Comportamento

A discórdia sobre o aborto

Na praça diante do Hospital Pérola Byington, em São Paulo, grupos de pressão se enfrentam para defender e criticar a interrupção legal da gravidez

Crédito: Marco Ankosqui

DEFESA Daniela Abade, líder do movimento Primavera e Solidariedade, diz que o hospital salva a vida de muitas mulheres (Crédito: Marco Ankosqui)

ATAQUE Membros do 40 Dias pela Vida questionam aborto legal (Crédito:Marco Ankosqui)

A praça em frente ao Hospital Pérola Byington, no centro de São Paulo, se tornou um campo de batalha ideológica entre dois grupos antagônicos no debate da legislação sobre o aborto no Brasil. A disputa reproduz o que acontece em todo o País, onde o tema divide opiniões. Diante do hospital estão posicionados embaixo de uma barraca de praia azul, o pessoal do “Primavera e Solidariedade”, grupo formado por moradores da região, que conta com o apoio de várias organizações da sociedade civil e tem autorização da subprefeitura da Sé para se instalar no local durante 40 dias. O grupo respeita as medidas restritivas da pandemia e promove ações de apoio e exaltação ao trabalho realizado no Pérola Byington, principal referência na realização de abortos legais no País. “O hospital salva a vida de muitas mulheres”, diz a escritora Daniela Abade, organizadora do “Primavera e Solidariedade”. Mas do outro lado da praça, há outro grupo bem menor, com pessoas sem máscara, intitulado “40 dias Pela Vida”. Trata-se de um movimento religioso radical que questiona o trabalho feito no hospital e é contra a realização de qualquer tipo de procedimento para interromper a gravidez.

“Agimos de forma técnica e sempre dentro da legislação” André Malavasi, diretor técnico do Pérola Byington (Crédito:Marco Ankosqui)

Segundo o deputado estadual Douglas Garcia (PTB-SP), apoiador do “40 Dias pela Vida”, trata-se de um movimento do apostolado Santo Inácio de Loiola, que faz um tipo de vigília na praça. Na prática, o grupo é contrário a realização de qualquer tipo de procedimento de suspensão de gestação, independentemente da legislação vigente. “Mesmo o debate sobre aborto, deveria ser proibido”, sentencia Garcia. Já uma moradora de rua, Maria, que passa os dias junto ao “Primavera e Solidariedade” e leva um terço pendurado no pescoço, diz que não confia no grupo religioso extremista. “O trabalho do hospital é importante para as mulheres que são estupradas”, diz. Na terça, 28, o grupo de extremistas religiosos resumia-se a quatro pessoas, três mulheres e um homem, que não quiseram conversar com a reportagem. Daniela Abade conta que essa história de vigília começou em 2019. “Eles agrediam os profissionais de saúde e as mulheres na entrada do hospital”, conta. Ela lembra, que na ocasião, um dos seguranças do grupo, chegou a aplicar um golpe de estrangulamento, conhecido como mata-leao, em uma mulher que chegou ao hospital para passar pelo procedimento. “Como contraponto a essa violência decidimos nos organizar”, diz Daniela.

No Brasil, o aborto só não é qualificado como crime quando ocorre naturalmente ou quando é praticado por um médico capacitado em três situações: em caso de risco de vida para a mulher, causado pela gravidez, quando a gestação é resultante de um estupro ou se o feto for anencefálico, que é a ausência de cérebro. O hospital Pérola Byington surgiu na década de 1960 e, no decorrer dos anos, se tornou um dos principais centros de referência em saúde da mulher da América Latina. Especializou-se no tratamento ginecológico e no atendimento a mulheres em situação de vulnerabilidade que necessitam de cuidados, geralmente após episódios de abuso sexual. Segundo André Malavasi, diretor técnico do hospital que gerencia o setor de ginecologia, quando a mulher chega à instituição e solicita a realização do procedimento abortivo, desde que tenha mais de 18 anos, apenas a sua palavra basta. “Agimos de forma técnica e dentro da legislação”, afirma.

Protocolarmente, os médicos dizem que o funcionamento do hospital ocorre normalmente, apesar dos protestos. Mas o que se diz, a boca pequena, é que os profissionais elogiam e agradecem a força dada pelo “Primavera e Solidariedade” e rechaçam a atuação do “40 Dias pela Vida”, que, mesmo assim, tem direito a manifestar sua posição. De qualquer forma, o enfrentamento na Praça Pérola Byington tem prazo para acabar. Os dois grupos ficarão acampados para demarcar suas posições contra e pró aborgo legal até o próximo dia 31 de outubro.