Comportamento

A chama do descaso

Curto-circuito no gerador e sucessão de falhas de segurança provocam incêndio no hospital Badim, no Rio, que matou 14 pessoas, todas com idade entre 66 e 98 anos. O acidente poderia ter sido evitado

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

COMOÇÃO No momento do acidente havia 103 pacientes internados e 226 funcionários no Badim. As vítimas eram colocadas em colchões nas calçadas em torno do hospital. A maioria das mortes foi causada por asfixia (Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Poucas vezes as origens de uma tragédia foram tão bem documentadas como no incêndio do hospital Badim, no bairro do Maracanã, na zona Norte do Rio de Janeiro, em que 14 pessoas morreram asfixiadas ou pelo desligamento de aparelhos que garantiam suas funções vitais. Até a quinta-feira 19, havia mais 52 vítimas internadas, sendo 43 pacientes e nove funcionários e familiares. As imagens das câmeras de segurança do hospital mostraram as ocorrências que antecederam as chamas. Falhas de procedimento ficaram expostas e revelaram como um incidente que poderia ter sido controlado ganhou dimensões exorbitantes. Os relógios das câmeras indicaram que houve demora de pelo menos oito minutos no alerta do incêndio e no disparo da ordem de evacuação. O primeiro curto-circuito no gerador localizado no subsolo do prédio antigo do hospital não foi contido adequadamente. Houve falta e uso inadequado de extintores – foram utilizados extintores de CO2 em vez de pó químico, indicado para o tipo de fogo. O trabalho de combate ao incêndio foi feito pelo pessoal de manutenção.

Onofre Veras/Agência O Dia

No momento em que o fogo começou, às 17h45, havia 103 pacientes internados e 226 funcionários no hospital. Ficou claro que o Hospital Badim não tinha um plano de contingência para incêndios. A Polícia Civil realiza trabalhos de perícia para entender exatamente como o fogo teve origem e se propagou. Dois dias depois do incêndio, peritos estiveram no hospital e se concentraram no subsolo do prédio antigo. A investigação quer descobrir como vinha sendo feita a manutenção do gerador e porque aconteceu o curto circuito. O Corpo de Bombeiros divulgou uma nota dizendo que última vistoria feita no Badim aconteceu no primeiro semestre desse ano. Também se busca saber porque a fumaça não foi lançada para fora pelo sistema de exaustão. A existência ou não de saídas de emergência, rotas de fuga e de um plano de evacuação está sendo analisada. De acordo com as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre segurança em edificações de estabelecimentos de saúde, a área do hospital em que funcionavam os geradores deveria ter uma estrutura de isolamento para que o fogo não se espalhasse para outros andares.

O incêndio no hospital Badim causou enorme comoção. Todas as pessoas que morreram eram idosas com idades entre 66 e 98 anos. Estavam cuidando de sua saúde quando se viram engolidas pela fumaça. Assim que o prédio começou a ser evacuado, parte dos pacientes era colocada em colchões nas calçadas em torno do hospital e passaram a receber um atendimento primário. Outros dois locais, uma creche e a garagem de um prédio, foram usados para abrigar as vítimas. O incêndio acabou controlado duas horas depois do início, às 20h15.

Cléber Mendes/Agência O Dia

O Código de Segurança contra Incêndios do Rio de Janeiro só foi atualizado nesse mês, depois de 43 anos. A nova legislação, aprovada em dezembro de 2018, entrou em vigor há quinze dias. O envelhecimento das regras de prevenção e o relaxamento na fiscalização ajudam a explicar a ocorrência de outros acidentes graves no estado, como os incêndios no Museu Nacional, em setembro do ano passado, e no Ninho do Urubu, centro de treinamento dos atletas jovens do Flamengo, em fevereiro. Somente em 2019 foram registrados 20 acidentes semelhantes ao do Badim, causados por curtos-circuitos ou de forma criminosa. A lição que fica é que tragédias desse tipo poderiam ser evitadas se houvesse mais treinamento e cuidado.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A direção do Hospital Badim gostaria de esclarecer algumas informações que constam na matéria publicada edição 2595 da Revista Isto É. Primeiramente, gostaríamos de ressaltar que não fomos procurados em nenhum momento pela equipe da revista para fornecermos informações sobre temas citados no texto.

Ao contrário do que cita a matéria, a brigada de incêndio, formada por colaboradores de diversas áreas do hospital, seguiu corretamente o Plano de Ação e Emergência (PAE), que atende às normas regulamentadoras exigidas pelas autoridades e pela entidade acreditadora da instituição, entregando o comando da evacuação ao Corpo de Bombeiros assim que o mesmo chegou ao local.

No momento do incidente, havia 30 brigadistas no prédio. Sua atuação se deu no princípio do incêndio e no acionamento do Corpo de Bombeiros. A identificação desta equipe é feita com um botton no crachá. Vale ressaltar que, conforme a agenda da Brigada de Incêndio, foi realizado um treinamento de evacuação em um dos prédios do hospital uma semana antes do ocorrido.

O hospital está devidamente sinalizado com rota de fuga e demais itens previstos nas normas vigentes. Além disso, possui equipamentos contra incêndio e alvarás de funcionamento, atendendo às normas legais.

A direção do Hospital Badim reforça que aguarda a conclusão do resultado da perícia da Polícia Civil que vai apontar as causas do ocorrido.