Especial

A doentia herança da Covid

Aumenta o número de sobreviventes do coronavírus que passam a apresentar pesadas doenças correlatas — e algumas delas podem se tornar crônicas. Dos pés à cabeça, surgem prejuízos à saúde. Já não vivemos uma, mas, sim, duas pandemias

Crédito: Brenno Carvalho

A GLÓRIA ADOECEU O Campeão internacional de ciclismo Márcio Ribenboim: “Hoje é uma luta desumana o ato de sentar e levantar” (Crédito: Brenno Carvalho)

Especial –  Brasil 400 mil mortos

RASTRO DO VÍRUS Um ano após a cura, Vanessa segue dispersa e com grandes lapsos de memória: ataque ao sistema nervoso central (Crédito:GABRIEL REIS)

Apesar de sua altíssima infectividade, o vírus SARS-CoV-2, causador da Covid, não é o mais misterioso que já surgiu ao longo da jornada da espécie humana — o microrganismo da raiva, por exemplo, que remonta aos tempos medievais, só pôde ser visto com a invenção do microscópio eletrônico, em 1931. Nenhum outro agente patogênico, no entanto, deixa tantas sequelas e doenças correlatas, graves, crônicas e até paralisantes. Em todo o mundo, 76% de pacientes de coronavírus que se recuperaram já trazem sequelas decorrentes da Covid ou correm o risco de virem a apresentá-las, de acordo com a revista científica The Lancet, uma das mais conceituadas na área — segundo especialistas, tais males acometem jovens e não portadores de comorbidades e podem surgir até seis ou oito meses após a infecção primária. “Os pacientes têm um impacto real na qualidade de vida e, muitas vezes, depois de recuperados, tornam-se incapazes de levar uma rotina normal”, diz Nicolas Barizien, chefe da unidade de reeducação do Hospital Foch, em Paris. Os cientistas ainda tentam entender o motivo pelo qual isso ocorre. Afinal, apesar de o coronavírus ser um velho conhecido do organismo humano, há mais dúvidas que respostas. Uma das hipóteses é a chamada “tempestade imunológica”: diante de um invasor totalmente desconhecido, como o é o novo coronavírus, o organismo reage desproporcionalmente ao necessário (verificou-se isso com o vírus da Gripe Espanhola no início do século 20).

“Está-se criando, infelizmente, uma legião de sequelados. É ponto pacífico que o coronavírus está afetando o coração” Sergio Timerman, cardiologista do Instituto do Coração e integrante da Sociedade Brasileira de Cardiologia

As doenças correlatas indicam, infelizmente, que estamos a viver duas pandemias: a do vírus da Covid e a herança legada por ele. Esses pacientes, que carregam a triste lembrança da doença, podem inclusive, ver as sequelas cronificarem. O SARS-CoV-2 vai embora, mas o indivíduo nunca mais é o mesmo. É o caso da angustiante falta de ar, que afeta o paciente pós-Covid diante do menor esforço. Ainda que curados, os infectados ficam com cicatrizes em seus pulmões e isso diminui a flexibilidade do órgão, interferindo na troca de gases. “Eu não consigo mais sair sozinha. Dependo sempre de alguém para me acompanhar em atividades simples, como ir ao mercado e à farmácia”, diz a corretora de seguros, Raquel Rodrigues do Nascimento. Nem atletas ficam de fora. Estudos do Laboratório de Performance Humana, no Rio de Janeiro, mostram que 44% deles perderam 700 gramas de massa magra após a recuperação — em decorrência, perderam também o rendimento atlético. “Já fui campeão internacional de ciclismo, hoje é uma luta desumana o ato de sentar e levantar”, disse Márcio Ribenboim. Apesar da SARS-CoV-2 ser um vírus causador de infecção nas vias respiratórias inferiores e superiores, não somente pulmão, nariz e boca são afetados por doenças correlatas crônicas. Isso se dá porque a chave de entrada do coronavírus é a proteína receptora ECA2, presente em todos os tecidos do corpo — incluindo cabelos e região pubiana. É como se o nosso organismo estivesse escancarado. Não há saída.

A continuidade de um sombrio capítulo pandêmico são sequelas deixadas no coração. “É ponto pacífico que o coronavírus está afetando esse órgão”, diz o cardiologista Sergio Timerman, do Instituto do Coração de São Paulo e integrante da Sociedade Brasileira de Cardiologia. “Está-se criando, infelizmente, uma legião de sequelados”. As doenças são: arritmia cardíaca, infarto do miocárdio, dilatação do músculo do coração, Síndrome do Coração Partido e inflamação da capa de proteção cardíaca — que pode causar morte súbita. No fígado, há uma super produção de bile. Quanto às pernas, ficam elas reféns de coágulos, que geram tromboses. Há suficiente renal causada por deficiência dos rins. Diarreia crônica, dores abdominais e vômitos diários. Urticárias e sangramentos contínuos na pele. E, por fim, a mais indesejável das visitantes, que é a alteração mental, pode surgir devido a prejuízos no sistema nervoso central: fica-se à mercê de déficit cognitivo, acidente vascular cerebral, tonturas constantes, ansiedade e depressão. “Todas as células do cérebro podem estar vulneráveis ao vírus, afetando a memória, o fluxo de pensamentos e o pragmatismo”, diz o psiquiatra da Clínica Maia, especializado em oncopsiquiatria, Fábio Scaramboni Cantinelli. Há um ano Vanessa Sanches convive com tais sequelas: “Esqueço as palavras, tudo me dispersa, tudo se enevoa”. Todos esses males aqui arrolados são as principais sequelas. Hoje se sabe: para a maioria dos infectados, a Covid passa. Mas, para um crescente número de recuperados, é como estar em liberdade em um mundo aprisionado.