Artes Visuais

A Bienal dos artistas

Com sete curadorias de artistas convidados, a 33ª Bienal de São Paulo — Afinidades Afetivas exalta o poder de atração da arte

Crédito: Divulgação

ATO SELVAGEM Imagens etnográficas e obras de 24 artistas integram a curadoria de Sofia Borges (Crédito: Divulgação)

33ª BIENAL DE SÃO PAULO — AFINIDADES AFETIVAS Pavilhão Ciccillo Matarazzo, Parque Iburapuera, SP/ de 7/9 a 9/12

Ancoradas em duas efemérides do calendário político nacional — as eleições de outubro próximo e os 50 anos da instauração do Ato Institucional nº 5 —, várias exposições em cartaz em São Paulo voltam-se para a história política do país. Na contramão dessa tendência, a 33ª Bienal de São Paulo abriu na sexta-feira, dia 7, com duas atenções centrais: questionar o modelo das exposições temáticas, que sustentam uma tese curatorial única, e propor um sistema operacional diferente, que mostra como os artistas constroem seus processos a partir da relação com outros artistas. Intitulada Afinidades Afetivas, a mostra conduzida pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro dá carta branca para sete artistas proporem projetos curatoriais com artistas convidados, onde seus próprios trabalhos também devem ser incluídos.

Restringir o foco conceitual às afinidades artísticas entre os envolvidos na mostra poderá vir a render ao espanhol Pérez-Barreiro a crítica de ter realizado uma bienal apolítica. O fato é que a responsabilidade por traçar vínculos diretos ou indiretos com as pautas que inquietam a vida em sociedade foi passada aos artistas. A exposição será mais ou menos política se as conexões (afetos) que os artistas-curadores estabelecerem forem baseadas também em diferenças, além das previsíveis aproximações por identificação — como fazem os algoritmos das redes sociais. “A ignorância que cresce no mundo é resultado disso”, diz Pérez-Barreiro. “Aceitar a diversidade é o desafio. Minha reação à fragmentação do mundo de hoje é não querer unir as coisas”.

Assim o curador explica o fato de Afinidades Afetivas conter sete mostras em uma. Ou melhor, 19, pois há ainda outros doze projetos individuais escolhidos pelo próprio Pérez-Barreiro. Entre eles, a mostra de uma dezena de trabalhos de Lucia Nogueira (1950-1998), brasileira que residiu em Londres. Até hoje, ela é uma ilustre desconhecida entre nós, e ausente da história da arte.

Entre as curadorias dos artistas, em linhas gerais, o uruguaio Alejandro Cesarco fala de tradições assimiladas de geração em geração; o espanhol Antonio Ballester Moreno retrata-se às relações entre natureza e cultura; a argentina Claudia Fontes propõe a lentidão como denominador comum entre ela seus convidados; a pintora sueca Mamma Andersson realiza um panorama da pintura de seu país; a brasileira Sofia Borges assimila obras de convidados em uma grande “colagem trágica”; o brasileiro Waltercio Caldas construiu uma exposição sobre o poder da arte de desorientar o espectador; e os artistas convocados pela nigeriana Wura-Natasha Ogunji remontam às relações entre corpo e arquitetura.

“A primeira coisa que eu não quis fazer foi escolher artistas”, diz Waltercio Caldas, para justificar o fato de sua curadoria só conter obras de artistas homens. “Minha escolha recai sobre específicos objetos de arte e as possibilidades imaginárias que eles podem gerar. Porque nada explica mais uma obra de arte do que um espectador perplexo diante do que ele vê”, diz Waltercio, entre obras de artistas como Cabelo, Antonio Dias, Bruce Nauman, Oswaldo Goeldi e Victor Hugo dos Santos.

NATUREZA QUE RODEIA Obras de Antonio Ballester Moreno (primeira e segunda) e de Nelson Felix

Sofia Borges, em sua “A infinita história das coisas ou o fim da tragédia do um”, construiu um roteiro em que as obras dos 24 artistas convidados fundem-se em uma só instalação. Definindo a sua curadoria como um “ato selvagem”, Sofia acabou por produzir em seu labirinto museológico um comentário sobre o acontecimento trágico da semana, a completa destruição do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Suas fotografias de objetos etnográficos, somados a objetos artísticos enigmáticos e frases como “o brilho do invisível” e “o fogo cego” falam da dissolução de identidades em um grande arquivo cultural. Em uma associação trágica, remetem à nossa história que acabou devorada pelo fogo.