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A aposta na gestão

João Doria criou uma equipe focada em resultados usando sua experiência na iniciativa privada. Contou com a eficiência de Henrique Meirelles e o perfil conciliador do vice Rodrigo Garcia. Com isso, São Paulo cresceu bem mais do que o índice nacional, em contraponto ao cenário de devastação no governo federal

Crédito: Pisco Del Gaiso

RESULTADOS João Doria, Rodrigo Garcia (esq.) e Henrique Meirelles no Palácio dos Bandeirantes: crescimento superado apenas por China e Índia (Crédito: Pisco Del Gaiso)

NOVO CARTÃO POSTAL A advogada Silvia Lima descansa em área de convivência na ciclovia do rio Pinheiros: despoluição até o fim de 2022 (Crédito:Pisco Del Gaiso)

Não poderia haver maior contraste entre o momento vivido pelo País e pelo estado de São Paulo. Enquanto o Brasil enfrenta uma tempestade perfeita na economia, com a disparada da inflação, dos juros e do dólar, além de uma crise institucional permanente gerada pelas ameaças golpistas do presidente, o governo paulista colhe os frutos de uma administração metódica e dinâmica que caminhou no sentido oposto: o governador João Doria reforçou as parcerias com empresários, defendeu as instituições, profissionalizou a administração e recheou sua equipe com gestores experimentados.

O nome mais importante é o próprio secretário da Fazenda e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. É um dos sete ministros de Michel Temer transplantados para o governo estadual, independentemente de filiação partidária ou mesmo de terem domicílio eleitoral no estado, como reforça Doria. Ele comemora que o PIB paulista deve crescer quase 8% neste ano, contra a previsão de 5,22% para o Brasil, segundo o último boletim Focus, do Banco Central (a queda de 0,1% no PIB no segundo trimestre já faz economistas revisarem essas previsões para menos de 5%). “O crescimento de São Paulo só vai perder para a China e a Índia. Será superior ao dos EUA”, diz Meirelles. No primeiro ano do governo Doria, em 2019, o estado cresceu três vezes mais do que o Brasil, complementa. Um dos segredos foi o projeto que estabeleceu 18 polos econômicos nas principais regiões administrativas do interior do estado. “É um modelo alemão de desenvolvimento”, diz com orgulho o governador.

RESTAURADO Novo Museu do Ipiranga está sendo inteiramente renovado, com R$ 170 milhões em investimentos privados (Crédito:Divulgação)

Essa visão pró-negócios levou a uma simplificação tributária e beneficiou os empreendedores num período muito curto. Hoje, abrir uma empresa no Brasil leva 10 dias. Já em São Paulo esse processo leva um dia, segundo Doria. “É um padrão chinês que adotamos aqui, reduzindo a burocracia”, afirma. A comparação com a experiência internacional mostra a prática rigorosamente oposta entre a gestão estadual e a federal. Enquanto Bolsonaro insultou líderes europeus, acusou o americano Joe Biden de ter ganhado uma eleição roubada e agrediu a China, nosso maior parceiro comercial, o paulista construiu pontes com o exterior. Abriu escritórios comerciais como o de Xangai, que deu o pontapé inicial para a bem-sucedida parceria do Instituto Butantan com a farmacêutica chinesa Sinovac na produção da Coronavac, antes que a pandemia pudesse ser mesmo prevista. Também inaugurou representações em Dubai e Munique (Alemanha). A de Nova York para a operar em novembro, objetiva atrair negócios com EUA, Canadá e México. Isso gerou visibilidade para o governador no exterior ao mesmo tempo em que Bolsonaro tornou-se “persona non grata” nos círculos diplomáticos e empresariais. Foi o que aconteceu no Fórum Econômico de Davos, o “think tank” mais importante do mundo. Enquanto o presidente passou a ser evitado, Doria conseguiu amealhar investimentos vultosos. Contribuiu para essa atração o discurso alinhado com o consenso global, como a defesa ambiental. “Meio ambiente e negócios não são inimigos”, repete. Como reconhecimento, Doria foi chamado a participar recentemente de uma reunião com John Kerry, representante dos EUA para a área, e foi convidado para a COP26, grande encontro da ONU que discutirá o tema em Glasgow, na Escócia, em novembro (Bolsonaro não foi convidado). Como credencial, Doria exibe os R$ 15 bilhões previstos em investimentos para o projeto Carbono Zero no estado. Mas essa não é a iniciativa mais vistosa na área. A despoluição do rio Pinheiros, um dos principais passivos ambientais na capital, finalmente ganhou impulso com uma nova metodologia de gestão das obras, além da atração de investimentos privados (“queremos implementar ali o que os franceses fazem nas margens do rio Sena”, diz Doria). Até o final de 2022, vai se tornar o novo cartão postal da cidade. Ao atrair investidores e construir uma agenda pró-negócios, com um “projeto liberal”, como ressalta, o governador aplicou na prática o que o governo federal prometeu com espalhafato na campanha e nunca cumpriu. Enquanto Bolsonaro rompe os laços com os empresários, como o episódio Febraban deixa claro, Doria fortalece a relação com os investidores, e se beneficia disso.

