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A eterna luta das jogadoras bósnias contra o preconceito no futebol

Em três anos elas conseguiram construir uma das melhores equipe da Bósnia em uma sociedade com tradições enraizadas. As jogadoras do clube Emina de Mostar têm experiência em driblar rivais, mas também em esquivar dos preconceitos.

“Agora, estou nem aí. Eu escolhi meu amor pelo futebol”, declara Irena Bjelica, de 24 anos.

A defensora montenegrina conta como teve que superar os tabus da sociedade, além das próprias inseguranças.

“Todos em minha volta eram contra. Minha mãe queria que eu fosse bailarina ou modelo. Somente meu avô me apoiava, me levava escondida aos treinos”, lembra.

Irena também admite que se perguntou no passado muitas vezes “se poderia encontrar um namorado que aceitasse” essa paixão pelo futebol.

A Bósnia é um país onde o futebol feminino ainda tem muito a conquistar e evoluir.

O país dos Bálcãs conta com 1.264 jogadoras federadas. Nos homens, são 41.625. Para as meninas, há 31 clubes federados, que devem em grande parte sua existência a verdeiros fãs como Sevda Becirovic Tojaga e seu marido Zijo, de 56 e 57 anos, respectivamente.

Sevda, uma farmacêutica de Mostar, explica que o primeiro passo do clube Emina foi dado em maio de 2016, quando assistia pela televisão a um jogo de seleções do futebol feminino.

Ela lembra que, nesse dia, chamou o marido e propôs criar um clube para dar o troco nos meninos que olhavam para as jogadoras “com maus olhos” e que chamavam elas de “lésbicas” somente por jogarem futebol.

Zijo, ex-jogador e técnico do tradicional Velez Mostar, trabalhava na época como treinador das goleiras da seleção juvenil da Bósnia e já acreditava que o futebol “não é exclusivamente masculino”.

– “Uma família” –

O casal batizou o clube com o nome de um poema do escritor de Mostar Aleksa Santic. Contratou jogadoras e hospedou algumas em sua casa perto de Mostar, inclusive fazendo um buraco na parede da sala para ampliar o espaço.

Neste país balcânico com fortes divisões entre as comunidades que o compõe, as jogadoras da equipe são bósnias (muçulmanas), sérvias (ortodoxas) ou croatas (católicas), algo que dificulta a captação de recursos com administrações ligadas a uma ou outra comunidade. Os 200 euros mensais pagos a cada jogadora vêm do patrocínio dos donos da farmácia na qual trabalha Sveda.

“Buscamos qualidade. O fato das jogadoras serem muçulmanas, católicas ou ortodoxas não tem importância alguma”, afirma Zijo Tojaga.

“Nosso clube é prova que a crença em uma religião não é um obstáculo. O que importa é o ser humano, seu comportamento”, confirma a jogadora Dragica Denda, de 28 anos e sérvia de Trebinje (sudeste).

“Não somos apenas um clube de futebol, somos uma família”, declarou Irena Bjelica. “É como se eu tivesse nove filhas”, brinca Sevda.

A equipe foi subindo degraus rapidamente e, nesta temporada, aparece na parte de cima da tabela da primeira divisão, atrás apenas do SFK 2000, da capital Sarajevo.

As melhores jogadoras são chamadas para a seleção nacional, embora as partidas internacionais sejam disputadas para públicos de apenas uma centena de espectadores.

– Passo a passo –

A hostilidade de alguns homens também não dá trégua.

Em um documentário de 2014 da emissora Al Jazeera Balkans, nomes importantes do futebol masculino do país, como Safet Susic ou Ivica Osim deram seu apoio às atletas femininas, mas outros não escondiam seus preconceitos sexistas.

“As mulheres vão virando homens e os homens vão virando mulheres”, lamentava o comentarista esportivo Milojko Pantic.

“Se pudesse, faria isso desaparecer”, criticava Dusan Savic, ex-jogador iugoslavo, ao falar do futebol feminino.

O ex-técnico croata Ciro Blazevic admitia já ter visto mulheres jogando um futebol “maravilhoso”, mas não conseguiu esconder o paternalismo.

“Amo tanto as mulheres, tenho tanto respeito por elas que tenho medo de que possam se machucar. Elas estão aí para serem admiradas, para estarem em uma vitrine, para serem mimadas e protegidas, não para serem machucadas”, afirmava.

Apesar dessas declarações, a atacante Minela Gacanica (19 anos) acredita que “as coisas mudaram”.

Quando começou a jogar em seu primeiro clube, aos 12 anos, os garotos a ignoravam e as outras meninas “só queriam saber de bonecas”.

“Todo mundo nos condenava”, mas, agora, “quando os espectadores assistem uma vez, compreendem que às vezes é até melhor que um jogo masculino”.

O Emina se prepara para ser integrado ao Velez. Todos os clubes profissionais são obrigados a ter também uma equipe feminina por ordem da Uefa.

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