Comportamento

A barbárie impera

Assassinato de um jovem cliente por um segurança de supermercado reforça a sensação de que ser morto por uma banalidade, no Rio de Janeiro, tornou-se tão normal quanto ir à praia

Crédito: Divulgação
VIOLÊNCIA O segurança Davi Amâncio estrangulando Pedro Gonzaga, acima, e posando com arma em rede social, ao lado (Crédito:Divulgação)

Em um País com tantas mortes estúpidas e repentinas, a de Pedro Henrique Gonzaga, de 19 anos, conseguiu se destacar pela brutalidade e pela falta de sentido. Negro e de classe média, morador da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ele foi estrangulado numa loja do supermercado Extra pelo vigilante Davi Ricardo Amâncio enquanto fazia compras com sua mãe, Dinalva Oliveira. Em nota, o Grupo Pão de Açúcar, dono da rede Extra, informou que a informação inicial era de que Davi havia reagido a uma tentativa de furto. Testemunhas negaram que Pedro estivesse roubando o supermercado.

Nos vídeos das câmeras de segurança, chamou atenção a frieza com que Davi matou o cliente e a indiferença que ele demonstrou diante do próprio ato bárbaro. Pedro media pouco mais de 1,70 metro e era magro. Desapareceu debaixo do segurança, que aplicou um mata-leão no jovem e não atendia aos pedidos das pessoas que estavam no local, inclusive da mãe, para que o soltasse. Um inquérito foi aberto na Delegacia de Homicídios do Rio e, a princípio, o segurança foi indiciado por homicídio culposo, mas a evolução da investigação pode levar a polícia a tipificar seu crime como doloso, com intenção de matar. Davi trabalhava para uma empresa terceirizada, a Groupe Protection. Dois outros vigilantes observaram a ação do colega e nada fizeram. Ambos poderão ser indiciados por omissão de socorro. O episódio reforçou, mais uma vez, a impressão de que morrer por uma banalidade, no Rio de Janeiro, tornou-se algo normal, tão corriqueiro quanto comer biscoitos Globo e tomar mate gelado na praia.

Jose Lucena/Futura Press/Folhapress

O esquema de segurança do Extra da Barra da Tijuca é pesado e intimidatório. Vigilantes andam armados e vestem roupas pretas ao estilo do Bope. Davi, de 32 anos, trabalha há um ano e quatro meses na Groupe Protection, a serviço do supermercado, mas não poderia estar exercendo a função porque já havia sido condenado a três meses de prisão em regime aberto por agressão à sua ex-mulher. Pelas regras da Polícia Federal, que controla o exercício desse tipo de atividade, sentenciados pela Justiça não podem prestar serviços de segurança. Apesar da violência de seu ato e da prisão em flagrante, ele irá responder ao processo em liberdade. Pagou uma fiança de R$ 10 mil para sair da cadeia, que, segundo seu advogado, André França, foi quitada com dinheiro da família. “A gente trabalha com a ideia de legítima defesa”, afirma França. Davi alegou que se excedeu porque Pedro simulou um desmaio e ameaçou retirar sua arma. A mãe de Pedro desmentiu essa versão no depoimento que deu à polícia, na terça-feira 18. Disse que o filho saiu correndo e o segurança o alcançou e o imobilizou. Contou também que ela própria foi agredida por Davi. O vigilante viu uma periculosidade em Pedro que, na verdade, era dele próprio.

LUTO Dinalva Oliveira, acima, mãe de Pedro Gonzaga (aqui), que queria seguir carreira de DJ e atendia pelo nome artístico de MC Peter: sonhos interrompidos por uma brutalidade (Crédito:Divulgação)

Sonho de ser DJ

Pedro havia terminado o ensino médio no colégio Gama e Souza e estava decidido a seguir a carreira de músico, como DJ e funkeiro. Tinha um filho de seis meses com uma ex-namorada e morava com a mãe e o padrasto. Desde 2016, fazia pequenos shows com o nome artístico de MC Peter. Em depoimento à polícia, o padrasto de Pedro disse que ele sofria de transtornos psiquiátricos e usava drogas, mas não era violento. Os vídeos do supermercado mostram que, antes de ser asfixiado por Davi, ele estava agitado e se aproximou do vigilante, mas não fez nenhum gesto agressivo.

O objetivo de vida de Pedro Henrique Gonzaga era gravar um videoclipe com um funk de sua autoria. O jovem morava perto do Extra. Normalmente, ele ia ao supermercado Mundial, nas imediações, mas pelo menos uma vez por mês frequentava a loja onde morreu. “Ele fazia remixes desde os 14 anos e realizou o sonho de compor uma música e gravá-la”, afirma Emanuel Arouca, amigo da vítima, com quem estudou no colégio Gama e Souza. “Pedro estava sempre feliz, tinha disposição de ajudar os outros e era uma pessoa pacífica. Não podia ter morrido dessa forma cruel.”

Divulgação

“Pedro estava sempre feliz, tinha disposição para ajudar os outros e era uma pessoa pacífica. Não podia ter morrido dessa forma cruel” Emanuel Arouca, amigo de Pedro Henrique Gonzaga

A morte de Pedro foi encampada pelo movimento negro, que fez manifestações na porta do Extra no domingo 17 em seis estados do País. No Rio, cerca de 500 pessoas compareceram à loja e permaneceram no local por cerca de quatro horas protestando contra o assassinato. O fato de Davi também ser negro é visto como uma prova de que, quando em posição de poder, os negros reproduzem o racismo dos brancos. Os manifestantes lembraram que os jovens negros representam 76% das vítimas de homicídios e que a cada 23 minutos um deles morre no Brasil. Vestidos com camisas estampadas com a foto de Pedro, vários amigos e conhecidos estavam presentes na manifestação. “É preciso criminalizar o supermercado como principal responsável pela morte de Pedro”, disse a ex-governadora do Rio, Benedita da Silva, que participou do protesto. O supermercado Extra divulgou uma nota se solidarizando com os familiares de Pedro e comunicando que “rescindiu o contrato com a Groupe Protection independentemente da conclusão do processo de investigação”.

 

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