São Mateus ainda não parece um lugar assim tão longe. Era mais perto em 2009, quando Rodrigo Campos tinha ainda as imagens frescas, com gente que fazia daquele bairro de 13,2 km² na zona leste de São Paulo – uma pequena cidade de 155.140 habitantes – o quintal de sua casa. Jogo de bilhar na quarta, quinta futebol, roda de samba de sexta, Mariana e seus olhos no bar da estação de Perus, Brother José do repique de mão, professora Lucia de Vila Prudente, Isac do futebol e da Igreja Universal, menino Fabrício, carvoeiro, e menina Marina, vendedora dos caranguejos que catava no mangue e fornecedora de prazeres orais por R$ 10.

Assim que deixou as terras de São Mateus para migrar para outras São Paulo, Rodrigo foi atropelado por uma cruel despedida de si mesmo. Mooca, Pinheiros, Pompeia, e aquele seu mundo tão físico e horizontal começava a virar nuvem. As letras vieram e ele passou a se lembrar de um por um.

Vivos e mortos, com nomes e situações reais, aquelas pessoas ressurgiam em crônicas cantadas em forma de samba, sambas emoldurados por arranjos que faziam tudo flutuar deixando transparecer uma nostalgia das memórias. São Mateus, um dos berços dos maiores sambistas de São Paulo, ganhava, assim, uma outra frente. Um samba que não é de roda nem de breque nem de pista. Que não é partido e não é enredo. Um samba de sonho.

São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe saiu em 2009 como um susto. Rodrigo foi resenhado por ótimas críticas, entrou para as listas de melhores álbuns da temporada, fez contato com uma turma em São Paulo que falava seu idioma e ganhou segurança para arriscar de novo nos discos que seguiriam, Bahia Fantástica, de 2012, e Conversas com Toshiro, de 2016. “Para mim, ele é um dos maiores compositores dessa geração”, diz o jornalista e DJ Ramiro Zwetsch.

Dez anos depois, respeitando o tempo das acomodações que só mantém o que não se consegue esquecer, Ramiro tem segurança para afirmar que São Mateus é um novo clássico. Por meio de seu selo Patuá Discos, mesmo nome da loja de vinis que mantém na Vila Madalena, ele vai lançar o álbum pela primeira vez em vinil com uma tiragem de 500 cópias, que serão colocadas a R$ 90 em uma pré-venda online até 5 de dezembro. No dia 6, na própria Patuá, Rodrigo faz um show com voz e violão para marcar o lançamento.

O próprio Rodrigo fala de como ouve sua música, dez anos depois. “É um álbum bem de estúdio, feito em camadas. Não tem uma linha que una as músicas de forma estética. O disco vai caminhando e você vai com ele. Cada faixa é uma história diferente. O que dá a liga é o conceito fechado sobre o bairro.”

O samba de Rodrigo, quando colocado na linha dos sambas de crônica a partir dos anos 30, da Lapa de Noel Rosa e Wilson Batista passando pelas observações de subúrbio de Chico Buarque e Paulinho da Viola nos anos 70, pelos retratos de um morro proibido tirados por Bezerra da Silva nos 80, pela exaltação de um morro turístico do Cacique de Ramos e por todos os seus dissidentes que fazem o País conhecer do Morro da Mangueira ao Recôncavo Baiano sem pisar nesses lugares, segue um caminho novo.

A música aqui não é celebrativa, não é sua função. Rodrigo, e isso é típico de músicos paulistanos, não tem uma carga cultural a defender. Assim, seu samba pode sair dos formatos e trazer guitarras logo em Fim da Cidade. Arriscar-se na base de “samba de Cesar Mariano” em Os Olhos Dela, com a voz de Luisa Maita. E ir até Isac, o ponto mais próximo de um “samba samba”, com um raro “la laiá laiá”.

Assim como o clima de canções como Lucia, de cordas à frente das percussões (partideiros do Rio têm feito exatamente o contrário), as histórias de São Mateus estão sempre abertas. Nunca se sabe o que acontece com os personagens, e parece que Rodrigo não busca roteiros de cinema com começo, meio e fim, entre dramas e conflitos. Seus olhos passam pelas pessoas, as observam em seus cotidianos e, muitas vezes, é apenas isso, como se o importante não fossem suas histórias individuais, mas o coletivo que representam.

Há um peso dramático na extasiante Mangue e Fogo, com Luisa Maita derramando delicadezas para falar das vidas de Marina e de Fabrício. E ainda assim, ao apontar vulnerabilidades que levam às catástrofes humanas, não se quer nem mudar a realidade nem legitimá-la sob o manto sagrado do samba. São Mateus de Rodrigo Campos fica, assim, um lugar bem longe da Madureira de Arlindo Cruz.