A esbórnia intervencionista

Crédito: Jorge Araújo

(Crédito: Jorge Araújo)


Alguém, por um lapso de momento, teve qualquer dúvida do traço marcante de controle do Estado que o capitão Bolsonaro acalentou, tenta implementar aboletado no Planalto e manifesta como meta desde sempre? Então, vejamos: meteu a mão na Polícia Federal e avisou abertamente que o faria. Meteu a mão no INPE, trocando o comando, para abafar dados constrangedores de desmatamento e queimadas. Fez o mesmo com a Receita Federal, com o Coaf, para travar informações comprometedoras envolvendo a família. Não gostou do preço do diesel? Substituiu o presidente da estatal porque não atendeu a sua determinação de baixar na marra o valor do combustível. Meteu um general. Quem sabe o tal vai mandar o preço do petróleo internacional bater continência e fazer flexões deitado no chão. A tarifa da luz tá subindo muito? Vai mexer nessa coisa aí. Aguarde. “Meter o dedo”, como diz. Interferir mesmo. No jargão rastaquera do capitão: controlar e acabou, goste quem quiser. Afinal, na visão soberana de Messias Bolsonaro, ele é o Estado. Absoluto, totalitário. É a própria Constituição, encarnada em pessoa, como já falou recentemente. Outro dia reclamou do regime em voga alegando que, a depender dele, não seria assim. “Se tudo dependesse de mim, não viveríamos nesse regime”. Dá para prever o quão tirânico seria o modelo dos sonhos do capitão. “Mito” de araque, ele não gosta de democracia. Fique logo claro de uma vez. Não tolera nada andando fora de suas rédeas. Abomina a possibilidade de oposição ou mesmo de alguém, dentro do ecossistema de seu poder, sendo capaz de exibir qualidades e talentos que lhe façam sombra. A figura do maioral. Adora ser visto e saudado assim. Cerca-se de bajuladores ideológicos, desprovidos de qualidade ou luz própria. Submissos até o último fio de cabelo. Não por menos mandou embora o ex-ministro da Saúde, Luiz Mandetta, simplesmente por ele realizar um bom trabalho na pasta. Não aguentou. Trocou por um obediente e inapto general Pazuello, que anarquiza e implode o sistema sanitário nacional. Recomenda, como espera Messias, tratamento à base da droga cloroquina e outras baboseiras. Faz todas as suas vontades. Esquece os compromissos com a sociedade e nem seringa ou imunizante compra para defender a população. Na Justiça, a mesma coisa. O herói da Lava Jato, Sergio Moro, foi forçado a renunciar por não atender à vontade do capitão de varrer do mapa aqueles que faziam investigações sobre os filhos maculados. Bolsonaro, no estado puro, na essência, é o absolutista insano que agora está em exibição. Tirou de vez a máscara. De liberal não guarda nada, nem cheiro. Em arroubos arbitrários coloca a perder o resto da credibilidade do País e as mais elementares regras de governança. Não tá nem aí. Inexiste um pingo de sentimento republicano correndo em suas veias. Faz demagogia e populismo com tarifas oficiais, mesmo que signifiquem homéricos rombos nos cofres da União, apenas e tão somente para angariar o sonhado apoio à reeleição.

O comportamento é esquizofrênico: aplica os mais abomináveis ritos sumários de autoritarismo para, logo depois, encenar um recuo com gestos falsos rumo a privatizações que, sabe, não sairão do papel. Assim se dá com os projetos da Eletrobrás e dos Correios, enviados ao Congresso como ardil tático insinuando pendor privatista. Quis calar os apupos da turba frente ao desassombro causado por sua evidente arrogância no caso Petrobras. Bolsonaro empulhou a sociedade, destruiu o valor de mercado da Companhia – que chegou a perder mais de R$ 100 bilhões em dias — e fez algo ainda de maior gravidade: sinalizou um País estatizante, desaconselhável para investimentos externos que busquem estabilidade. Com a solução simplista, do alto de seu “profundo” conhecimento sobre os humores do mercado e as oscilações de valor dos combustíveis, quis mostrar que é ele o maioral, fazendo como quer. Nostalgia, quem sabe, dos regimes de exceção, onde pontificava o princípio do aqui mando eu. No reacionarismo delirante e costumeiro, Bolsonaro meteu o País na boleia de um caminhão e o deixou a reboque das vontades de uma categoria. Ameaçado por uma greve de caminhoneiros, disse sim às demandas e partiu abertamente ao controle de preços. “Mudança comigo não é de bagrinho, é tubarão”, bravateou o chefe de Estado, cujo desatino vai provocando danos irreversíveis. Não há como ignorar a ruptura de valores provocada pelo episódio. O senhorio do Planalto, após consagrar uma aliança excêntrica e fisiológica com o Centrão, confirmou não apenas o tamanho do estelionato eleitoral praticado. Deu a senha de conduta para experimentos radicais e perigosos daqui por diante. Vai transformando o Brasil em uma republiqueta apequenada, no modelo venezuelano, na qual ninguém pode acreditar, sob pena de se dar mal. O fim da autonomia na Petrobras é muito mais que um mero incidente ou equívoco de percurso. Representa riscos concretos à democracia, conspira contra o Estado de Direito e propicia ostensivamente o livre arbítrio. A lembrar, sempre, que Bolsonaro foi um personagem parlamentar que votou contra o Plano Real, contra a quebra do monopólio das telecomunicações e do monopólio estatal do petróleo, contra a Reforma Administrativa que impunha o teto de gastos, votou a favor do regime especial de aposentadorias para deputados e senadores e contra o cadastro positivo. Na natureza, no comportamento, nos princípios, nas declarações, é um típico estatizante, pregador de um evangelho no qual o Estado tudo pode e controla. Jamais se converteu ao liberalismo, embora tenha vestido a carapuça para torna-se eleitoralmente atraente ao capital. Enganou meio mundo e fincou em Brasília as estacas de um projeto de poder concentrador. Vai fazendo da esbórnia intervencionista a marca de governo.

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