No levantamento de peso, cada atleta tem três chances de tentar superar suas marcas durante as competições, mas os árbitros brasileiros já sabem que, se o mesmo rosto aparecer seis vezes para erguer a barra, ele pertence aos gêmeos Gabriel e Rafael Fernandes, de 20 anos. Em seu primeiro ano como adultos no esporte, a dupla representou o Brasil na Universíade de Taipei e treina com um objetivo em comum: chegar à Olimpíada de Tóquio, em 2020.

O caminho até a capital japonesa é compartilhado entre os dois durante praticamente todo o dia. Atletas universitários, eles estudam educação física na mesma turma do Centro Universitário Estácio de Sá, treinam no Clube Recreativo Mineiro e moram sob o mesmo teto. A rotina só separa os dois quando estagiam em lugares diferentes, só que para fazer a mesma coisa: são instrutores em aulas de crossfit na capital mineira.

O único lugar em que não podem estar juntos é no pódio, e por isso decidiram disputar medalhas em categorias diferentes. Gabriel ficou na que permite pesar até 62kg, e Rafael subiu para a de até 69kg.

“O treinador não queria que fosse um ouro e uma prata, ou bronze e uma prata. Ele queria dois ouros. E não tem para dois atletas na mesma categoria”, disse Rafael, que logo teve o raciocínio concluído por Gabriel: “Ele não queria que a gente disputasse os mesmos pódios sempre. Por isso, o Rafa decidiu subir e eu decidi manter. Foi um consenso. Agora vamos subir de novo, o Rafa vai para 77kg, e eu vou pra 69kg”.

O treinador a que eles se referem é também o chefe da equipe de levantamento de peso na Universíade, Márcio Júnior, que é tio dos dois e percebeu o interesse dos sobrinhos ainda no início da adolescência. Netos e sobrinhos de atletas do esporte, eles desde a infância já tentavam imitar os movimentos. Quando tinham 12 anos, ficou claro para o tio que podiam levar a brincadeira a sério.

“Enquanto eu estava acompanhando minha mãe no hospital, eles ficavam muito com a minha esposa. Ela faz alguns movimentos por estética e começou a mostrar a eles. Aí, a gente despertou para isso e logo depois eles começaram a treinar. A primeira competição foi quase um ano depois”, lembra o técnico. “Em 2010, foi o primeiro brasileiro, e eles vêm tirando em primeiro e segundo e, desde que mudaram as categorias, primeiro e primeiro”.

Com corpos geneticamente idênticos, os gêmeos são a prova de que cada categoria requer um tipo de preparação. Com 1,70m, Gabriel precisa manter uma dieta rígida para continuar na categoria de até 62kg, enquanto Rafael pode “comer de tudo” para competir com menos de 69kg. Para a altura deles, a categoria ideal, no entanto, é a de até 85kg, o que eles devem demorar a atingir.

“É um trabalho muito longo. De 62kg para 85kg é muito peso”, reconhece Gabriel.

Na Universíade, os dois não subiram ao pódio: Rafael foi o 15º de sua categoria, e Gabriel, o nono. O desempenho não desanimou os gêmeos, que talvez tenham que lidar ainda com um problema no sonho olímpico: a possibilidade de o Brasil levar apenas um atleta masculino para a olimpíada, o que vai depender dos resultados gerais do país nas próximas competições. Nesse caso, mesmo que estejam em categorias diferentes, Rafael e Gabriel voltarão a ser concorrentes no sonho que dividem diariamente.

“Se ele conquistar essa vaga, vai ser como se eu tivesse ido. E se eu for, sei que para ele vai ser como se fosse ele”, diz Gabriel, que concorda com o irmão de que eles também não devem se intimidar com a concorrência de atletas que já tiveram mais resultados.

“A mesma coisa que a gente tem eles têm, dois braços e duas pernas. Basta treinar e correr atrás dessa vaga”, afirma Rafael.

 *O repórter viajou a convite da Confederação Brasileira do Desporto Universitário (CBDU)