CONTRA A COVID Funcionário transporta ovos usados na produção da Butanvac, no Instituto Butantan: duas novas fábricas para vacinas (Crédito:Instituto Butantan)

“Canteiro de obras”

“São Paulo virou um verdadeiro canteiro de obras”, diz o governador. O estado investirá este ano R$ 23,3 bilhões com recursos próprios em setores essenciais como Educação, Saúde, Segurança e Infraestrutura. Esse montante é mais do que o dobro do que o governo Bolsonaro disporá no período. São Paulo também receberá este ano R$ 43 bilhões de investimentos privados em rodovias, aeroportos e ferrovias. Só no Metrô paulistano, cinco linhas tiveram obras retomadas, inclusive a estratégica 6-Laranja, que estava travada há anos. Tudo segue uma promessa de campanha, a de não deixar “nenhuma obra parada no Estado”.

O ritmo frenético no Palácio dos Bandeirantes vem desde o início da gestão, mas se intensificou com a perspectiva da desincompatibilização em abril. Doria é pré-candidato à corrida presidencial e concorre às prévias do PSDB em novembro. Se a indicação, provável, ocorrer, assumirá sua cadeira no próximo ano o vice Rodrigo Garcia, que se filiou ao PSDB e também é pré-candidato ao governo do Estado. É um sucessor preparado pelo governador, e é pouco provável que ocorram mudanças. Os dois trabalham proximamente. “São Paulo está crescendo porque fez a lição de casa. Enfrentou o seu maior desafio, que era a Previdência do estado, fazendo a reforma no ano passado. Isso está dando mais recursos para os investimentos”, afirma Garcia. Ele ressalta que várias estatais deficitárias foram fechadas, proporcionando uma economia de R$ 100 milhões anuais para o caixa do estado. “Aproveitamos para fazer as reformas durante a pandemia e agora podemos implantar grandes investimentos e orientar a retomada dos negócios.”

A vitrine de investimentos ajudará o governador para a corrida de 2022, mas a Saúde transformou-se, por força das circunstâncias, na bandeira inescapável. Doria apostou todas as suas fichas na Coronavac driblando a sabotagem de Bolsonaro. Venceu. Hoje, colhe os resultados desse pioneirismo, reconhecido até pelos adversários. Não só por ter ajudado o País a derrubar os índices de mortes e abreviar a retomada da vida normal, mas também pelo legado que deixará após a crise sanitária. Além de duas novas fábricas do Instituto Butantan que garantirão autonomia para enfrentar a Covid, também reabriu 106 hospitais que estavam fechados no estado. “Hoje São Paulo tem mais UTIs do que a Espanha”, diz. É outra área em que conseguiu cravar uma imagem diametralmente oposta ao presidente. Ao apostar na pesquisa e na ciência, fez o contraponto ao discurso negacionista do presidente, numa atitude em tudo oposta ao mandatário. “O legado da minha gestão é a defesa da vacina, é o antinegacionismo”, afirma.

