Medicina & Bem-estar

A energia das células

Pesquisa laureada pela academia sueca mostra como as células humanas se adaptam à necessidade de oxigênio — e isso pode ajudar no tratamento de diversas doenças

Crédito: Jonathan Nackstrand / AFP

ADAPTAÇÃO Trio de cientistas vencedor na medicina: descoberta do mecanismo genético que induz a produção de glóbulos vermelhos quando o ar é escasso, como no alto das montanhas (Crédito: Jonathan Nackstrand / AFP)

O Prêmio Nobel de Medicina, concedido para os pesquisadores americanos William G. Kaelin Jr. e Gregg L. Semenza e para o britânico Sir Peter Raticliffe, que tiveram seus nomes divulgados pela Real Academia de Ciências da Suécia na segunda-feira 7, coroa um trabalho que terá importantes desdobramentos sobre a saúde humana e poderá contribuir para a cura de diversas doenças. As pesquisas mostraram que ao estarmos em locais em que o ar é rarefeito, no topo de uma montanha, por exemplo, ou debaixo d’água, ou mesmo quando perdemos grande quantidade de sangue, o próprio corpo desenvolve a capacidade de se adaptar, captando mais oxigênio para que o funcionamento do organismo não pare. A descoberta revela como acontecem os processos adaptativos do metabolismo humano sob níveis diferentes de oxigênio no ambiente.

“O potencial desse estudo é imenso. Podemos manipular as células e induzir o corpo a produzir mais glóbulos vermelhos”Marília Seelaender, professora do Instituto
de Ciências Biomédicas da USP (Crédito:Divulgação)

O grupo de cientistas descobriu um mecanismo genético que induz a produção de uma maior quantidade de hemácias (glóbulos vermelhos) em situações em que há escassez de oxigênio. São as hemácias que transportam o gás para todas as partes do corpo. “Milhões de células funcionam e recebem exatamente a quantidade de oxigênio que necessitam. O sistema que descobrimos é o mecanismo molecular que regula tudo isso”, afirmou Semenza durante a cerimônia de premiação. As células humanas se adaptam à necessidade de oxigênio e os níveis desse gás afetam o metabolismo celular e as funções fisiológicas.

Para a professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP Marília Seelaender, a importância de aprendermos como as células se sentem e se comportam e as alterações fisiológicas que acontecem mediante o nível de oxigênio podem modificar a forma como a medicina combate enfermidades que com frequência levam a óbito. “O potencial é imenso, isso pode ajudar no combate a todas as doenças. Podemos manipular as células e induzir ou não o corpo a produzir mais hemácias”, afirma. A partir desse estudo, o sucesso dos tratamentos contra a anemia, o acidente vascular cerebral, tipos de câncer e doenças cardiovasculares podem alcançar padrões mais satisfatórios.

Além do Nobel de Medicina, foram divulgados os vencedores dos prêmios de Física e Química. Em Física, os laureados foram os pesquisadores suíços Michel Mayor e Didier Queloz e o canadense James Peebles por suas contribuições para o entendimento da evolução do universo e o lugar que a Terra ocupa no Cosmos. Já o Nobel de Química foi para John B. Goodenough, M. Stanley Whittingham e Akira Yoshino pelo desenvolvimento das baterias de íons de lítio, mais duráveis, seguras e que carregam mais rápido do que as convencionais. Os vencedores do Nobel recebem um prêmio de 9 milhões de coroas suecas, equivalente a R$ 3,7 milhões.


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