Comportamento

A Covid é aqui

Uma combinação perversa entre um governo inoperante e a chegada de uma nova cepa do coronavírus expõem o Brasil a uma terceira onda e o transformam, definitivamente, no lugar mais problemático de uma tragédia sanitária global

A Covid é aqui
CEPA INDIANA Navio vindo da Malásia está em alto-mar na costa do Maranhão com 23 tripulantes a bordo, 14 contaminados
e nove sem sintomas (Crédito:Divulgação)

Parece que todo mal da pandemia converge agora para o Brasil, que se tornou um lugar amaldiçoado, sob o risco iminente de ser um dos raros países do planeta onde se inicia uma terceira onda de coronavírus. Se não for a terceira, já se trata de uma segunda onda prolongada, que está recrudescendo e, mais uma vez, vem causar insegurança e testar a paciência e a capacidade de sofrimento da sociedade. Com a vacinação atrasada e medidas de isolamento e de proteção sendo desestimuladas pelo governo federal, e desrespeitadas com frequência alarmante, um novo salto de contágios e mortes se tornou inevitável. A média móvel de casos diários cresceu e atingiu 66 mil novos doente por dia — um aumento de 8% em 14 dias. Também parece determinante para uma piora geral da situação a chegada da nova cepa indiana, identificada em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Maranhão, onde um navio vindo da Malásia está em alto-mar com 23 tripulantes a bordo, 14 contaminados e nove sem sintomas. Os últimos números indicam um total de 460 mil óbitos e, no ritmo atual de contágios, o Brasil avança célere para atingir a marca de 500 mil e, em seguida, alcançar os Estados Unidos como o lugar mais letal no mundo. Lá, até a última quarta-feira, 26, segundo a Universidade Johns Hopkins, morreram 591 mil pessoas pela Covid-19, mas a vacinação em massa evoluiu e o número de casos despencou.

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LENTIDÃO Ritmo da campanha de vacinação está muito abaixo do esperado, faltam imunizantes e há problemas de filas:
falta de informação (Crédito:Domingos Peixoto)

As pessoas com menos de 60 anos são as vítimas da vez, até porque foram menos vacinadas e se tornaram a maioria nas internações

Os sinais da terceira onda não param de pipocar por aqui e seus primeiros indícios mostram que ela irá alcançar uma população mais jovem do que a que vinha sendo atingida até agora. As pessoas com menos de 60 anos são as vítimas da vez, até porque foram menos vacinadas, e se tornaram maioria nas internações. Pelo menos nove capitais – na semana passada eram sete – voltaram a ter ocupações de seus leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) superiores a 90%, com risco de colapso, e os demais estados estão com a capacidade estável em alto patamar e em permanente estado de alerta. No Distrito Federal, por exemplo, mais de 95% dos leitos de UTI estão ocupados. Outro sinal de piora vem da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que apontou em seu boletim mais recente um crescimento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causada pelo coronavírus em oito unidades da federação e reversão de queda de contágio em somente outros 12 estados. As perspectivas são as piores possíveis e há mais de quatro meses morrem mais de mil brasileiros por dia – na última quarta-feira, foram 2.399. Secretários de estados e municípios de todo o País têm comunicado ao Ministério da Saúde o aumento diário da pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) e cobrado medidas de prevenção para minimizar os impactos da nova onda.

IRRESPONSABILIDADE Acúmulo de erros do governo levou a situação caótica: falta de oxigênio e de outros insumos hospitalares (Crédito:Bruno Kelly)

O governo se mostra contraditório em relação a apoiar mais uma fase de isolamento. Nas suas últimas declarações sobre o assunto, o presidente Jair Bolsonaro voltou a chamar o controle sanitário de estado de sítio e disse que entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF) contra as medidas adotadas por governos de estados e municípios. Já o ministro Marcelo Queiroga, durante uma audiência pública na Câmara, admitiu que há um aumento de casos e que uma terceira onda é possível, inclusive pela chegada da cepa indiana, e que os municípios deverão ser obrigados a impor novas medidas restritivas num trabalho conjunto com o Ministério. Apesar disso, Queiroga também entrou na guerra cultural proposta por Bolsonaro e, numa completa mudança de foco, decidiu culpar o SUS pelo agravamento da pandemia e pelo grande número de mortes no Brasil. Deveria atribuir o acirramento da crise à falta de respeito às regras de controle, à falta de vacinas e ao uso de cloroquina e do Kit-Covid, problemas fomentados pela próprio governo. Mas, para o ministro, a responsabilidade é do SUS, que está com suas unidades “sucateadas” e padece de “vicissitudes”.

Nessa altura, a única forma de evitar uma nova aceleração da doença seria decuplicar o nível de vacinação. Mas isso não vai acontecer. Acumulando atrasos e falta de coordenação, o governo faz pouco para melhorar a situação, perdeu o bonde internacional das vacinas e agora tem que se contentar com os excedentes de outros países. O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse na CPI da Covid que se o Brasil tivesse trabalhado direito teria 60 milhões de doses de vacinas em dezembro passado. Cerca de 20% da população suscetível tomou a primeira dose e as perspectivas de imunização são sofríveis, com poucas chances de alcançar toda a população até o final do ano. Nos Estados Unidos e em vários países da Europa, onde a vida começa a voltar ao normal, mais da metade dos cidadãos adultos já foram imunizados. As interrupções na campanha de vacinação têm sido frequentes em vários estados e todos os meses as metas iniciais de chegadas de carregamentos de vacinas e de insumos para sua produção local são frustradas. Agora, o Ministério reduziu mais uma vez a previsão da chegada de vacinas em junho, em cerca de 8 milhões de doses. A meta inicial era de aplicar 52,2 milhões de doses, mas o volume não passará de 43,8 milhões. O principal corte veio da AstraZeneca/Oxford, produzida pela Fiocruz, que reduziu o volume previsto de entrega de 34,2 milhões para 20,9 milhões. Houve, porém, a inclusão de 4,8 milhões de doses da Covax Facility.

