A cruel morte do jornalista que não morreu
PRECAUÇÃO Protestos contra o desaparecimento de Jamal e entrada do consulado saudita em Istambul (Crédito:Ozan Kose; Mohammed Al-shaikh)

O jornalista saudita Jamal Khashoggi entrou no consulado de seu país em Istambul, na Turquia, no início da tarde do dia 2 de outubro. Passadas duas semanas, ainda não havia sido visto. O mistério sobre o que aconteceu a Jamal deu um nó nas relações diplomáticas já complicadas entre os governos ocidentais e a Arábia Saudita, país de regime autoritário que tem a bênção do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Criou uma saia justa para os Estados Unidos, que sempre tiveram no país árabe um aliado contra o Irã e também um grande cliente. Não foi sem claros objetivos que Donald Trump fez da Arábia Saudita seu primeiro destino internacional logo após assumir a presidência, em janeiro de 2017. Com seu pragmatismo empresarial falando mais alto até que a posição de chefe de Estado, Trump barganhou com o príncipe Mohammed bin Salman: os EUA fariam vista grossa às atrocidades de Salman desde que o príncipe comprasse armamentos americanos. O negócio é estimado em US$ 110 bilhões. “Se não comprarem de mim, comprarão dos russos ou dos chineses”, declarou Trump na ocasião. Parecia bom para ambos. Até Jamal desaparecer misteriosamente.

Após as denúncias de que o jornalista teria sido torturado e morto, o presidente americano mostrou que pode ser louco, mas não rasga dinheiro. Apesar das fortes evidências de que Jamal foi morto dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul, Trump difundiu várias teses sobre o caso, todas amenizando o papel de seu aliado. Jamal Khashoggi era um respeitado jornalista proveniente de uma família que faz parte da elite árabe. Ele se tornou um ácido crítico do regime comandado por Salman e, em 2017, mudou-se para os EUA porque temia por sua segurança na Arábia Saudita. Na terra de Trump, tornou-se colaborador do jornal The Washington Post.

 

Sete minutos

O jornalista foi ao consulado de seu país na Turquia porque precisava pegar documentos para se casar com Hatice Cengiz, turca. Ela o acompanhou até a porta e ficou esperando do lado de fora. Precavido, Jamal deixou com a noiva o número do celular de um assessor do presidente da Turquia, Recep Erdogan, caso demorasse a voltar. Não saiu mais.
No mesmo dia, foi registrada uma intensa movimentação de agentes sauditas entrando e saindo do consulado. Todas as evidências levam à conclusão de que o jornalista teria sido torturado e assassinado no prédio. Um áudio em mãos da polícia turca comprovaria o fato. Tudo — tortura e assassinato — teria durado sete minutos. O jornalista teria tido os dedos e a cabeça cortados e o corpo, esquartejado. Os despojos mortais teriam sido tirados do local.
O horror foi negado pela Arábia Saudita e só não foi ignorado por Trump por causa das pressões para que se posicionasse. Sua reação foi patética. O presidente americano afirmou, por exemplo, que Jamal fora assassinado dentro do consulado como resultado de “um interrogatório que deu errado, com agentes fora de controle” e feito “sem o conhecimento de Salman”. Disse também que o jornalista não era americano, como se isso fosse desculpa para colocar na gaveta um caso de crime contra os direitos humanos. Até a quinta-feira 18, nenhum esclarecimento oficial sobre o que aconteceu a Jamal havia sido feito ao mundo, que espera uma resposta sobre o triste mistério.
A cruel morte do jornalista que não morreu