Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

A vitória sobre a Covid-19 somente acontecerá com a vacinação em massa das populações de todos os países. Essa afirmação básica já deveria fazer parte das preocupações diárias dos governos que detém a maior parte de imunizantes. Porém a conduta administrativa da pandemia vai se desenvolvendo com muitos erros e poucos acertos. E, por incrível que pareça, os países ricos, basicamente os EUA e as principais nações da Europa, além de governos negacionistas, como o Brasil, são aqueles que cometeram a maioria dos equívocos.

Essas nações demonstraram pouco senso de preocupação com quem está além de suas fronteiras, compraram quantidade de imunizantes superior ao dobro de suas populações. E como vacinas são produtos que tem prazo de vencimento rápido, os respectivos governos não conseguiram administrar todas as vacinas a tempo e mais de um milhão de doses já foram destruídas. “Esse desperdício é um absurdo”, diz Raquel Stucchi infectologista da Unicamp e Consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Portanto, partindo da premissa inicial, perder essa quantidade de injeções representa um gravíssimo problema. “Deveríamos estar preparados para que isso não acontecesse, pois já temos informações suficientes ”, critica Luiz Carlos Dias, cientista do Comitê de Combate à Covid-19 da Unicamp. O que deveria estar claro é que o vírus pode viajar de um lugar para outro. Então, como apenas 2,2 por cento da população do continente africano tomou a vacina, decerto, o vírus continuará se replicando e poderá surgir uma super variante que sobrepuje os imunizantes existentes. Entretanto, no momento, sem alarde.

Além do desperdício de vacinas o que há é o aumento de preço desses produtos. Segundo informações do jornal Financial Times, Pfizer e Moderna subiram os valores de suas vacinas dê: 15,5 euros para 19,5 e, 22,6 dólares para 25,5 dólares, respectivamente. A alta foi reprovada pelo Diretor Adjunto da Organização Mundial de Saúde (OMS), Bruce Aylward. “O objetivo hoje é vacinar o maior número possível de pessoas rapidamente, reduzir infecções e internações. Enfim, salvar vidas e voltar ao ritmo normal”.

Nesse aspecto, os EUA é um dos maiores detentores de vacinas contra o coronavírus no mundo, mas o governo norte-americano parece estar mais preocupado em conter a influência da China e da Rússia na América Latina, do que distribuir imunizantes para o mundo. Só no estado da Carolina do Norte, 800 mil doses estão prestes a expirar. O governo Biden esteve ausente no combate à crise sanitária em Cuba, Venezuela, Nicarágua e até mesmo na Colômbia do aliado, Iván Duque. Quem acabou contribuindo para amenizar a pandemia no Cone Sul foi a Rússia com sua Sputnik V. Por enquanto, a diplomacia dos EUA usa a Doutrina Monroe e a cartilha Trump para lidar com os inimigos de sempre, manter e acentuar as sanções econômicas.

No Brasil, a conversa foi ao pé do ouvido. O conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, em visita oficial, deixou claro dois aspectos geoestratégicos de interesse de Washington: Primeiro, os EUA não aceitam que os chineses da Huawei participem do leilão de radiofrequência da tecnologia de 5G. Em segundo, evitar uma mudança no sistema de urna eletrônica, como quer Bolsonaro. Problemas globais de gestão da pandemia à parte, fica evidente que a crise sanitária ainda está longe de acabar, mas as contendas políticas devem se acirrar ainda mais.