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A destruição da educação

O discurso ideológico de Jair Bolsonaro na área da Educação, enquanto era tão somente palavras, parecia nada mais que uma fala de alguém retrógrado, moralista e reacionário — um amontoado de estultícias. Quando aqueles que levam democraticamente a sério a Educação vislumbraram que o discurso poderia se tornar uma possibilidade, aí veio o medo. Agora a possibilidade virou fato — e dá pânico. Bolsonaro impôs oito nomes ao Conselho Nacional de Educação (CNE) em substituição aos integrantes que estão com o quadriênio de seus mandatos vencendo. O critério de escolha desprezou experiência e conhecimento técnicos, e prevaleceram, isso sim, as afinidades de ideologia. Mais: os indicados são na maioria seguidores do filósofo de internet Olavo de Carvalho e compõem o espólio do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub – aquele que trocava o nome do consagrado escritor Franz Kafka por “kafta” e achava que “acepipes” é sinônimo de asseclas.

Crédito: Five Buck Photos

ABANDONO O governo federal minou a infraestrutura e agora arrasará a base curricular: futuras gerações e democracia ameaçadas (Crédito: Five Buck Photos)

“A vara da disciplina não pode ser afastada da nossa casa (…). Bons resultados não serão obtidos por métodos suaves (…). Deve haver rigor, (a criança) deve sentir dor” Milton Ribeiro, pastor e novo ministro da Educação (Crédito:Divulgação)

Até agora é público e notório que a gestão Bolsonaro só teve ministros nesse setor que arruinaram entidades e sucatearam pesquisas com cortes de recursos. A diferença, avassaladora, e que as indicações ao CNE contemplam o que o mandatário mais queria: desestruturar a base curricular, desmontar currículos, minar tudo o que se ensina e aparelhar ideologicamente a entidade. Se a arcaica ideologia olavista e bolsonarista se disseminava pelas redes sociais e em fake news, agora poderá tornar-se base oficial de aprendizado de milhões de alunos.

EXPERIÊNCIA Ex-ministro Mendonça Filho: “o Ministério da Educação é mal repassador de verbas” (Crédito:Pedro Ladeira)

Trata-se de uma implosão. Ao Ministério da Educação cabe, principalmente, o repasse de verbas, “ainda que ele tenha se tornado um mal repassador desse dinheiro”, como diz o ex-ministro José Mendonça Filho. A missão do CNE é mais profunda e de maior alcance: composto por duas câmeras, uma delas cuidando do ensino básico e a outra, do ensino superior. Os olavistas invadem, sobretudo, justamente o território destinado à base. É ele, o ensino básico — alicerce de qualquer nação que sonhe com democracia e prosperidade —, que será destruído. Educar a base é fazer nascer a consciência crítica. E isso será detonado. Um exemplo: apesar de o Supremo Tribunal Federal, já em quatro decisões, ter derrubado as intenções bolsonaristas de proibir abordagens nas escolas sobre identidade e igualdade de gênero, esse é um dos pontos que se verá atacado. Adeus a qualquer debate sobre os problemas sociais; adeus as chances de discussões em salas de aula; adeus, talvez, a muitas escolas porque há ferrenha defesa de currículos que obriguem o aluno a estudar em casa — e, com certeza, haverá daqui para frente doutrinações políticas, religiosas, de costumes, e, vai ver, de terraplanismo. Há no País alunos pálidos de fome que não têm a mais pálida condição de aprender com sua também pálida e humilde família, e isso ficou claro no desespero e na necessária quarentena em meio à pandemia. Mas danem-se eles, segundo a visão educacional do bolsonarismo que torna o Estado líquido e enrijece o governo, que ameaça gerações e, sobretudo, ameça a própria democracia ao arruinar a estruturação dos currículos no País.

