Semanal

A Cobal de Humaitá e as entranhas da Nação

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O lugar é delicioso. Saudemos a Cobal de Humaitá, na Rua Voluntários da Pátria, Zona Sul do Rio, que teve um incêndio em um de seus restaurantes neste fim de semana. Comer uma moqueca no Joaquina ou os quitutes no fabuloso quilo do Raro são experiências excelentes. Há aquela marcante bossa carioca por ali. O supermercado e padaria Farinha Pura tem bons queijos, cervejas por preços razoáveis, docinhos fabulosos. São estabelecimentos bem decorados e com apuro gastronômico. Atente-se à casa de bolos. Se você ainda não passou por ali, passe. O mercado é uma referência da classe média do Rio. Por todas as suas qualidades, interesse histórico, geração de emprego, importância comunitária, a Cobal foi tombada em 2019 pela Assembléia Legislativa do estado.

No corredor principal, do lado do caixa eletrônico 24 horas há uma placa comemorativa da sua abertura. Quem inaugurou o ponto foi o ditador Emílio Garrastazu Médici, em 1972, nos anos do milagre econômico, em uma iniciativa para levar alimentos frescos para a classe média da região. Em década passadas, foi um lugar de encontro habitual da boêmia do bairro. Tom Jobim, Millôr Fernandes e João Ubaldo Ribeiro, por exemplo, circulavam por ali. Depois de 50 anos, porém, tudo que é coletivo envelheceu, os espaços públicos são precários e as áreas comuns estão caindo aos pedaços. E a Cobal vive uma contradição permanente entre a beleza cosmética particular e a assustadora falta de infra-estrutura geral. Basta olhar para o teto do mercado para concluir isso.

A Cobal não tem, por exemplo, um banheiro decente, digno do refinamento de suas lojas e de seus frequentadores. Os restaurantes mais legais têm suas próprias instalações, mas quem quiser usar o banheiro comum vai ter que circular entre catacumbas. E os incêndios que acontecem ali – houve outro em 2016 – começam invariavelmente nas precárias instalações elétricas. De alguma forma, emerge da Cobal de Humaitá um Brasil confuso, bonito, mas perigoso, onde a burocracia é protelatória, o poder público não assume suas responsabilidades e a insegurança jurídica inibe esforços de investimentos privados. O resultado disso é que todos os envolvidos com o negócio ficam prostrados, sem saber o que fazer e como evoluir. E um dos lugares mais legais da cidade vive sob a séria ameaça de um acidente, assim como seus freqüentadores. Como disse o dono do restaurante atingido pelo incêndio, “graças a Deus o fogo foi controlado, mas precisamos urgentemente de uma reforma.” É o Brasil.