Comportamento

A era dos extremos

Enquanto no Rio de Janeiro a temperatura ultrapassa os 40ºC, nos Estados Unidos um fenômeno polar derruba as mínimas para -52ºC de sensação térmica. Tudo por causa do aquecimento global

A era dos extremos

As temperaturas registradas em 2019 mostram que esse será mais um ano de eventos climáticos extremos. Dependendo da região do planeta em que você estiver, casacos mais quentes deixaram os armários ou ventiladores e aparelhos de ar condicionado estão ligados em alta potência. No Rio de Janeiro, este janeiro foi o mais quente em 97 anos, com a temperatura atingindo a maior média desde 1922. No começo do ano, os termômetros chegaram a registrar 41,2°C. O desafio é grande para quem precisa caminhar pelas ruas ou trabalha de terno e gravata. Pensando nisso, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro até assinou um ato normativo dispensando os advogados do dress code.

Se no hemisfério Sul os ternos estão sendo dispensados por conta do calor, no Norte a entrega de pizzas foi cortada devido ao frio. No Meio-Oeste e na costa leste dos EUA, além de partes do Canadá, a sensação térmica bateu recordes de -40°C. Em Minneapolis, a sensação chegou a -51°C e as aulas em escolas públicas foram suspensas. Em Wisconsin foi decretado estado de emergência. Mais de 1,1 mil voos tendo os EUA como destino ou origem foram cancelados. Agora a Geórgia, onde empresas fecharam seus escritórios na terça-feira 29, torce para as temperaturas subirem. No domingo 3, receberá o Super Bowl, a final do futebol americano, um dos maiores eventos esportivos do país.

Ciclone polar

Em Chicago, às sete da manhã da quarta-feira 30, a sensação térmica foi de -52°C. Até a vodka, que não congela quando armazenada em freezers comuns, torna-se sólida em um clima desses. Para os americanos que não gostam do frio, o jeito é fugir para estados como o Texas ou a Flórida, alguns dos poucos que manterão os termômetros no positivo. A vantagem de tanto frio é a criação de belas paisagens, como o congelamento das águas das cataratas do Niagara, na fronteira entre os EUA e o Canadá. Lindo de se ver e bom para atrair turistas.

A causa de temperaturas tão extremas no Sul e no Norte é uma só: o aquecimento global, caracterizado pela elevação gradual da temperatura no planeta. No norte, as mudanças alteram o comportamento do vórtice polar (ciclones de baixa temperatura e pressão formados nos polos). No inverno, eles se desestabilizam e espalham-se para o sul. Com o aumento da temperatura, o fenômeno torna-se mais abrangente. O Ártico é uma das regiões do globo terrestre que está se aquecendo mais rapidamente, com registro de alta de 3°C na sua temperatura. “Esse aumento maior no Ártico e menor em regiões temperadas, como nos EUA, faz com que massas de ar muito geladas no inverno do hemisfério Norte se desloquem ao sul com mais facilidade. O vórtice polar fica enfraquecido, quebra-se e sai do isolamento”, explica Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. No hemisfério Sul, a elevação da temperatura no mundo todo torna os verões mais quentes.

Apesar de todas as evidências científicas provando a existência do aquecimento global, inacreditavelmente há uma parcela da população mundial que teima em negá-lo. O presidente americano, Donald Trump, é um deles. No ano passado, durante outro inverno congelante, ele usou o Twitter para fazer troça, perguntando que aquecimento era aquele propalado pela ciência que não impediu a descida dos termômetros. Nesse ano, repetiu a piada sem graça. Pelo Twitter, ele postou: “No belo Meio-Oeste, temperaturas gélidas estão alcançando -15 °C. Que diabos está acontecendo com o aquecimento global? Por favor volte rápido, precisamos de você!” Com o chefe do mais importante país do mundo falando tanta bobagem sobre o assunto, só restar pedir: ciência, por favor, não esmoreça. A Terra precisa de você.