Saúde

A ameaça dos cigarros eletrônicos

Forma moderna de consumir nicotina atrai cada vez mais pessoas e pode ressuscitar a indústria do tabaco. Apesar de menos nocivos que os cigarros de papel, a extensão completa de seus malefícios ainda é desconhecida

Crédito: Divulgação

Está ficando cada vez mais comum encontrar pessoas nas ruas fumando cigarros eletrônicos. Eles também são conhecidos como E-cigar ou vape. Podem ser de diferentes tipos, alguns até se assemelham a pen-drives: emitem um belo vapor branco que não cheira mal como o cigarro de papel convencional e se dissipa muito mais fácil. No Brasil, eles são oficialmente proibidos, mas podem ser facilmente comprados pela internet em sites de importados. O funcionamento desses dispositivos não usa fogo. São à base de bateria, que deve ser recarregada após algum tempo de uso. Basta que o usuário puxe o ar pelo cartucho para que ele ative um atomizador, aquecendo o líquido eletrônico e o vaporize, permitindo que a substância seja aspirada. Esse composto pode ter sabores mentolados, gelados e até com cannabis, mas em quase todos está presente a nicotina, substância característica dos cigarros e responsável pela dependência química dos usuários.

Um dos grandes trunfos do cigarro eletrônico é oferecer a nicotina sem outros compostos mais abrasivos que existem nos cigarros comuns, como substâncias cancerígenas e alcatrão. O estudante de engenharia ambiental Lucas Magno foi um que migrou do papel para o eletrônico pela ausência de cheiro e por não deixar mau hálito. Ele argumenta: “se a humanidade consome nicotina há tanto tempo, por que não usar a tecnologia para fazer disso o menos nocivo possível?” Leonardo, também engenheiro, pesquisou bastante antes de comprar seu gadget de nicotina e o fez como um substituto para o uso contínuo de cigarro convencional. “Coloquei na balança a composição do cigarro eletrônico contra os montes de substâncias que fazem mal do de papel e fiquei com o primeiro”, explica.

Ambos entendem o impacto da nicotina no organismo, e contam que os dispositivos eletrônicos chamam bastante atenção no ciclo de amigos. Lucas, inclusive, evita iniciar curiosos na substância através do E-cigar. “Geralmente quem pede é fumante, quem não é, eu não deixo”. A consciência dos problemas do consumo dessas substâncias que há entre eles não é observada em muitos jovens. Nos Estados Unidos, o cigarro eletrônico já foi declarado como epidemia. No Brasil, um estudo do Programa Nacional de Tabagismo do SUS apurou que 30% dos usuários menores de 30 anos já experimentaram um vape. Muito do apelo ao uso vem de questões estéticas, além dos diferentes sabores, e há também a crença de que o cigarro eletrônico “é mais saudável”, o que não é necessariamente verdade. O presidente da comissão de tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Luiz Fernando Pereira, é categórico quanto aos novos dispositivos: “não há dúvidas que há menos substâncias que fazem mal à saúde do que nos cigarros normais”. Segundo ele, o problema está nos efeitos ainda desconhecidos a médio e longo prazo do uso desses gadgets de nicotina. Ele cita casos de convulsões, de baterias que podem explodir e até de mortes. Na sexta-feira 23, o Centro de Controle de Doenças dos EUA reportou o primeiro óbito decorrente de doenças respiratórias adquiridas pelo uso de cigarros eletrônicos, e há outros 193 casos sob as mesmas suspeitas.

Interesses financeiros

A preocupação de Pereira com o uso prolongado dos E-cigars vem no momento em que há o interesse de legalizá-los no Brasil. “Sigo com a opinião da Organização Mundial de Saúde: não devemos legalizar, pois não sabemos todos os seus efeitos, mas se isso acontecer, que seja sob as mesmas regras do tabaco”, afirma. Dessa forma, existiriam restrições de uso em ambientes fechados e na publicidade. O Brasil diminui anualmente o número de fumantes, hoje em 9,4% da população – chegou a ser 35% nos anos 1980. A taxa pode voltar a crescer com a expansão dos dispostivos eletrônicos. Essa é a grande aposta das gigantes do tabaco. A Phillip Morris, líder mundial do segmento, informou que pode se unir a Altria Group, que resultaria numa gigante de mais de US$ 200 bilhões. A estratégia faz parte de um projeto de migrar os usuários de cigarro convencional para os gadgets de nicotina. Para os agentes do lucro, pouco importa se faz mal: basta que a população ignore os efeitos nocivos. Décadas foram necessárias para convencer dos problemas que o cigarro traz a saúde, mas, com os avanços da medicina, talvez provar cientificamente o problema dos cigarros eletrônicos não demore tanto.