Economia

A euforia volta ao mercado

Expectativa sobre a reforma da Previdência leva Bovespa a recorde de 100 mil pontos. O pacote da aposentadoria é apenas o primeiro passo para o País começar a decolar. Ainda falta estimular a atividade industrial

Crédito: BRUNO ROCHA

NOVOS VENTOS Aumento do índice Bovespa funciona como um sinal de que o mercado financeiro recuperou o otimismo (Crédito: BRUNO ROCHA)

Na semana passada, uma grande excitação tomou conta do mercado financeiro. Os investidores viram um pico, ainda que simbólico, inédito na Bolsa de Valores de São Paulo. Na segunda-feira 18, no período da tarde, o Ibovespa ultrapassou os 100 mil pontos e fechou o dia em 99.993 pontos. Apesar de oscilar também por decisões pontuais de grandes empresas, o índice funciona também como um termômetro da economia brasileira. Isso significa que a movimentação da semana passada é um bom sinal de que as contas do País, após anos de desaceleração, começam enfim a se movimentar. A grande responsável pelo início da decolagem é a reforma da Previdência, prometida pela equipe econômica do governo.

O otimismo do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre a tramitação da proposta da reforma no Congresso Nacional e a perspectiva de sua aprovação no primeiro semestre foram fundamentais para a segurança dos investidores. É um fato que o governo de Bolsonaro começou metendo os pés pelas mãos nas mais diversas áreas, mas se tem um setor que foi poupado, é o econômico, considerado prioritário pelo presidente. “A única área que está funcionando é a economia. Isso é um consenso”, diz Paulo Roberto Feldman, professor de economia da USP. O mercado está confiante e, se a reforma passar, os analistas acreditam que o Ibovespa pode bater 125 mil pontos até o final do ano, principalmente se os investidores estrangeiros voltarem a comprar ações do mercado brasileiro.

Alta das commodities

Apesar da movimentação brusca na segunda-feira, impulsionada também pela alta das commodities, como da Vale e da Petrobras, não é de agora que os investidores voltaram a olhar para as ações das empresas brasileiras. O processo de recuperação da confiança na economia caminha junto com o estancamento da crise política que havia se instalado no País. “Os motivos para a retomada do crescimento são diversos, mas começou em 2016, com o processo de impeachment de Dilma Rousseff”, diz Einar Rivero, gerente de Relacionamento Institucional da Economática.

Roberta de Paula

A empresa realizou um estudo que mostra que, quando corrigido pelo IPCA, o recente recorde de 100 mil pontos na verdade cai. Nessa lógica, a maior pontuação da bolsa não ocorreu na semana passada, mas em maio de 2008, quando atingiu 135.497 pontos. Quando convertido para o dólar, o recorde recente também é bem menor, de 25.855 pontos, quase metade do que ocorreu em 2008, de 44.616 pontos em dólar. Essa correção, no entanto, não elimina a importância do pico que ocorreu na segunda-feira. “Foi o rompimento de uma barreira psicológica. Para continuarmos nesse ritmo, a reforma da Previdência precisa ir adiante, só assim estancará o rombo nas contas públicas e possibilitará o crescimento sustentável do País”, diz Rivero. Na quarta-feira 20, o governo entregou a proposta de reforma da aposentadoria dos militares. O projeto agradou os investidores, não pelas propostas em si, mas por fazer com que as mudanças na Previdência avancem.

“Além da reforma da Previdência, o governo dever tomar medidas que favoreçam a indústria nacional, como melhorar o ambiente de negócios”  Paulo Roberto Feldmann, professor  de economia da USP

A expectativa de que a taxa Selic possa cair ainda mais ao longo do ano também é um dos fatores considerados responsáveis pelo aquecimento do mercado de ações. Afinal, quanto menor a taxa básica de juros do País, menor é o custo das empresas e também o retorno da renda fixa, o que estimula investimentos em bolsa. Outro ponto que pode ter contribuído é o cenário favorável no exterior, como a esperança de que a guerra comercial entre China e Estados Unidos esteja perto do fim. Espera-se também que os países desenvolvidos mantenham seus juros baixos por mais tempo que o esperado. Apesar dos bons efeitos da reforma da Previdência, sabe-se que ela, sozinha, não sustentará a recuperação do País. “O governo também dever tomar medidas que favoreçam a indústria nacional, como melhorar o ambiente de negócios e investir fortemente em infraestrutura”, diz Feldmann. A reforma da Previdência é só um passo e, certamente, não fará milagres econômicos. Mas já é um bom começo.