Edição nº2555 07/12 Ver edições anteriores

A cidade inteligente esbarra em nossos hábitos

Lucas Girard

Todos gostamos de receber nossas encomendas o mais rápido possível. É sempre uma satisfação receber aquele pacote etiquetado na porta de casa. Mas, atendidas nossas demandas, ainda assim exigimos mais eficiência.

Grandes empresas do varejo eletrônico vêm anunciando novas estratégias de distribuição de produtos no ambiente urbano, em busca de maior eficiência e comodidade. No entanto, quando observamos a realidade das cidades, percebemos que essa conveniência tem um alto custo. Um simples exemplo disso é a relação entre a demanda de pontualidade total para a encomenda e o impacto disso no trânsito, nas tantas interações letais entre motociclistas e motoristas. Outro elemento influente na qualidade da vida urbana é o caminhão. Parece coisa de filme, mas uma solução mágica para o trânsito em São Paulo surgiu na ocasião da greve dos caminhoneiros. Bastou desaparecerem os veículos das ruas para os congestionamentos, quase como um milagre, também sumirem e o ar melhorar. O óbvio ululante nos revela que para haver uma melhora real da qualidade de vida urbana é preciso enfrentar com muita seriedade a questão da circulação de mercadorias nas cidades. Essa conclusão nos leva a outra pergunta: qual o custo ambiental de termos tudo a nossas mãos a qualquer momento? E o que as cidades inteligentes tem a ver com isso?

A disrupção da logística de distribuição de produtos está acontecendo, seguindo a lógica do on demand, do just in time. Para que essa disrupção ganhe escala e velocidade, há um forte desenvolvimento de produtos baseados em tecnologias de transporte controladas remotamente. Esse é considerado um dos mais importantes vetores de inovação hoje, com enorme potencial de transformação de padrões de organização e do ritmo da vida urbana. A revolução da logística urbana é parte de uma agenda industrial – chamada de indústria 4.0 – onde entram em cena drones e carros autônomos e quaisquer objetos que possam ser conectados em redes de telecomunicações – produtos da nova era da conectividade 5G. Mas para que isso aconteça a contento, esses novos entrantes demandam um altamente oneroso e politicamente complexo upgrade da infraestrutura urbana de telecomunicações. A boa notícia é que o desafio da infraestrutura não é novo.

A cidade que hoje vivemos é a cidade do futuro dos nossos antepassados. Decisões tomadas por eles ainda impactam nosso cotidiano. Nos anos 1940, em São Paulo, durante a gestão Prestes Maia, foi tomada uma decisão que hoje parece inacreditável: naquele momento decidiu-se pela adoção do modelo rodoviário de mobilidade, baseado em transporte motorizado individual. Descartou-se a opção pelo metrô, que é a opção mais inteligente pela nossa ótica atual. A desastrosa expansão horizontal da metrópole hoje exige uma custosa e complexa logística de abastecimento.

Não é porque agora proliferam-se os serviços por aplicativo que estes serviços deixam de existir “fisicamente.” A pegada ecológica da conectividade digital pode ser invisível para a maior parte dos cidadãos, mas está longe de ser imaterial. Pelo contrário, ela impõe grande stress ao meio-ambiente na forma do consumo energético, na produção de novos gadgets e na gestão de lixo eletrônico, no impacto sobre a saúde mental da população e nos hábitos descontrolados de consumo de dados eletrônicos. Vale também mencionar o enorme desperdício de tempo em plataformas cujo propósito é justamente produzir comportamentos viciosos. Estes são fenômenos socioambientais interligados, que já há bastante tempo reclamam recursos para pesquisa.

Atualmente há uma grande expectativa de que com mais tecnologia seja possível reverter esse quadro. Aposta-se alto na criação de uma cidade inteligente e humana que expresse a pujança da economia digital. No entanto, essa cidade digital não será erguida na nuvem, mas sobre a matriz que vem sendo construída ao longo do último século – que é, grosso modo, a soma de todas as decisões boas e ruins tomadas por sucessivas gerações de cidadãos.

Talvez eu não precisasse de serviços que atendessem às minhas demandas em tempo real se apenas me livrasse dos 45 dias por ano em que fico preso no trânsito de São Paulo – aquela decisão nos anos 1940…- e das 4:48 horas que fico vidrado em meu smartphone – segundo o último relatório do meu screen time. O que eu faria com esse tempo? Não há resposta tecnológica para essa questão. Já vai longe o tempo em que se acreditava que a tecnologia libertaria as pessoas para o lazer. No entanto, a falta de respostas simples não deve validar um novo erro histórico, Melhorar uma cidade não é apenas torná-la mais rápida.
Hoje, lentamente, percebe-se que a travessia da fronteira do digital exige ampla visão ecossistêmica e nosso grande desafio para atravessá-la é uma abrangente mudança de hábitos.


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