Às 7 horas, Natalia Fernanda acorda em sua casa em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, e começa a se maquiar. Em seguida, a jovem de 27 anos junta malas de roupas, barraca dobrável, mochilas com acessórios e cruza São Paulo até o Jardim Anália Franco, na zona leste da capital, onde vai passar as quatro horas seguintes fotografando cerca de 30 looks nas calçadas do bairro nobre. Assim como centenas de outras meninas que são influenciadoras de moda para marcas do Brás, por trás das redes sociais, ela encara uma rotina de perrengues que incluem assédio nas ruas e condições precárias de trabalho.

“Sempre trabalhei sozinha. Dificilmente tem modelo no Brás com agência, a maioria das meninas é independente mesmo. Tento cronometrar minha semana, mas sempre muda de cabeça pra baixo porque as coleções têm um giro muito rápido”, conta Nati, nome artístico que exibe em seu perfil no Instagram, onde conta com mais de 147 mil seguidores.

Faz três anos que a modelo começou a trabalhar com marcas do Brás, um dos principais polos têxteis do País e da América Latina. Dos mil cartões que imprimiu quando decidiu ingressar na carreira, distribuiu mais de 500, indo de loja em loja, oferecendo diretamente o serviço para até cem lojistas por dia, todos organizados em uma planilha que ela montou. Logo Nati começou a ser chamada para fazer o “presencial”, quando as meninas passam até sete horas “em cima do salto”, exibindo os looks ao longo do dia no próprio estabelecimento.

“Quando comecei, não sabia de nada, não tinha uma visão”, conta ela. Hoje, são os lojistas que a procuram. Alguns deles, clientes fiéis que a acompanham desde o início, entre marcas de beachwear, sportswear e festas. Atualmente, cobra por hora o que recebia em um dia de “presencial”.

O pagamento das modelos é feito com base nos looks que entregam. Para cada dia de externa, elas fotografam de 10 a 50 combinações. Menos que isso, dizem, não vale a pena o esforço. O preço da foto pode variar de R$ 30 a R$ 90, apesar de a média estar mais entre R$ 50 e R$ 70 para a maioria delas.

O valor exato do trabalho é determinado pelo que elas “agregam” às imagens. Aí, entram fatores como a locação do ensaio, a qualidade do equipamento do fotógrafo, número de seguidores das modelos e até os acessórios que acompanham as roupas – as influenciadoras “maiores”, por exemplo, mesclam as peças com cintos, bolsas, sapatos e óculos de maisons internacionais, como Prada, Gucci e Yves Saint Laurent.

Autoestima

A maioria das influenciadoras de moda que atuam com marcas do Brás precisa desempenhar mil e uma funções. Quase agências de uma pessoa só, elas buscam os fotógrafos, cuidam do próprio agenciamento, da relação com as marcas, do cabelo, da maquiagem… E ainda passam as roupas, antes de vesti-las para os ensaios.

“Sempre quis fazer esse trabalho, mas não sabia como esse mundo gira. Aí, uma amiga que trabalha com isso me deu o ‘caminho das pedras’”, diz Meire Vasconcellos. Aos 37, a assistente social encara há um ano, dois dias por semana, o trabalho de modelo plus size no Brás como complemento da renda.

Segundo Meire, outro atrativo do trabalho é o impacto na autoestima. “Foi muito difícil me aceitar como gordinha. Tomei remédio para emagrecer aos 18 anos, já fiquei 20 dias sem comer sólido”, lembra. “Poder trabalhar, me ver bonita e mostrar que também posso me vestir bem é bom para o meu amor próprio.”

O plus size é um nicho que avança a passos largos entre as marcas do Brás. Meire garante que só não faz mais fotos por falta de tempo.

Divisão de fotógrafos

A demanda e a oferta de modelos para marcas do Brás é tão grande que chega a ser difícil conseguir fotógrafo. Por isso, as meninas costumam dividir os mesmos profissionais e ir juntas às mesmas locações em calçadas, fachadas e shoppings de bairros nobres da capital, principalmente nos Jardins, onde montam barracas improvisadas para se trocarem. Enquanto uma muda o look, a outra é clicada. “A gente contrata o fotógrafo vendo o trabalho com outras meninas”, explica Meire.

Um desses fotógrafos é Alexandre Danjó, que entrou ano passado no mercado, incentivado pela cunhada, que também é modelo do Brás e estava com dificuldade para achar profissionais disponíveis. Aos 44 anos, ele investiu: fez curso de fotografia, comprou equipamento e hoje conta que já trabalhou com mais de 30 meninas e faz até três sessões por semana, com duas ou três por vez. A prioridade, agora, é sua mulher, que também acabou se tornando modelo plus size.

Danjó, que também tem um trabalho “oficial” na maioria dos dias, conta que consegue tirar até R$ 5 mil por mês com o bico. Segundo o fotógrafo, o trabalho nem sempre é bem-vindo pelos moradores e comerciantes. Muitas vezes, conta, ele e as meninas são alvo de xingamentos. “As pessoas às vezes não gostam das barraquinhas na calçada.”

Outro problema enfrentado pelas modelos é o assédio que elas sofrem ao posar na rua. Na sessão externa que a reportagem acompanhou com Nati, a maioria dos motoristas que passavam diminuía a velocidade e fazia sinais enquanto a modelo posava na fachada de um bistrô. As cantadas e as importunações seguiram no dia seguinte, quando ela foi devolver os looks no Brás.

“Isso acontece direto. Muitas vezes mexem, gritam e querem chamar a atenção. Eu finjo que não ouvi porque não dá para absorver tudo”, conta Nati. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.