Comportamento

A explosão vegana

Mais de sete milhões de brasileiros declaram-se adeptos do veganismo: não consomem qualquer produto proveniente ou testado em animais. E esse público — assim como o mercado formado em torno dele — só deve crescer

Crédito: Susi Baxter-Seitz

HARMONIA Astrid aderiu ao veganismo há seis meses. Ela defende que a dieta, bem equilibrada, fornece todos os nutrientes (Crédito: Susi Baxter-Seitz)

Virou uma febre nos restaurantes, em lojas de roupas modernas, de acessórios e até em fast foods. Propagandear que os produtos são veganos parece dizer ao cliente que ele está dentro do que há de mais contemporâneo em saúde e comportamento. Assim, a explosão vegana tomou conta do mundo. Só no Brasil são sete milhões de pessoas que se consideram adeptas do estilo de vida que deixa de fora o consumo de artigos provenientes ou testado em animais. Entre eles, alimentos, bolsas e produtos de beleza. Hoje são mais de 240 restaurantes vegetarianos e veganos pelo país. A mais famosa cadeia de fast food do mundo, o Mc Donalds, entrou na onda e produz sanduíches para o nicho.

MEIO AMBIENTE Anna e a filha Barbara: a filosofia inclui o cuidado com os animais (Crédito: KEINY ANDRADE/AGENCIAISTOE)

E há espaço para mais crescimento. De acordo com pesquisa feita pelo Ibope, 55% dos 2 mil entrevistados afirmaram que consumiriam mais produtos veganos se eles estivessem com rótulos bem informativos e 60% os comprariam se custassem o mesmo preço dos comuns. Em geral, eles são mais caros.

Ser vegano, na verdade, significa estar no alto de uma pirâmide que tem como base o vegetarianismo, a dieta que exclui o consumo de carne. No segundo patamar, estão os ovolactovegetarianos. Além de vegetais, eles se alimentam de ovos, leites e derivados. No terceiro ficam os chamados vegetarianos estritos, que não consomem nenhum alimento de origem animal incluindo mel, ovo e laticínios. Os veganos estão no topo e recusam, além da alimentação, todo produto que utiliza produtos feitos a partir de ou testados em animais.

O que embala a escalada dos veganos é a disseminação da cultura que busca melhor qualidade de vida, incluindo no conceito o cuidado com a saúde de forma mais natural e o respeito ao meio ambiente e aos animais. “É uma mudança de dentro para fora”, diz a vegana Anna Karine Fukamizu. “Primeiro vem a informação e depois você muda seu comportamento”, completa. Barbara, filha de Anna, foi quem convenceu a mãe a adotar a filosofia de vida, há seis anos. Desde então, elas deixaram de comer produtos derivados ou testados de animais. Usam roupas de algodão e pasta de dente natural. A estudante Victoria Mayer foi outra que cortou ovos, leites e derivados e parou com carnes. “Não acho certo o maltrato aos animais.” Ela também só adquire produtos veganos.

TODA VEGANA Vitória assume os princípios do veganismo em muitas faces de sua vida. Além da comida, ela usa cosméticos, roupas e até pasta de dente feitos com ingredientes vegetais (Crédito:Leo Martins)

MERCADO EM ASCENSÃO

O aumento dos adeptos faz crescer o mercado. A Curaprox, por exemplo, especializada em produtos de limpeza bucal, lançou uma linha de pastas de dente vegana. Na composição, nenhum produto químico ou de origem ou testados em animais. “Os veganos podem usar sem medo”, afirma Hugo Lewzoy, CEO da marca. De acordo com o executivo, o creme dental possui uma enzima chamada glicose oxidase. Ela potencializaria a ação protetora da própria saliva, evitando a necessidade de antibactericidas químicos. Além disso, ela conteria extratos de ervas com propriedades regenerativas dos tecidos. O produto custa R$ 79.

Outra empresa é a Biozenthi, presente no Brasil, na Austrália, na Colômbia, no Equador e preparando-se para entrar no mercado espanhol. Ela fabrica cosméticos, artigos para cabelo e de higiene pessoal veganos. “Usamos cera de carnaúba para fazer batom, por exemplo”, explica Márcio Accordi, proprietário da companhia.

VENDAS Accordi é dono de uma companhia que fabrica produtos de beleza e de higiene pessoal destinados aos veganos: sem ingredientes de origem animal (Crédito:Divulgação)

Assim como em relação ao vegetarianismo, há polêmica envolvendo a exclusão de alimentos de origem animal na dieta vegana. Médicos, nutricionistas e adeptos sabem que falta ao organismo de um vegano a vitamina B12, necessária para o bom funcionamento do sistema nervoso. “Mas mesmo quem não é vegano tem deficiência da vitamina. Normalmente, ela falta em 60% dos veganos e em 40% dos não veganos”, afirma a nutricionista Astrid Pfeiffer. Vegetariana há 14 anos, ela entrou para o veganismo há 6 meses. O prato perfeito para um vegano consiste em uma base de carboidrato (cereal integral, arroz integral, quinoa, trigo, cevada), leguminosas (feijões, lentinha, ervilha, grão de bico) e salada com muitas folhas verdes. “Conseguimos encontrar todos os nutrientes em uma refeição equilibrada”, diz Astrid. O médico Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, discorda. “É importante respeitar a liberdade de escolha individual de cada pessoa. Entretanto, do ponto de vista médico e nutricional, o que recomendamos é que, ao fazer qualquer opção alimentar restritiva, o indivíduo cheque como está sua saúde e tenha um acompanhamento regular para que todos os nutrientes necessários para mantê-la sejam contemplados na alimentação”, afirma. Ao que tudo indica, a discussão, iniciada com o vegetarianismo, se prolongará.

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