Entrevista

Fabio Szwarcwald Gestor de Cultura

A cultura é maior que os partidos ideológicos

Felipe Fittipaldi

A cultura é maior que os partidos ideológicos

Paula Alzugaray
Edição 06/12/2019 - nº 2606

Fabio Szwarcwald fez uma gestão exemplar como diretor da Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, no Rio de Janeiro, no biênio 2017-2018. Em um estado arruinado, ele criou um programa de formação gratuita, que beneficiou 264 alunos com bolsas de estudo integral – 25 para artistas vindos das periferias. Arrecadou R$ 1 milhão em crowdfunding para a remontagem da exposição Queermuseu, censurada em Porto Alegre em 2017. Também captou R$ 4 milhões em uma programação de cursos. Mesmo assim, em 21 de novembro, foi exonerado pelo Secretário Estadual da Cultura e Economia Criativa, Ruan Lira, após um processo que não confirmou irregularidades. Na quarta-feira 4, por sua vez, Lira foi afastado, deixando um saldo de realizações menos edificantes, como ter empenhado apenas 2% do orçamento previsto neste ano aos equipamentos culturais do Rio, segundo um estudo divulgado pela Comissão de Cultura da Assembleia. Com uma bagagem de 22 anos de experiência em operações financeiras, Szwarcwald fala à ISTOÉ sobre o modelo de gestão privada que desenvolveu em uma das mais tradicionais instituições culturais públicas do Rio de Janeiro.

Como você vê a migração do secretário da Cultura para a Casa Civil, depois de ele o ter exonerado do cargo de diretor da EAV Parque Lage, sem comprovar nenhuma irregularidade?

Eu soube que a Comissão de Cultura da Alerj já estava há muito tempo em cima do secretário, desconfortável com várias ações que ele vinha tomando sem clareza, sem transparência, sem explicar motivo ou estratégia. Acho que a sua exoneração se deve ao modo como ele estava conduzindo a pasta. Ele não repassava dinheiro nenhum para os equipamentos. Para o Theatro Municipal, ele passou só R$ 1 milhão este ano. Isso diante de um orçamento de mais de R$ 30 milhões. Para a Casa França-Brasil, a Sala Cecília Meireles e o Parque Lage, não repassou nada. E alguém da iniciativa privada, que estava fazendo algo que era fundamental, que ele não fez, foi exonerado sem motivo, com insinuações falsas.

Depois de o processo não apontar irregularidades, foi alegado que a relação com você ‘‘tornou-se irremediável e sem sintonia”. Como estava a parceria com a Secretaria de Cultura?

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Em dez meses, o secretário foi à escola uma única vez, para a abertura da exposição do Museu de Arte Naïf. Nunca mais pisou na escola, mesmo que a EAV seja um dos principais equipamentos dele. Nem ele, nem o superintendente de artes, nem ninguém. Eu sempre prestei contas. Fiz um livro com relatório de gestão em 2017 e 2018 e entreguei na mão dele. Desde que entrei na EAV, há dois anos e sete meses, o estado não bota nada na escola. Investi R$ 4 milhões, dinheiro que captei. O que o Estado coloca por mês hoje são R$ 180 mil, no máximo, para pagar água, luz, segurança e limpeza do Parque Lage. Nem limpeza interna eles pagam mais. Neste ano, ele reduziu meu salário duas vezes. Meu projeto na escola iria finalizar quando eu captasse R$ 42 milhões para restaurar o Parque Lage. Mas ele não quis assinar, dizendo que não tinha uma dotação orçamentária para esse fim. Eu falei que buscava o dinheiro. Consegui acabar o projeto executivo, falei com investidores, tinha gente querendo. Fui afastado justamente no mês de captação da Lei Rouanet. Não dá para entender a cabeça de um cara desses. O que imaginei é que eles quisessem replicar o modelo para outros equipamentos do estado que não estavam funcionando. O que aconteceu foi uma caça às bruxas.

Uma de suas primeiras ações na EAV foi enfrentar o conservadorismo e remontar a exposição Queermuseu. Houve tentativa de ingerência na programação?

Não, a curadoria nunca sofreu intervenção. Foi uma questão pessoal comigo. Eles diziam que eu aparecia muito nos jornais! O Queermuseu recebeu 40 mil pessoas em 28 dias, a exposição de Arte Naïf, 32 mil pessoas em 56 dias, e a Campo, mais de 40 mil pessoas em 58 dias. As três exposições, gratuitas, receberam 112 mil pessoas, sem contar as crianças. Se eu cobrasse R$ 10 o ingresso, faria uma diferença enorme para o caixa da Escola, mas aí entra o caráter social do projeto. Isso fortaleceu a escola, que virou um lugar muito democrático e plural. Com o Queermuseu, a gente fez 25 apresentações de grupos musicais LGBTs, contratou 15 trans para trabalhar no programa público da exposição. Elas nunca tinham entrado num museu. Conseguimos trazer muita gente que nunca tinha entrado ali porque achava que aquilo era um palácio, um lugar que não pertencia a eles. Meu trabalho foi garantir esse pertencimento. Isso deu força e visibilidade à Escola. Eu fiz uma clipagem: em 2 anos e 6 meses foram R$ 85 milhões em mídia espontânea. Positiva! Sem contar capa do jornal The New York Times duas vezes, matéria no Le Figaro, Artsy, Art News. Todas aquelas revistas internacionais publicaram matérias do Queermuseu.

