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Entrevista

Paulo Mendes da Rocha, Arquiteto

A arquitetura deve permitir que as pessoas conversem

Divulgação

A arquitetura deve permitir que as pessoas conversem

André Sollitto
Edição 21/09/2018 - nº 2544

Às vésperas de completar 90 anos, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha recebeu uma homenagem. Alguns de seus projetos que nunca saíram do papel, como a piscina pública pensada para a Praça da República, estão expostos em uma Ocupação do Itaú Cultural. Foi nesse ambiente, entre maquetes e desenhos, que Paulo recebeu a reportagem. Mesmo avesso à fama, acolheu com carinho todos aqueles que pararam para tirar uma foto ou parabenizá-lo por alguns de seus trabalhos, que incluem o Museu Brasileiro da Escultura e o Sesc 24 de Maio, inaugurado em 2017. São obras como essa que exemplificam sua ideia de que a arquitetura deve ser responsável por unir as pessoas e permitir que elas conversem, já que ninguém pode viver no isolamento. Sem se ater ao passado, ele demonstra interesse na expansão humana além da Terra, desde que os problemas daqui possam ser resolvidos antes que seja tarde demais.

A Ocupação P. M. R. reúne diversos projetos que não saíram do papel. O senhor se arrepende de não ter erguido algum deles?

A arquitetura é uma forma de conhecimento como qualquer outra. Você pode falar disso o quanto quiser, não precisa alguém pagar ou te encomendar um projeto. Claro que eu trabalho para ganhar a minha vida. Preciso ser pago. Mas algumas especulações você não resiste a fazê-las, independente de alguém encomendá-las ou não. Por exemplo, essa história da piscina na Praça da República. É, aparentemente, um absurdo, ainda mais quando se fala de verde. É o que eu acho que São Paulo gostaria: uma piscina de 100 metros por 50, com dois solários, um de cada lado, além de duas torres de acesso e que cobrisse uma área enorme, livre, no chão, para o povo fazer o que quiser. Para mim, é uma imagem da cidade mais interessante que plantar arvorinhas, compreende?

Qual o grande problema das cidades contemporâneas?

Planejamento territorial. As cidades feitas sem planejamento territorial amplo são um desastre. A cidade contemporânea tem sucesso, como ideia, realizada pela possibilidade da verticalização, ou seja, prédios altos, onde você consegue adensar a população. Porque só assim é que tem sucesso a rede de esgoto, telefonia, energia elétrica, etc. São Paulo começou com o loteamento de terrenos para casas na Avenida Paulista. Não tem cabimento editar o recurso da verticalização em cima dessa matriz anterior.

Existem exemplos de sucesso dessa verticalização em harmonia com o espaço público?

Na Avenida Paulista o melhor exemplo disso é o Conjunto Nacional, porque ele foi feito na quadra inteira. Você não tem uma garagem com automóvel saindo a cada 20 metros. Eles saem pela rua secundária, coisas assim. O chão é todo público, com teatro, cinema, livraria, café, restaurantes. Os escritórios estão lá em cima. Virtudes fantásticas. O Copan é outro exemplo em que o chão continua o espaço da cidade. Andando por ali você não tem um bloqueio. Tem cafés, cinemas, restaurantes. As casas estão todas em cima, com a virtude de ter apartamentos de 50 metros quadrados e outros de 150. Ou seja, não é o tamanho da casa que distingue se é popular ou não.

São Paulo é uma cidade gigante. Qual o papel da arquitetura e do urbanismo na manutenção dela como uma cidade viável para se viver?

Eu teria horror nessa entrevista de parecer alguém que exibe sabedoria. Digo o que penso com atenção, mas posso também estar enganado. São Paulo, essa cidade só existe porque só aqui havia trabalho, nessa miséria de coisas que não foram feitas. Destruíram até aquilo que estava feito, como a Central do Brasil, que ligava São Paulo ao Rio de Janeiro. Não só não fizeram, ou melhor, não fizemos, não desenvolvemos um plano ferroviário no Brasil, a ponto de destruir, até, em benefício do caminhão e das rodovias, por interesses escusos. E, com isso, um fenômeno como São Paulo surgiu, uma cidade de 20 milhões de habitantes. O que é uma estupidez. Fruto da falta de desenvolvimento territorial como ocupação inteligente do homem que trabalha.

São Paulo tem solução? Tem se falado muito em mobilidade urbana, em usar bicicletas…

Ah sim, se puderem nos fazer de palhaços ainda vamos andar de bicicleta, ou andar em cima de uma coisa que tem uma roda e um motor. Andar de bicicleta é para quem quiser, não pode ser uma alternativa de transporte. O automóvel em si é uma estupidez que não tem tamanho. Além de poluir a atmosfera, você faz um cretino queimar esse troço, o petróleo, retirado das entralhas do planeta, para transportar seu pequeno corpo de 80 quilos arrastando uma lataria de 800 quilos. Um absurdo total. Nós continuamos com essa besteira toda, quando seria, talvez, muito mais estimulante enfrentar, com clareza, a graça inteligente de processos realmente capazes de transformar a natureza e torná-la efetivamente habitável. É muito interessante considerar isso.

