A distopia sanitária


É uma hipótese sinistra: uma exceção sanitária, instalada a partir do descontrole sobre a epidemia de coronavírus ou de qualquer outra praga que venha a nos atingir, pode contribuir para a implantação de um regime autoritário. Não parece, mas é um pequeno passo. O trabalho de combate às epidemias se assemelha a uma intervenção militar. A máquina do Estado funciona com todo seu vigor para proteger os cidadãos de um mal invisível. Para garantir o bem-estar da população, os agentes de saúde agem como soldados e colocam ordem na situação. Com trajes futuristas, que os fazem parecer astronautas ou extraterrestres, impõem sua razão absoluta e têm a prerrogativa do controle dos corpos. Vestem roupas brancas, são frios e totalmente objetivos. Atuam movidos por um entendimento técnico, uma determinação médica, uma vontade superior.

O inimigo é o micróbio, o vírus, algo que ninguém vê e que pode estar ao seu lado ou dentro de você. E as pessoas precisam ser defendidas dessa força oculta. Os doentes devem ser excluídos da sociedade, isolados. Os suspeitos de contágio são seres perigosos. Os indivíduos saudáveis podem ser transmissores. Sob o argumento da proteção da população e da redução de danos, o Estado pode fazer qualquer coisa. Pode prender, obrigar as pessoas a ficar em casa, acabar com o direito de ir e vir, processar quem transgrida qualquer norma de segurança, obrigar os cidadãos a fazer exames e analisar seu sangue. O Estado atua para o bem da maioria, para diminuir o risco de transmissão da doença e só resta à população civil se resignar e assistir a tudo atordoada.

Não é brincadeira. O novo coronavírus ou outras epidemias que vierem a surgir poderão, em algum momento, em uma situação limite, se tornar uma ameaça real à democracia. Uma doença descontrolada pode mudar o mundo completamente.

O combate a uma epidemia representa a imposição de uma racionalidade dominante, que se baseia na proteção da população. Ninguém irá contra essa imposição do Estado porque ela pode fazer a diferença entre a sobrevivência e a morte. Todos querem continuar vivos e ninguém quer ficar doente. Resta à população seguir as ordens e se deixar levar pelas autoridades sanitárias. Afinal, quem vai pensar em democracia em meio a uma peste? É aí que mora o problema. A democracia acaba e ninguém percebe.

O inimigo é o micróbio, algo que ninguém vê e que pode estar ao seu lado ou já dentro de você. E o Estado precisa defender as pessoas dessa força oculta


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