A democracia ignorante

Enquanto você junta seus trocados para tirar férias naquela pousadinha que sua prima ficou, um punhado de turistas como você e eu entraram para a História.

É que no último sábado a humanidade deu mais um passo em direção à conquista do espaço.

A gente comum rompeu aquela que o Capitão James T. Kirk, da Entreprise, se referia como “a fronteira final” na série de TV.

Pela primeira vez uma nave espacial ultrapassou os limites estratosféricos levando em seu interior apenas gente comum.

Turistas espaciais.

Foi a missão Inspiration4 da SpaceX de Elon Musk.

Durante três dias a cápsula Dragon esteve em órbita da terra a 575 km.

Isso é mais do que a distância que estamos da Estação Espacial ou do telescópio Hubble, para você que está imaginando que foi uma viagenzinha de nada.

A bem da verdade, um desses turistas não era como você e eu, ao menos no que se refere ao saldo bancário.

É que quem pagou a conta de dezenas de milhões de dólares da viagem foi o bilionário Jared Isaacman, de 38 anos, que além de sua própria passagem, também pagou pelos assentos de uma professora, uma enfermeira e um veterano da Força Aérea americana que o acompanharam na missão.

Não pense que foi como pegar um ônibus na rodoviária.

Os tripulantes da Inspiration4 tiveram que treinar por seis meses para conseguirem realizar o feito. Mas, no final, a missão foi realizada com sucesso.

Tempos estranhos esses em que vivemos.

Quatro turistas tiram férias no espaço. E ainda há quem discuta se a Terra é plana

Tempos onde a luz e as trevas se intercalam.

Se de um lado quatro turistas tiram férias no espaço, há ainda quem discuta se a terra é plana.

Se de um lado a ciência conseguiu criar, em tempo recorde, diversas vacinas para uma doença que acabou de surgir, há quem insista em não se vacinar valendo-se dos mais estapafúrdios argumentos.

Enquanto tanta gente dedica suas vidas para levar à frente o desafio de criar um futuro melhor, idiotas trabalham para nos atirar de volta à Idade Média.

Onde foi que erramos?

Quando e porque demos espaço para a ignorância se impor ao conhecimento?

Ao criar uma rede intrincada de conexões que permite a divulgação de opiniões como nunca ocorreu, dando enorme alcance para voz a cada um, ao mesmo tempo, falhamos em construir filtros para validar essas mesmas opiniões.

Qualquer um pode divulgar a bobagem que bem entender e, ajustando aqui e ali, criar um culto a sua própria burrice.

Até outro dia não permitiríamos que tanta ignorância se proliferasse.

Quando imbecis não tinham voz, suas imbecilidades estavam restritas a pequenos grupos que, sem a tração das mídias sociais, simplesmente evaporavam com o tempo.

Hoje o óbvio, o certo, o técnico, o científico é contestado sem nenhum argumento sólido.

Em nome de uma suposta liberdade de expressão, criamos um batalhão de crianças mimadas, que esperneiam e fazem birra quando contrariadas.

Na mesma semana em que demos um enorme passo em direção ao futuro, permitindo que o homem comum tenha acesso ao espaço infinito, demos também gigantescos passos rumo ao passado, quando foi permitido que a obstinação pela desinformação de nosso presidente mudasse as regras da ONU para seu discurso de abertura da Assembleia Geral.

O protocolo que obrigava todos os delegados do evento a estarem vacinados foi alterado para excluir desta obrigação os chefes de Estado e, assim, acomodar a pirracinha de Bolsonaro, que se deu ao luxo comparecer sem a vacina.

Uma entidade mundial da importância da ONU cedeu à nova ética onde nenhuma burrice será confrontada.

Que diferença existe, afinal, entre acreditar que a terra é plana, desqualificar a Ciência ou conceder aos caprichos do nosso presidente?


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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