Entrevista

Carlos Siqueira

A eleição será a democracia contra o autoritarismo, diz presidente nacional do PSB

Sergio Dutti/Isto É

A eleição será a democracia contra o autoritarismo, diz presidente nacional do PSB

Marcio Allemand
Edição 01/04/2022 - nº 2723

Advogado que no início da carreira militou na defesa dos direitos humanos, Carlos Siqueira preside o Partido Socialista Brasileiro (PSB) desde a morte do governador pernambucano Eduardo Campos, falecido em um dramático acidente aéreo em meio à disputa pela presidência da República em 2014. Apesar de seu partido ter decidido se aliar ao PT na disputa pelas eleições presidenciais deste ano, a relação entre Siqueira e Lula não é nada amistosa. O petista chegou a acusar o socialista de ter sido responsável pelas dificuldades encontradas pelo PT para a formação de uma federação com o PSB e preferiu se afastar das negociações, deixando a tarefa a cargo da presidente do partido, a deputada Gleisi Hoffmann. Nos bastidores, o comentário é de que Lula ainda não digeriu o fato de o PSB de Siqueira ter apoiado o impeachment de Dilma. Siqueira defende-se, dizendo que nunca foi procurado por Lula para tratar sobre o impeachment, mas que hoje tem consciência de que a decisão do PSB foi errada: “O PSB praticamente foi empurrado, sobretudo pelas ruas, a tomar aquela decisão”. Agora, com o ex-governador Geraldo Alckimin no PSB, e como vice na chapa de Lula, o discurso é o de superar as divergências do passado e trabalhar para a união das esquerdas em torno de um governo que traga dias melhores ao País.

Como está a relação entre PT e PSB hoje?
Nossa relação com o PT ao longo dos anos sempre foi um misto de convergências e divergências. Nós do PSB temos uma cultura político-partidária bem diferente da do PT. Nós temos afinidades com eles em diversos pontos, mas temos uma cultura bem distinta. O PT é um partido de tendências políticas. Nós sequer admitimos a hipótese de tendências dentro do PSB. Pode haver diferença de opinião, mas tendências não. É proibido no nosso estatuto. E essa é uma das nossas maiores diferenças. A meu ver, isso não contribui para uma visão hegemônica que possa ter um plano estratégico de desenvolvimento. No âmbito da esquerda, somos um partido que em muitos momentos disputamos contra o PT. Se você pegar, por exemplo, a eleição de 2010, nós disputamos contra o PT no segundo turno em Cuiabá, Recife, Fortaleza e Campinas e ganhamos nas quatro cidades. Daí ser impossível uma federação em que você não pode decidir seu próprio destino e de vez em quando ter de disputar ao invés de estar juntos.

Como Alckmin foi parar no PSB?
O Márcio França foi quem deu a ideia. Foi numa conversa com Lula que ele levantou o nome de Alckmin e para surpresa dele, e nossa também, Lula achou interessante e quis conversar com o ex-governador paulista, que, por sua vez, também gostou da ideia e a conversa fluiu até chegar ao ponto de ele vir se filiar ao PSB. Ele foi muito bem recebido no partido.

O que a chegada de Alckmin significa para aliança do PSB com o PT?
A chegada do Alckmin está dentro da nossa visão de que essa eleição não é esquerda contra direita, mas a democracia contra o autoritarismo. Está em jogo o futuro do País. Alckmin ajuda a alargar o espectro político da esquerda para o centro, que é o Lula mais precisa. Aliás, nós todos da esquerda precisamos. Para o PSB, a vinda de Alckmin foi muito boa, pois ele pode nos ajudar a cumprir a tarefa de dar uma virada de página na política nacional. Quando você procura as pontes comuns que nosso País precisa, você pode alargar os horizontes com os mixes ideológicos sem grandes problemas. Tudo isso compõe um mosaico político e econômico capaz de criar um projeto comum. A atual situação requer a compreensão da necessidade da unidade das diferentes forças políticas para superar esse momento de dificuldades. Na hora que superarmos este momento, cada um pode até pegar seu rumo. O ponto X é saber para onde queremos levar essa unidade e que rumo nós queremos dar ao nosso País.

O que Lula e Alckmin têm em comum?
Os dois representam duas forças defensoras da democracia e sabem da necessidade de uma reforma política profunda e ampla, sabem da necessidade de levar o país de volta ao desenvolvimento econômico e social.

Por que não foi possível formar uma federação entre o PSB e o PT?
Em primeiro lugar, pelas culturas diferentes dos dois partidos. Em segundo lugar, porque a estrutura de poder que foi proposta ao PSB para a composição da federação, não estava de acordo com o que pensamos para o nosso partido. Numa federação você transfere material eleitoral e congressual. Com isso, ficaríamos impedidos de tomar nossas próprias decisões. Desta forma, tais conflitos poderiam muito mais nos separar ao invés de nos unir. Numa assembleia com 50 integrantes, por exemplo, o PT teria 27, nós teríamos 15, e o PCdoB e o PV teriam 4 cada um. Haveria sempre uma posição hegemônica do PT. Mas o importante é que nós estamos unidos em torno do Lula para tentar derrotar Bolsonaro. As nossas diferenças não são tantas assim. Cada um tem um papel no cenário político e é legítimo que cada um tenha as suas pretensões. Mas quando é necessário que estejamos juntos, nós estaremos, como é o caso das eleições presidenciais deste ano, cuja disputa é autoritarismo versus democracia. Se Bolsonaro por acaso ganhar, eu acho que o que há de democracia hoje, altamente fragilizada, acaba.

