O livro “A Arte da Alegria”, da italiana Gogliarda Sapienza, considerado um clássico europeu e fenômeno internacional com mais de 1 milhão de exemplares vendidos, enfrentou uma “grande injustiça literária”, segundo os tradutores da edição brasileira, o baiano Igor de Albuquerque e a friulana Valentina Cantori. Recém-lançada pela Autêntica Contemporânea no Brasil, a obra foi recusada por editoras italianas durante anos, vindo a ser publicada de forma integral no país apenas em 1998, dois anos após a morte da autora. O reconhecimento global, no entanto, só ocorreu em 2005, com seu lançamento na França.
Autêntica, com espírito libertário e distante dos círculos literários da época, a siciliana Gogliarda Sapienza escreveu “A Arte da Alegria” entre 1967 e 1976. Com cerca de 640 páginas na edição brasileira e uma forte carga erótica “do começo ao fim”, a obra narra a história de Modesta, que, no interior da Sicília, desafia as convenções morais, políticas e religiosas nas primeiras décadas do século 20.
- A obra “A Arte da Alegria” de Gogliarda Sapienza enfrentou décadas de recusa editorial na Itália antes de ser reconhecida globalmente.
- Editores justificaram o silenciamento pela “personagem ambígua” de Modesta, sua “sexualidade variada”, além da extensão e estilo “não homogêneo” do texto.
- Gogliarda Sapienza chegou a furtar joias para financiar a impressão de seu trabalho, um ato de desespero que resultou em dois meses de detenção.
Por que a obra foi silenciada por tanto tempo?
A tradutora Valentina Cantori explicou que a autora ouviu inúmeras desculpas sobre a falta de enquadramento da obra nos padrões editoriais da época. Não apenas o conteúdo do manuscrito, “com uma personagem ambígua, que experimenta uma sexualidade variada e se mostra manipuladora”, mas também “a extensão do texto e seu estilo não homogêneo de escrita” estavam entre os motivos para “o silenciamento na Itália durante décadas”.
Para Igor de Albuquerque, “como se trata de uma obra muito audaciosa em todos os sentidos, parece que também faltou audácia das editoras em apostar no material”.
Um ato de desespero e perseverança da autora
Não satisfeita com as negativas do mercado editorial “e sempre acreditando em seu trabalho e na personagem Modesta”, Gogliarda Sapienza cometeu um ato extremo: furtou joias da casa de uma amiga em Roma, em 1980, para vendê-las e, com o dinheiro, pagar pela impressão das cópias de “A Arte da Alegria”.
O episódio, narrado no filme “Fuori” (2025), de Mario Martone, custou à escritora dois meses de detenção no presídio feminino de Rebibbia. Contudo, a experiência no cárcere serviu de inspiração para um novo romance, “L”università di Rebibbia”.
Elementos biográficos na narrativa
Para o lançamento da edição no Brasil, os tradutores Igor de Albuquerque e Valentina Cantori trabalharam durante dois anos sobre o texto original, no qual encontraram “muitos elementos biográficos”, ainda que a obra não seja uma “autoficção”.
“Encontramos muitos nomes que também estão na biografia da autora”, disse Cantori. “Modesta tem uma vida completamente diferente da de Gogliarda, mas por ser um livro siciliano, há muitos elementos da vida e da política locais”, completou Albuquerque.
Gogliarda Sapienza faleceu em 1996, aos 72 anos, sem nunca ter visto o livro reconhecido por completo – houve uma edição reduzida em 1994, publicada pela Stampa Alternativa. Contudo, seu segundo marido, o ator Angelo Pelegrino, continuou a lutar pela publicação integral do material na Itália, conquistada postumamente. (ANSA)