção e não davam conta da demanda. Para resolver o problema, os nazistas inauguraram uma câmara de gás fixa em Chelmno, na Polônia. Foi o primeiro dos 48 campos de concentração que se espalhariam pelo Reich e assassinariam 6 milhões de judeus e outras etnias até o fim da guerra, em 1945. Um milagre econômico. O campo de Auschwitz exibia o lema que define uma certa ética: “O trabalho liberta” (Arbeit macht Frei). Leia-se: “O trabalho extermina”. Tais operações, segundo Rees, não foram planejadas no início da guerra, mas resultaram de ações graduais. “É preciso entender o genocídio no contexto da guerra e não de um projeto racional”, diz. “Ele cresceu à medida que os nazistas eram derrotados, os recursos se tornavam escassos e era preciso usar prisioneiros para garantir a estrutura do país.” À medida que eram encurralados, eliminavam-se os “imprestáveis”. Ao mesmo tempo, negociavam prisioneiros para servir às indústrias nas franjas do regime para gerar lucros.

ALVO FAVORITO Prisioneiras aguardam a execução (Crédito:PBK/karlsturm)
PBK/karlsturm

Visão inédita

Os historiadores tentaram explicar como uma nação civilizada perpetrou a barbárie total. Duas teorias vigoraram nos últimos 70 anos: a intencionalista, segundo a qual a matança partiu de Hitler, e a funcionalista, que afirma haver na origem das execuções uma combinação entre o poder de Hitler e forças externas.

Rees contesta ambas. Segundo sua visão inédita, o extermínio não resultou de um ato apoteótico e nem de um método sistemático. “A jornada rumo ao Holocausto foi gradual e cheia de idas e vindas, até encontrar sua expressão final nas fábricas de morte nazistas.”