Brasil

Governo abandona incentivo a artistas e promove livro sobre o uso de armas com dinheiro público

Governo abandona incentivo a artistas e usa Lei Rouanet para promover o uso de armamentos, acirrar a guerra cultural e estimular as pessoas a lutarem contra a interferência do Estado nas suas vidas

Crédito: Divulgação

AMEAÇA Eduardo Bolsonaro e Mario Frias exibem seus fuzis: imposição da ideologia da violência na área cultural (Crédito: Divulgação)

INCENTIVO A Taurus conseguiu benefícios da Lei Rouanet para
a produção de um livro sobre a história das armas no Brasil (Crédito:Diego Vara )

Desde que assumiu, o presidente Jair Bolsonaro tem mostrado especial aversão à Lei Rouanet, reduzido o valor dos repasses e impedido que projetos de incentivo à cultura desalinhados com sua ideologia recebam o benefício. Mas quando se fala em armamentos a Secretaria Especial da Cultura não perde tempo e saca sua pistola. Antes de deixarem os cargos para disputarem as próximas eleições, o secretário especial Mario Frias e seu adjunto, o secretário de fomento André Porciúncula, um ex-PM, que fizeram um trabalho de desmantelamento da pasta, aprovaram um projeto em tempo recorde, menos de quatro meses, que prevê a produção de um livro sobre a história das armas no Brasil com o patrocínio da Taurus, fabricante nacional de revólveres e fuzis. O projeto já captou R$ 336 mil da empresa, renderá três mil cópias do livro e é um exemplo perfeito da guerra cultural que o governo encabeça no País, em que iniciativas de festivais de jazz são rejeitadas em prol de interesses ideológicos imediatos. Enquanto os artistas passam à míngua, Bolsonaro tenta promover o pensamento armamentista de maneira desavergonhada.

LOUCURA André Porciúncula defende a importância dos revólveres para a “liberdade humana” (Crédito:Divulgação)

Produção audiovisual

No final de março, em uma convenção de um grupo pró-armas, Porciúncula deixou claro quais são os objetivos do governo. O ex-secretário disse para os ouvintes que eles poderiam pleitear R$ 1,2 bilhão em recursos da secretaria para desenvolver projetos de incentivo ao uso de armas pela população. “Estamos lançando agora uma linha de crédito para audiovisuais que vocês podem usar para fazer documentários, filmes, webséries e podcasts”, disse. “Para quê? Para trazer a pauta do armamento dentro de um discurso imaginário. Trazer filmes sobre armas, sobre a importância dos armamentos para a civilização e para a garantia da liberdade humana.” Pela visão bolsonarista, o uso de armas é uma forma de lutar contra a “criminalidade praticada pelo Estado” e um exercício de libertação. O livro da Taurus, cujo título é “Armas & Defesa: a História das Armas no Brasil”, destaca o uso de armamentos no País desde antes da chegada dos europeus até o século 21 e exibe artefatos usados para defesa e caça pela população nativa e pelos colonizadores ao longo dos tempos. A obra se enquadra perfeitamente na filosofia bolsonarista de naturalizar o uso de armamentos.

A cultura da bala prospera velozmente no País, graças, em grande parte, à propaganda oficial. Na esteira de dezenas de medidas propostas pelo atual governo que facilitam o uso de armamentos, aumentaram as vendas de armas e a concessão de portes num ritmo nunca visto. Em quatro anos, segundo a Polícia Federal, as vendas quase quadruplicaram, saltando de 54 mil, em 2018, para 201 mil no ano passado. Ao mesmo tempo, os portes cresceram 57%, subindo de 8,6 mil para 13,6 mil. Não por acaso a Taurus, maior fabricante de armas leves do País, foi uma das empresas que mais cresceu durante o atual governo. Desde que Bolsonaro assumiu, ela viu seu faturamento avançar 204,7% e os lucros aumentarem 1 059%. No ano passado, a empresa alcançou uma receita recorde de R$ 2 bilhões e lucro de R$ 428 milhões, o melhor resultado de sua história. Além do projeto do livro, a empresa financiou outras iniciativas pela Lei Rouanet, como um memorial do Holocausto e a instalação de oficinas de música e artes visuais para pessoas vulneráveis socialmente, ambas no Rio de Janeiro. Nenhuma delas, porém, se enquadra no plano ideológico do governo para a banalização do uso de armas no Brasil.

O pistoleiro desastrado

Pedro Ladeira

O pastor presbiteriano e ex-ministro da Educação Milton Ribeiro deu mais uma demonstração de imperícia e falta de responsabilidade na segunda-feira, 25. Uma arma que ele carregava em sua pasta disparou acidentalmente no balcão de check-in da Latam, no aeroporto de Brasília. Uma funcionária da companhia acabou ferida por estilhaços. Ribeiro afirmou que mexeu na sua pistola Glock, calibre 9mm, para tirar sua munição, condição para embarcá-la no avião. Argumentou que não queria exibir a arma publicamente e que ela disparou quando tentava separá-la do carregador. Ribeiro, que tirou o porte em dezembro de 2020, foi levado para a Polícia Federal para prestar esclarecimento. É mais uma lição sobre o perigo que significa uma arma em mãos erradas.