Brasil

A cara da nova política

Com apenas 25 anos, a deputada federal Tabata Amaral mostra que na desgastada Brasília ainda é possível acabar com privilégios e romper com a política tradicional

Crédito: Divulgação

PODER FEMININO Oriunda da periferia de São Paulo, Tabata Amaral se graduou em Harvard e se elegeu deputada federal (Crédito: Divulgação)

Não é preciso muito para compreender a revolução que a jovem deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) representa para a política. Com apenas 25 anos, ela reúne a receita certa para personificar em seu nome o que a maioria dos brasileiros sempre sonhou ver em Brasília: honestidade, genialidade e genuína vontade de trabalhar por um País melhor. A jovem que veio da Vila Missionária, periferia de São Paulo, estudou em escola pública e cresceu profissionalmente graças às bolsas de estudo que ganhou, já chegou no Congresso “causando” barulho. Antes mesmo de assumir o mandato, ao chegar no apartamento funcional que recebeu por sorteio, se deparou com o imóvel sendo ocupado pelo filho de um deputado federal. “Ele estava indevidamente e irregularmente usando dois imóveis”, disse em vídeo, nas suas redes sociais.

“Eu cheguei até aqui porque vivi todo o potencial que a educação tem de transformar. E vi que a educação não muda se os políticos não mudarem”  Tabata Amaral, deputada federal (PDT-SP)

A velha política certamente se incomodou com a sua chegada ao Congresso. Seus eleitores, no entanto, estão encantados com as inovações que a deputada impõe ao País. Apelidada de “nerd” por gostar de estudar e utilizar finais de semana para mergulhar em temas como a Reforma da Previdência, Tabata faz “lives” e posts semanais em que responde perguntas dos internautas e comenta sua agenda. “Eu cheguei aqui porque eu não só vivi todo o potencial que a educação tem de transformar, mas eu também conheci o outro lado da desigualdade. E eu vi que a educação não muda se a política e os políticos não mudarem”, disse em seu primeiro pronunciamento na Câmara, no último dia 14. Desde que assumiu o mandato, Tabata já entrou nas comissões de Educação, das Mulheres e de Ciência e Tecnologia e está trabalhando para entrar na Comissão Especial do Fundeb, o fundo que é responsável por financiar 60% da educação básica por meio da arrecadação dos municípios e da União.

ATIVISMO Tabata dividiu o palco com Malala, mais jovem Nobel da Paz e símbolo da luta pela educação das mulheres (Crédito:Divulgação)

“A gente tem uma chance única de colocá-lo na Constituição, torná-lo mais distributivo. De cada quatro municípios no Brasil, em três deles o diretor ainda é escolhido pelo vereador, sem nenhum critério”, disse ela. Uma de suas primeiras propostas na Câmara será principalmente em relação ao Fundeb: utilizar uma parte do fundo como incentivador de boas práticas, além de dar mais critério aos financiamentos do MEC. A deputada também está preparando propostas para combater a violência contra a mulher, aumentar o número de mulheres na política e melhorar a qualidade da educação.

GABINETE ITINERANTE

Outra novidade é o primeiro gabinete do Congresso com funcionários “compartilhados”, que seriam divididos entre Tabata e outros dois parlamentares do Acredito, um movimento de renovação da política. A escolha dos funcionários foi sem apadrinhamento político, por meio de um processo seletivo público. Além disso, Tabata lançará no próximo sábado 16 o gabinete itinerante, um trailer que toda semana estará em uma cidade diferente para levar formação política para a população. “Queremos quebrar esse muro que existe entre Brasília e o Brasil”, disse ela.

LIDERANÇA Em 2017, Tábata conheceu o ex-presidente americano Barack Obama com 11 jovens brasileiros

Filha de uma diarista e de um cobrador de ônibus que faleceu em decorrência do uso de drogas, Tabata não credita apenas à força de vontade suas conquistas. “O esforço é apenas o terceiro de três ingredientes importantes: o acesso a oportunidades, a crença em que você é capaz e merecedor daquela oportunidade e, por fim, o esforço”, afirma. Ao longo de sua história, depois de ficar em primeiro lugar na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, na 5ª série, passou a ganhar bolsas de estudo como do colégio Etapa, da Fundação Estudar e da Fundação Lemann, que a ajudaram a estudar Astrofísica e Ciências Sociais em Harvard. Na faculdade, Tabata criou com dois amigos o Mapa Educação, um movimento que consiste em fiscalizar a qualidade da escola pública em todo o País a partir da formação de lideranças locais. Mas essa não foi a sua primeira iniciativa com impacto social. Ainda na escola, antes mesmo de começar o Ensino Médio, fundou o projeto Vontade Olímpica de Aprender (VOA), em que preparava alunos de escolas públicas para competirem em olimpíadas científicas.

Sua entrada na política se deu quando percebeu que esse era o único caminho para impactar na educação pública. Em 2018, se filiou ao PDT e apoiou o então presidenciável Ciro Gomes. Com mais de 1.000 voluntários e uma campanha que contou com recursos de crowdfunding, foi a sexta eleita com mais votos em São Paulo, com 264.454 votos. No ano passado, durante a campanha, o empresário Jorge Paulo Lemann disse em evento anual da Fundação Estudar, da qual é criador, uma frase quase profética a respeito dos jovens que passaram pela fundação e iriam se candidatar. “Eu acho que alguns vão ser eleitos agora e espero que nos próximos anos alguns deles cheguem até à Presidência”. Os fãs de Tabata agora torcem para que a jovem não se desvie de seu caminho e quem sabe consiga concretizar no futuro a segunda parte do sonho de Lemann.
Colaborou Talita Nascimento

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