ALERTA Pelo menos nove capitais voltaram a ter ocupações de seus leitos de UTI superiores a 90% (Crédito:GUSTAVO BASSO)

Para o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a culpa pelo agravamento da doença no País é do SUS

A cepa indiana, chamada de B.1.617, preocupa pela velocidade de transmissão. Até a última quarta-feira, o Ministério da Saúde havia confirmado sete casos de infecção com a variante, seis em São Luiz (MA) e um em Campos do Goytacazes (RJ). Outros três casos suspeitos em Minas Gerais e no Pará estavam sendo monitorados. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), além de maior risco de transmissibilidade, a cepa tem características que podem tornar as vacinas menos eficazes. Alguns laboratórios, como a Pfizer e a AstraZeneca/Oxford, confirmaram a eficácia da vacina contra o vírus indiano. Embora os estudos seja preliminares, testes indicaram também que o novo vírus foi responsável por infecções mais graves em roedores, que apresentaram um quadro de maior inflamação nos pulmões. A cepa alcançou, até agora, pelo menos 53 países. Algumas medidas preventivas foram tomadas pelo Ministério da Saúde no Maranhão, como o envio de 600 mil testes rápidos e a implementação de barreiras sanitárias em aeroportos, rodoviárias e nas principais estradas.

Em São Paulo, o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, acusa a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de ter sido negligente ao permitir que um passageiro contaminado com a variante indiana circulasse livremente pelo aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Gorinchteyn afirmou que o homem de 32 anos apresentava sintomas da doença, como dor de cabeça e mesmo assim foi liberado. A Anvisa diz que o viajante foi abordado e negou qualquer sintoma. No estado de São Paulo, inclusive, o governador João Doria (PSDB) decidiu suspender o aumento da flexibilização das medidas restritivas previstas para o início de junho por causa do aumento de casos de Covid-19. O estado passará pelo chamado período de transição durante pelo menos 14 dias. Em outros estados, como Pernambuco, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul reforçaram as medidas de restrição.

O ranking Covid Resilience, produzido pela agência Bloomberg, que analisa a situação de 53 países em relação ao controle da doença e aponta os melhores e os piores lugares para se viver neste momento, coloca o Brasil num triste 51º lugar, à frente da Colômbia e da Argentina, mas logo abaixo da Índia, onde apenas 3% dos adultos foram vacinados. Se existe hoje um epicentro da pandemia, esse lugar é a América Latina, região que concentra a maior taxa de mortalidade pela Covid-19 no planeta. A específica situação brasileira reflete o descaso do governo, que continua brigando contra os fatos, e a irresponsabilidade de parte da população que não respeita as restrições. Cada vez fica mais claro que as porteiras do País estão totalmente abertas para a imunização de rebanho e que a salvação das vacinas é algo distante. Nessa altura, tudo que o governo faz é mascarar o seu objetivo principal: permitir que toda a população se contamine e deixar que só os “mais fortes” sobrevivam. A palavra de ordem de Bolsonaro é o abandono. No ritmo de contágios atual, surge o temor de que o Brasil, num horizonte próximo, atinja a marca macabra de 1 milhão de mortos, algo que parecia inimaginável.

Uma questão política

As vacinas não chegaram quando deveriam e sua escassez está aniquilando milhares de brasileiros, mas elas chegarão ao País no momento oportuno para o presidente Jair Bolsonaro: até o fim do ano. Embora seja tarde demais para o povo, para ele o que interessa é a política e a eleição de 2022. Nesse caso, o tempo pode estar a seu favor. Seu desleixo permanente com a pandemia e seu estímulo à imunidade de rebanho vão se converter aos poucos numa promoção entusiasmada da imunização. Sua aproximação com o Zé Gotinha e as declarações dadas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de que a solução para a crise sanitária e econômica é a vacina antecipa essa vontade do presidente de capitalizar politicamente o que não fez, tentando apagar seus erros e a inoperância do governo em relação ao coronavírus.

Divulgação

Armadilha negacionista

O cientista e médico brasileiro Miguel Nicolelis, de 61 anos, é uma das maiores autoridades na pesquisa científica da neurocirurgia mundial, atuando na Duke University, nos Estados Unidos. Hoje é uma das vozes mais atuantes nos alertas para que a sociedade brasileira desperte para a ameaça da pandemia e saia da armadilha negacionista.

As mortes continuarão incontroláveis?
Vamos chegar a 500 mil mortes no final de junho. Essa minha projeção foi ratificada pela Universidade do Estado de Washington, em Seattle (EUA). Os cientistas de Seattle projetaram que o Brasil chegará a 550 mil mortes até meados de julho. É uma situação dramática. Não existem boas perspectivas no horizonte. A vacinação está muito lenta e temos um presidente que ataca a China, principal fornecedora de insumos para produzirmos as vacinas.

A atitude negacionista do presidente prejudica o Brasil?
O País está completamente fora do cenário mundial. A comunidade internacional ajuda a Índia, mas não o Brasil. E isto porque o presidente e o ex-chanceler (Ernesto Araújo) isolaram o País.

A situação na Índia é pior?
A situação lá é muito mais complicada. Lá existe uma subnotificação gigantesca, maior do que no Brasil. É um cenário dantesco. Todas as noites o céu fica alaranjado em Nova Deli, e outras cidades, por causa das cremações dos mortos nas piras funerárias. (André Lachini)

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