Eleições de 2022

Na Cultura, também deixará uma de suas grandes marcas, igualmente em contraste com o presidente. Em seu projeto autoritário, Bolsonaro abusa de um ufanismo requentado que desvirtua os símbolos nacionais, como o Sete de Setembro. Enquanto isso, Doria viabiliza o grande evento nacional para o bicentenário da Independência. O palco ambicioso será o novo Museu do Ipiranga. A obra feita com investimento privado, que beira os R$ 200 milhões, vai na contramão do cenário de terra arrasada legado pelo presidente nos museus federais (o incêndio na Cinemateca Brasileira é o exemplo mais recente). A instituição não apenas vai se modernizar, com instalações e obras restauradas, inclusive com a renovação do jardim francês, mas vai se tornar um marco do respeito à memória e à história do País — exatamente o oposto do que pratica o Planalto. “O Ipiranga será o maior museu brasileiro”, diz o governador. A reinauguração ocorrerá em julho de 2022, quando Doria planeja estar em plena campanha para presidente. “Vou participar da inauguração, mas como convidado do Rodrigo, que estará no cargo de governador. Serei apenas um convidado”, afirma.

O governador está seguro em se viabilizar como o nome de centro na corrida ao Planalto em 2022, reunindo forças da centro-direita e centro-esquerda. Nas duas únicas disputas que disputou, para prefeito (em 2016) e governador (2018), enfrentou descrédito e adversidades para em seguida triunfar. Ele considera que o pleito de 2022 será uma disputa dura. “Não será uma eleição para bonzinhos”, disse em recente entrevista ao programa Roda Viva. “Será uma eleição difícil, de extremismos. Haverá um festival de fake news”, afirmou na ocasião. Um grande sinal de apoio à sua pretensão foi a adesão do ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, que tomou posse como secretário de Projetos e Ações Estratégicas no último mês. Maia, que era do DEM (assim como Rodrigo Garcia), tentou até o ano passado costurar um nome da “terceira via” de consenso para a Presidência, até ser traído por seu ex-partido. Agora, na prática, impulsiona Doria como essa opção.

Para firmar sua “persona política”, o governador dá ênfase em sua característica de gestor, área em que é inconteste. “Aqui não prometemos, realizamos”, assevera. Apesar do discurso afirmativo, diz que é fundamental “admitir o contraditório e reconhecer os erros”. A atitude afirmativa, mas também flexível, garantiu que ele tivesse “virado o jogo” diante de problemas antigos que assolam o estado. É o caso da Segurança Pública. O governador usou a tecnologia e os investimentos para colher bons resultados. Como ocorre nos EUA, mandou instalar câmeras integradas ao uniforme dos policiais militares, que transmitem operações ao vivo para uma central de monitoramento. São três mil equipamentos em operação, número que chegará a 10 mil nos próximos meses. O resultado é que a letalidade da polícia despencou 40%, objetivo cobrado há anos pelos especialistas, mas difícil de ser efetivado em todo o País. “É uma forma de proteger o cidadão e o próprio policial, que não poderá ser acusado de maus tratos quando age corretamente”, afirma. A medida já começa a ser copiada por outros governadores. Além disso, o governador implantou um sistema de socorro às mulheres para reduzir os feminicídios e investiu pesadamente em equipamentos, como veículos blindados e armas importadas.

Esse dinamismo administrativo também foi transplantado para a área social, com a unificação de 12 programas assistenciais e de transferência de renda na Bolsa do Povo, que vai beneficiar mais de 500 mil pessoas em situação de vulnerabilidade. Aqui também, em contraponto à inação federal, como um vale gás para compensar o aumento explosivo do botijão (o governo federal, ao contrário, havia prometido cortar pela metade o preço do combustível). Na educação, além do investimento em tecnologia, a iniciativa mais importante foi a rápida conversão de escolas para o ensino integral. Eram apenas 263 unidades no início da gestão (5%). Atualmente, são 1.855, e esse número deve chegar a 3 mil até o fim do mandato, quase dois terços de todas unidades (5.255 no total). O número de alunos beneficiados já aumentou 625%: são 834 mil, contra 115 mil no início do mandato.

A disparidade entre esse elenco de projetos bem-sucedidos com o deserto de realizações do governo Bolsonaro tende a favorecer o governador paulista em 2022. Resta saber se será suficiente para romper a disputa entre antibolsonarismo e antipetismo, que ainda predomina. “Faço um governo de gestão e de coalizão. De união entre empresários, sociedade civil, entes públicos e civis. Que respeita os Poderes, o diálogo e o entendimento”, defende Doria como uma nova proposta de concertação nacional. Especialista em comunicação, ele não dá bola para as críticas de quem considera sua “superexposição” um defeito. O otimismo inabalável poderá ser testado no próximo ano, na terceira disputa eleitoral de Doria e no mais importante pleito do País desde a redemocratização.