Era ruim? Vai piorar

“O desafio da educação brasileira é colocar numa mesma equação quantidade e qualidade. Precisamos melhorar a aprendizagem escolar e reduzir as desigualdades educacionais”, diz o educador e professor Mozart Neves, titular na Universidade de São Paulo da renomada “Cátedra Sérgio Henrique Ferreira”, uma das mais atuantes no segmento educacional. “De cada cem jovens que concluem o ensino médio, apenas nove aprenderam o que seria esperado em matemática e vinte e nove, em língua portuguesa”. Recente estudo do Insper em parceria com a Rede Globo apontou que a evasão escolar faz com que o Brasil juntamente com os que abandonam as instituições percam, ao longo da vida, R$ 214 bilhões. Pesquisa do IBGE divulgada na quinta-feira 16 indica que dez milhões de jovens não terminam o ensino médio e 70% deles são negros ou pardos.

Vital para a formação da cidadania e vital para o aprendizado, a possibilitar que crianças se tornem jovens com chances de ingressar bem no mercado de trabalho, o CNE se vê atropelado por Bolsonaro que não se dignou a consultar os conselhos estaduais e municipais de educação para a indicação de novos membros. Elenca-se aqui diversas declarações, intencionalmente uma na sequência da outra, para se explicitar a gravidade dos fatos. “Esse vai ser um período mais do que perdido para a Educação”, diz o cientista político Daniel Cara, que faz parte do Conselho da Universidade Federal de São Paulo. “O que mais preocupa é o desconhecimento técnico das pessoas indicadas”, diz Luiz Miguel Martins Garcia, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação. “O CNE é um órgão de Estado e não de um governo e repudia os critérios usados para sua nova composição”, afirma a nota oficial dos conselhos de estados e municípios. Para Maria Helena Guimarães de Castro, ex-secretária executiva do MEC, “a Educação básica estava com agenda bem articulada com estados e municípios nos últimos quinze anos”. Agora, é claro, essa agenda se desfez.

Como nada é tão ruim que não possa piorar, está nas mãos do Fundep R$ 3,5 bilhões para serem repassados — e o CNE é destinatário de parte dessa verba. E o que foi que piorou? É que falar que o dinheiro está nas mãos do Fundep é o mesmo que falar que está nas mãos do bloco parlamentar chamado “centrão”, hoje carne e unha com Bolsonaro. Dispensa apresentação, mas, em todo caso, lá vai: é puro fisiologismo. Em política é regra não se dar ponto sem nó, mas o “centrão” dá nó mesmo sem ponto – e o CNE corre risco de ficar amarrado. Retomando-se o princípio de que o muito ruim pode ficar pior ainda, o Ministério da Educação tem agora como titular o professor e pós-doutor presbiteriano Milton Ribeiro. Já defendeu em culto que a disciplina caseira, se preciso, tem de ser imposta às crianças à base de vara e dor. Certa vez, comentando sobre um feminícidio, aventou a hipótese de o homem ter enlouquecido de paixão porque a vítima pode tê-lo induzido a tal loucura com gestos e posturas.

VISÃO AMPLA Mozart Neves: “Melhorar o aprendizado e diminuir as desigualdades.” (Crédito: Silvia Costanti / Valor )

Machismo, puro machismo! Ele entra no lugar do ministro que ficou no cargo somente por cento e vinte horas porque mentiu reiterada vezes no currículo lattes, Carlos Alberto Decotelli. Decotelli, por sua vez, substituiu Abraham Weintraub que deu a Bolsonaro os nomes dos novos membros do CNE. Nessa ciranda de ministros, Weintraub ocupou a vaga do colombiano Ricardo Vélez Rodríguez. Limitemo-nos a um ponto e resumiremos facinho o que a gestão Bolsonaro pensa absurdamente sobre o Conselho Nacional de Educação. Sabem como Vélez Rodrigues o chamava? Aqui vai: “Conselho Soviético de Educação”. Claro que o S nada tem a ver com o N da sigla correta, mas também atualmente o ministério não tem nada a ver com nada. De qualquer forma, fica claro como o governo julgava a antiga formação do CNE, antes de aparelhá-lo com a sua ideologia de quem vê na educação o caminho da doutrinação política e dos costumes.

 

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