Comportamento

A Cannabis que salva

Aprovação na Câmara da plantação local de maconha medicinal dá novas esperanças para milhares de brasileiros que sofrem de doenças crônicas e carecem do produto

Crédito: Chalinee Thirasupa

NOVOS TEMPOS Produtos importados estão disponíveis no Brasil, mas são caros: a situação vai mudar (Crédito: Chalinee Thirasupa )

Se a medicina começou com a mistura de ervas e plantas, por que a aprovação de medicamentos derivados da maconha (a cannabis sativa) gera tanta disputa? Primeiro pela desinformação. Os remédios derivados da planta não possuem altos índices de THC, um dos mais de 140 compostos da planta já identificados, responsável pelos efeitos alucinógenos e indesejáveis da maconha. Já os medicamentos contendo o canabidiol (CBD) são amplamente usados para o tratamento de pacientes em diversos países do mundo, como nos Estados Unidos, México e até Israel.

O Projeto de Lei 399/2015, aprovado na terça-feira, 8, autoriza a fabricação e a comercialização de medicamentos e produtos à base de cannabis no País, sem a necessidade de importação do CBD. O projeto permite o cultivo local para fins medicinais e industriais, com uma série de regulamentações para as empresas interessadas. O texto indica ainda que produtos de uso humano e veterinário serão disponibilizados em embalagens invioláveis, prescritos por profissionais capacitados. Além de serem incorporados pelo SUS. Há dezenas de estudos científicos que indicam a substância para uma infinidade de diagnósticos, como esclerose múltipla, câncer, autismo e epilepsia.

REMÉDIOS Produtos à base de cannabis são usados em vários tratamentos médicos (Crédito:Adriano Vizoni)

A verdade é que o uso medicinal já existe no Brasil, mas apenas para os poucos que conseguem pagar pelos medicamentos importados e de alto custo nas farmácias brasileiras. Isso acontece porque a própria Anvisa tomou diversas medidas para tornar a medicação mais acessível. Em 2015, tirou o canabidiol da lista de substâncias proibidas para uso pessoal e passou a permitir a importação de medicamentos contendo canabinóides.

Em 2017, a agência aprovou o primeiro registro de medicação importada no País, o Sativex. Dois anos depois, a agência aprovou a venda de medicamentos nas farmácias mediante prescrição médica. E há até um medicamento produzido no Brasil, mas produzido com CBD importado, o que faz os preços atingirem a casa de até R$ 2 mil, dependendo da concentração do princípio ativo. O projeto que passou na Câmara está longe de legalizar a maconha ou permitir o consumo recreativo, mas abre uma possibilidade de negócios para o País e permitirá que associciações de pacientes sem fins lucrativos possam produzir remédios à base de cannabis.