Como está o apoio do PT ao PSB e vice-versa nas eleições estaduais?
O PSB está apoiando o PT nas eleições nacionais em quatro estados: Bahia, Sergipe, Rio Grande do Norte e Piauí. E temos o apoio do PT no Maranhão e em Pernambuco, que é muito importante para o PSB. E reivindicamos apoio do PT no Rio Grande do Sul, Espírito Santo e São Paulo. Nesses três estados não houve progresso nas negociações, mas segundo a Gleisi Hoffmann ainda temos o que conversar sobre esse entendimento. Se não progredirmos, teremos os nossos candidatos e o PT os deles. Sem brigas. Em São Paulo, por exemplo, nós falamos desde o início que o Marcio França só não será candidato se não quiser. E eu acho que ele tem melhores condições políticas de vencer a eleição do que o Fernando Haddad, podendo ampliar o espaço político mais ao centro em favor do próprio Lula.

Como o senhor avalia o governo Bolsonaro?
A avaliação que fazemos é profundamente negativa pelos resultados que ele está apresentando. São resultados muito ruins. O número de desempregados aumentou significativamente, temos uma inflação quase fora de controle como há anos não tínhamos. Gasolina cara, comida cara. O abismo social aumentou profundamente. Se no âmbito econômico os resultados são pífios, no âmbito social o fosso se aprofundou. Fora isso, esses anos de Bolsonaro no governo fragilizaram muito o sistema democrático, que já estava debilitado porque sua eleição já foi resultado do fracasso do sistema político necrosado. O sistema político se deteriorou ao ponto de gerar alguém como Bolsonaro, que foi eleito numa sigla praticamente de aluguel. O PSL tinha apenas dois deputados e ganhou a eleição derrotando os principais partidos e as principais lideranças do país. A eleição de 2018 representou a derrota do sistema político. Por isso é importante que façamos uma reforma política para sustentar nossa democracia.

O que uma eventual vitória de Bolsonaro pode significar para o Brasil?
Acho que do ponto de vista democrático, isso liquidaria o que ainda há de democracia. Do ponto de vista econômico, seguindo a cartilha de Paulo Guedes, aí o estrago será enorme. Vamos levar décadas para nos recuperar, porque ele adota uma política econômica de terra arrasada. Num país do tamanho do Brasil, o Estado não pode deixar de ser um grande investidor. Essa visão ultraliberal de que tudo se resolve pela lei do mercado, nos levou à esta crise sem precedentes. Onde é que isso deu certo? Desconheço.

Por que a esquerda perdeu apoio do eleitorado evangélico?
No Brasil, há um fenômeno de uma mudança no perfil do eleitorado. Pelo menos 30% desse eleitorado têm valores muito conservadores, o que corresponde exatamente ao crescimento do protestantismo nas últimas décadas no Brasil. Bolsonaro conseguiu empolgar esse setor, que encontrou nele um porta-voz. Acontece que ele é um defensor da moral da família, mas está na sua terceira família, né? A gente nem sabe bem se ele é católico ou protestante, porque uma hora ele aparece sendo batizado no Rio Jordão e em seguida está rezando para Nossa Senhora Aparecida. A verdade é que misturar religião com política é um veneno extraordinário. Por isso acho que a esquerda precisa ter um discurso mais assertivo para esse eleitorado, ao mesmo tempo em que não pode abrir mão de seu discurso libertário, não pode deixar de respeitar valores que são tradicionais e que também precisam ser considerados.

O senhor acredita em um candidato da terceira via?
A terceira via tem dois problemas e por isso eu acho que ela não tem chance de emplacar. Primeiro, ela não tem um líder com capacidade de empolgar o país. O outro problema é que a centro-direita no Brasil hoje é base do governo Bolsonaro. Todo fracasso da política econômica que nós estamos assistindo vem daí. Então, é muito difícil você ter uma candidatura consistente de um setor que apoiou todas as medidas econômicas que esse governo propôs. Onde estão o PSDB, o PSD, o DEM, o PRB senão na base do Bolsonaro? Que discurso eles vão fazer agora?

O PSB votou a favor pelo impeachment da Dilma. Houve algum arrependimento?
Sim, votamos. Mas hoje há uma certa consciência de que nós fomos empurrados para isso. A conjuntura interna do PSB naquele momento era muito difícil, nós não tínhamos saída. A candidatura do Eduardo Campos fez com que o PSB recebesse muita gente sem afinidade com o partido, tanto que há quatro anos nós tiramos treze deputados do partido a poucos meses das eleições. Nunca conversamos com Lula sobre o impeachment, mas quero dizer que hoje temos uma composição mais de centro-esquerda e há um reconhecimento de que o impeachment foi um erro. Fomos empurrados a ele. De um lado, pelas ruas, e de outro lado pela conjuntura interna do PSB. E tem também o fator de que o PT nunca nos procurou para tratar do assunto, pedir nosso apoio.

O que esperar dessa parceria com o PT agora?
Acho que a nossa parceria com o PT pode ser muito positiva. Dependerá muito de como as coisas serão conduzidas. Temos boas expectativas e queremos dar, modestamente, a nossa contribuição não apenas no aspecto eleitoral, mas, sobretudo, com idéias para o futuro governo.

Apesar das divergências, dá para confiar no Lula?
Se não confiarmos nele, vamos confiar em quem, se ele é o nosso candidato? Confiamos que ele possa avançar e ter a capacidade de reunir essas forças da esquerda e mantê-las no governo para fazer as mudanças que o país precisa.

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