Edição nº2577 17/05 Ver edições anteriores

A armadilha do arrependimento

Enquanto escrevo estas linhas, o último ruído provocado pelo presidente Jair Bolsonaro foi o de novamente ter atacado a imprensa, desta vez caluniando uma repórter do jornal O Estado de São Paulo. No horizonte, há a expectativa pela visita a Donald Trump, a escolha do embaixador brasileiro em Washington e o apoio do governo americano ao ingresso do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Não deixa de ser sintomático que eu me force a fazer essa contextualização temporal: nem três meses de governo se concluíram e a administração Bolsonaro já demonstra uma habilidade incomum para dar tiros no próprio pé. Que fique claro, não me cabe aqui lamentar as imperfeições ou mesmo a incompetência de políticos. Cedo ou tarde a história, as urnas e, dependendo do caso, até a Justiça irão se encarregar desses julgamentos. O meu incômodo se dá pela reação das pessoas. Mormente aquelas que se demonstram mais ligadas ao bolsonarismo.

O filme não é bonito de ver, tampouco é inédito: uma vez escolhido o candidato e endeusada a sua figura, a ponto de eleger o dito-cujo, a massa parece incapaz de criticar. Aliás, a incapacidade para cobrar se percebe em um estágio anterior. O que ganha corpo de fato é a intransigente defesa do ungido e de sua corte. E pouco interessa se comportamentos inaceitáveis ou até indícios de envolvimento com situações no limiar da legalidade ganhem vulto. Nessas horas, fazem de tudo para fugir da incômoda sensação de arrependimento por terem elegido alguém indigno do cargo.

A sensação eu compreendo bem, pois sou eleitor no Rio de Janeiro. O medo de ter votado errado ou de chegar à conclusão de que poderia ter votado melhor, na maioria das vezes não é uma sensação justa. Ainda mais em um cenário em que o voto é obrigatório e, com frequência, o padrão dos candidatos escapa do que seria o ótimo, noves fora a lavagem cerebral responsável pela demonização do voto nulo. Não apenas a sensação de culpa é injusta, mas também perversa. Acaba por colonizar a mente e escravizar o senso crítico.

O filme não é bonito de ver, tampouco é inédito, eu dizia. Pois, se a repulsa pelo que o petismo representou era verdadeira — a postura dos petistas ferrenhos era mesmo detestável —, os eleitores de Bolsonaro não têm outra saída: precisam dar o exemplo.


Mais posts

Ver mais

Copyright © 2019 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.