Como você conseguiu convidar a iniciativa privada a apoiar um equipamento público com sérios problemas financeiros e endividado?

Quando o André Lazaroni (Secretario Municipal da Cultura do governo Sérgio Cabral Filho) me chamou para trabalhar no Parque Lage, disse que não tinha dinheiro para me repassar, pois o estado estava quebrado. Se fosse uma empresa, a EAV estaria em recuperação judicial, porque não pagava funcionários havia quatro meses. Ele falou: ‘‘Olha, assume isso, que você é bom gestor e vai resolver’’. Eu falei com todos os meus amigos, que disseram: ‘‘Você é louco de assumir esse negócio. Não tem condição nenhuma de dar certo. O estado não vai pôr dinheiro, tem dívida antiga de R$ 1,8 milhões com outros fornecedores.’’ Eu entrei e muita gente questionou isso, dizendo ‘‘como é que um cara de mercado financeiro, que não entende nada de Cultura, vai tocar uma escola?’’ Fiquei quieto e falei que ia trabalhar. Assumi aquilo nessa situação. Comecei a fazer um trabalho de saneamento das finanças, desenvolver novos projetos e novo modelo de captação. A gente começou a fazer um trabalho muito ligado à independência financeira. E deu supercerto. Veja bem: se os equipamentos tem que conseguir se sustentar e o governo quer reduzir a máquina. Eu consegui me sustentar. Se os equipamentos tem que cortar funcionários públicos para se tornarem eficientes, tudo bem, assumo todos eles: 100% dos funcionários da escola recebem da AMEAV (Assocação de Amigos da Escola de Artes Visuais). Eu era o único funcionário público dentro da Escola. Se era preciso fazer um trabalho social, tripliquei o número de bolsas de estudo. Aumentei em 20% o número de alunos pagos. A Escola virou superavitária. Aumentou a visitação em 20%: a gente recebeu 50 mil pessoas por mês. É o quarto equipamento cultural mais visitado do Rio de Janeiro. Perco para o MAR, o Museu do Amanhã e do Aquário. Na minha gestão, a Escola saiu de um déficit mensal de R$ 70 mil a 100 mil por mês para um superávit de R$ 20 a 30 mil mensais. O lugar nunca teve tanta programação gratuita, exposições tão importantes – e tudo de graça.

O Museu de Arte do Rio (MAR) e o Museu do Amanhã estão buscando fortalecer o fomento da iniciativa privada para continuar existindo. Esse modelo pode dar certo lá também?

Não que eu ache que o estado não tenha que colocar dinheiro. Mas, se eu dependesse do estado, não faria nada da minha programação. No atual cenário do Brasil, essa é a alternativa mais viável para conseguir manter os museus, com suas programações para serem realizadas de forma completa e permanente. A sustentabilidade cultural vem hoje em grade parte da iniciativa privada, já que os governos têm problemas de caixa e a Cultura não é vista como prioridade. Existe uma outra visão de que esses equipamentos têm que ser sustentados sem ajuda nenhuma governamental. Não acho que isso seja correto, acho que o governo tem uma enorme responsabilidade em manter os equipamentos ativos e fortes, já que eles tem um trabalho social muito importante, como é o caso do MAR com a comunidade da Zona Portuária.

Com a sua saída da instituição, quem vai pagar as contas da Escola no próximo mês?

Eu deixei em caixa R$ 1,3 milhão para a Ameav continuar a pagar salários. Mas, com a minha saída, outros R$ 800 mil reais não serão mais investidos. Então esse caixa vai durar oito meses. Os conselheiros já pediram a renúncia. Aí eles vão ter que criar outra associação de amigos. Se não entrar ninguém, a Escola vai parar. Eles acham que o equipamento por si só se financia, mas não é bem assim. São pessoas. É o legado da pessoa que está a frente da gestão é que faz a diferença. Qual era meu projeto? A Escola está totalmente montada. Ela tem caixa, tem um programa fechado para 2020, tem funcionários, captação em lei aberta e investimento. Estava me preparando para passar esse bastão depois de captar esses R$ 42 milhões para o restauro da escola, que era o meu sonho final.

Temos hoje uma ingerência ideológica explícita na figura do secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, que parece ter ganho carta branca para desmontar o setor da Cultura. Como você analisa essa situação no governo federal?

Vejo com preocupação muito grande porque a Cultura é maior do que partidos ideológicos. Todos nós retrocedemos com isso. Acho que a diferença de ideias é fundamental num país que quer crescer. Numa empresa também. A heterogeneidade é importante porque traz discussões criativas. Um país tão aberto, tão liberal, tão plural como Brasil sempre foi uma referência na arte e na música.

Essa primeira experiência na gestão pública foi um conhecimento adquirido?

Com certeza. Foi um MBA que não tem preço! E o secretário só me ajudou com isso. Todo mundo viu meu trabalho por causa da situação em que ele me colocou. Só me pôs em evidência. Agora posso fazer algo até maior, porque já entreguei. Muita gente fala, fala, mas não entrega.

Você pretende continuar na vida pública? Você pensa em asumir uma carreira política?

Isso é para ser levado, não é para pedir. Se não, você não tem força. Se você pedir, está morto. Porque aí você tem que negociar e eu não sou uma cara de negociar dessa forma. Eu não quero. Estamos montando uma associação, a Frente pela Cultura, para ajudar a viabilizar as atividades dos equipamentos culturais do Rio de Janeiro a sobreviver sem apoio todo do estado. Vai ser um movimento bacana, forte e importante.

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