Economia

A Apple perdeu o charme?

Às vésperas do lançamento do iPhone X, a companhia ostenta valor de mercado recorde, mas descobre que o culto criado ao seu redor perde força em um ambiente saturado de produtos e dominado por serviços como Netflix e Spotify

Crédito: JUSTIN SULLIVAN

FATOR "COOL" O CEO Tim Cook apresenta o iPhone X, o aparelho mais caro lançado pela Apple: a empresa já não desperta a devoção fervorosa dos tempos de Steve Jobs (Crédito: JUSTIN SULLIVAN)

Quem acompanha apenas o desempenho financeiro da Apple poderia dizer que a empresa não tem do que reclamar. Em maio, ela se tornou a primeira companhia americana a atingir US$ 800 bilhões em valor de mercado, em parte por conta da empolgação envolvendo o lançamento do novo iPhone X. O aparelho também teve um excelente resultado comercial antes mesmo de chegar às lojas.

A pré-venda no Reino Unido, por exemplo, esgotou em instantes. Nos Estados Unidos, quem não garantiu um exemplar do smartphone nos primeiros minutos poderá ficar sem o aparelho até o começo de 2018. Mas os números não contam a história toda. Desde o seu surgimento, a Apple lida com um elemento intangível, um “fator cool” capaz de despertar devoções ardorosas. Vista no imaginário popular como uma empresa inovadora, ela tem perdido parte desse capital social para outras companhias, como o Spotify, que há anos não dá lucro, e a Netflix.

A mística envolvendo a Apple tem relação direta com o papel de Steve Jobs (1955-2011) à frente da empresa. Líder carismático e preocupado com a simplicidade e a funcionalidade de seus produtos, Jobs definiu a imagem da Apple até hoje.

Após sua morte, Tim Cook assumiu como CEO e tem levado a empresa a bater recorde atrás de recorde, mas sem o carisma de Jobs. “A Apple atingiu um ponto de saturação alto”, diz Henrique Martin, responsável pelo site ZTOP. “Se popularizou demais e acaba sendo vista pelo público geral como pouco inovadora. Algo parecido aconteceu com a Sony e a marca Walkman nos anos 80”, afirma.

“A Apple atingiu um ponto de saturação alto, se popularizou
demais e acaba sendo vista pelo público como pouco inovadora.
Algo parecido aconteceu com a Sony e a marca Walkman nos anos 80”
Henrique Martin, do site de tecnologia Ztop

Ao analisar a história da Apple e seus principais lançamentos, fica claro que ela foi muito eficaz em identificar uma tecnologia nova e promissora, embalá-la em um produto simples, mas bonito, e vendê-lo como uma necessidade ao consumidor. “Com poucas exceções, ela nunca foi a primeira”, diz Sérgio Miranda, responsável pelas análises do canal Loop Infinito e fã declarado da empresa. “A Apple tende a pegar um conceito que existe e trabalhar em cima dele”.

No caso dos serviços de streaming de música e cinema, como o Spotify e a Netflix, a percepção que fica é a de que a companhia chegou atrasada em um mercado já saturado. Depois de criar uma revolução com o iPod e a venda de músicas no iTunes, o mercado de compra de canções em formato digital decaiu com a popularização do streaming. O mesmo aconteceu com os serviços dedicados ao cinema e às séries de TV.

Depois de apostar no aluguel e venda de títulos pelo iTunes, a Apple agora pretende investir US$ 1 bilhão na produção de conteúdo original, de acordo com uma reportagem do The Wall Street Journal. A cifra parece alta, mas perde em comparação com outros gigantes. A Netflix investiu mais de US$ 6 bilhões em 2017, e a Amazon desembolsou o mesmo bilhão quando entrou no mercado do streaming, em 2013. Fazer TV é caro. Um único episódio de “Game of Thrones” custa US$ 10 milhões.

VANGUARDA: Daniel Elk, do Spotify, e Reed Hastings, da Netflix. Em um mercado farto de serviços de streaming, as duas empresas se tornaram referência na música e no conteúdo para TV e têm inspirado o mesmo tipo de devoção associado à Apple no começo dos anos 2000

FOCO EM SERVIÇOS

O investimento em serviços e conteúdo original pode ser uma saída eficaz para e empresa, tanto para que ela recupere a aura de inovação quanto para aliviar sua dependência do iPhone, carro-chefe de faturamento. “Produtos bons existem aos montes”, diz Sérgio Miranda. “O consumidor tem hoje um poder de escolha que não tinha há algum tempo”.

O smartphone da Apple continua sendo um excelente aparelho, com preço alto focado no comprador premium, mas cujo efeito reverbera muito além dele. “Influencia o consumidor que não tem dinheiro e almeja ter aquilo no futuro – no presente, ele compra o produto mais barato da geração anterior”, afirma Henrique Martin. A saída é oferecer serviços que vão além do iCloud e da Apple Music, e vencer o preconceito que usuários de outros sistemas operacionais têm com o iOS e o iTunes. A Netflix emplacou “House of Cards” e hoje é referência em conteúdo original. A Apple precisa encontrar sua voz nesse novo mercado.