O senhor vê exemplos dessa transformação?

O melhor exemplo que temos disso apareceu no ãmbito da Revolução Soviética. Foi um movimento inteligente, de cientistas, engenheiros, arquitetos e artistas chamado construtivismo soviético. Nesse movimento, o planejamento territorial amplo para amparar a ideia de cidade estava contido com clareza. Todo estudante de arquitetura deveria ser levado a ler. E não se trata de dogmatismo nem se trata propriamente de defesa de nenhum princípio comunista. O desastre de uma experiência ou outra de governo objetivo dentro desse sistema não anula a reflexão sobre o interesse das transformações, feitas com rapidez histórica na chamada revolução. A ideia de revolução que estou falando, e sobre a qual estou me demorando, é feita pelo povo, para o povo e com o povo, se possível sem morrer ninguém. Não é uma visão sanguinária. É uma visão de realização de altos ideais humanos há muito tempo sonhados, como qualquer navegação, qualquer ferrovia construída em uma cidade.

Como manter a memória de uma cidade no meio de tanta verticalização?

A memória anda conosco. Ela não está na parede da casa ou na porta da casa. Essa é outra questão muito discutida. Uma coisa ou outra pode ficar como monumento. Mas essa mania que nós temos de tombamento de qualquer porcaria não faz sentido. Tomara que pegue fogo e se derrube tudo, porque são coisas frágeis, sem significado algum. Antes de mais nada, além das coisas que já construímos e estão destinadas à vida pública, a natureza por si não abriga o homem como a gente imagina. Isso é uma fantasia tola. A natureza é um inferno. Nós temos que viver em um habitat construído por nós, em uma natureza transformada. As cidades são construídas artificialmente porque é desejável que seja assim. Já estamos ensaiando a expansão da vida humana no universo. Ou seja, há para esses projetos largos horizontes. Por isso mesmo essas asneiras feitas por aqui não tem cabimento.

Ainda faz sentido morar em casas?

Nenhum sentido. A graça da nossa vida prevê essa concentração de pessoas. Você tem que encontrar essas pessoas. Por exemplo, qual seria o objeto supremo da arquitetura? Eu te digo: é amparar a imprevisibilidade da vida. Se eu sei que o metrô passa no mesmo lugar a cada três minutos, eu não tenho pressa de encontrar meu amigo. Eu vou no botequim tomar uma cerveja. Isso está ligado à liberdade das decisões. É uma vida ativa altamente criativa. Outra resposta: qual é o objeto da arquitetura? É permitir que conversemos.

O senhor passou por tantas mudanças no Brasil e no mundo. Como o senhor vê essa eleição?

Essa eleição é um absurdo montado com a estupidez acumulada. Só de imaginar a existência de 30 partidos… A ideia de um partido político é que ele tenha um programa capaz de seduzir os seus adeptos. Ora, como um país pode ter 30 projetos? A rigor, nós devíamos condenar alguém a senador. Ele tinha que aceitar encostado na parede.

Estamos vendo uma guinada para a extrema direita não apenas no Brasil, mas em vários países do mundo.

É um mau sintoma para quem viu o que foi a Alemanha nazista, a Itália fascista. A guerra acabou ontem. Só o fato da União Europeia não ter conseguido, como de fato não conseguiu, se consolidar plenamente já é um sintoma horrível da incapacidade humana de enfrentar realmente a sua condição.

Em 2006 o senhor ganhou o Prêmio Pritzer, o mais importante da arquitetura. Qual o sentimento de receber essa homenagem?

É comovente ver que os outros olham o trabalho que você fez. Mas ganhar prêmio é um inferno. Tira o sossego da vida. É preferível você passar quieto. Ninguém saber quem é você é melhor. Não é que trabalho com sucesso não te dê grande prazer. Dá grande prazer.

A arquitetura virou um artigo de luxo?

A arquitetura é uma forma de conhecimento indispensável. Não é para ser de luxo. Essa coisa que vemos na TV já é uma degenerescência da ideia. Nós temos de evitar a degenerescência. Mas é que há um produto a vender. Se você aceita a lei de mercado como o objeto do homem, então a arquitetura virou um produto. Tem que ter popular e de luxo, tudo isso.

O que o incêndio do Museu Nacional significou?

Aquilo que estava lá dentro, se era para guardar, devia ser bem guardado. Você não pode por embaixo de um telhado de madeira. É totalmente possível criar um lugar totalmente incombustível, e é um absurdo não terem feito isso. Mostra que o nosso passado está feito para ser consumido pelo fogo todo.

Aos 90 anos, olhado tudo o que já fez, como o senhor vê esse legado? Tem alguma obra que te traz mais orgulho?

Olha, você não pode propriamente ter orgulho da sua obra. Você tem preocupação, acha que tudo podia ser mais bem feito, geralmente nada é construído como deveria. Mas eu vou te dizer a verdade absoluta sobre essas questões assim, pessoais e individuais. Eu gosto muito da vida. A vida é para ser gozada plenamente. Eu não posso imaginar outra vida a não ser a mesma que eu tive, porque você teria que abrir mão dessa, e de fato a minha eu posso dizer que foi muito boa.

 

Colaborou Luís Antônio Giron

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