Comportamento

Arquitetos-estrela no Brasil

Estrangeiros badalados têm projetos vistosos no País, mas não estão livres dos percalços das obras públicas

Arquitetos-estrela no Brasil

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A tendência é mundial e tem paralelo no mundo da moda. Da mesma forma que um sapato do designer francês Christian Louboutin é cobiçado no mundo todo, pois confere glamour a quem o calça, ostentar uma obra de um arquiteto estrelado, uma grife internacional, dá status e pode fazer a diferença em uma cidade. No Brasil, os municípios estão pagando fortunas por prédios de assinatura para melhorar a autoestima de seus moradores e fomentar o turismo. Recentemente, o arquiteto espanhol Santiago Calatrava – autor de obras espetaculares como o Complexo Cultura de Valência, na Espanha – esteve no Rio de Janeiro para lançar o Museu do Amanhã, na zona portuária. Com 12,5 mil m², custará R$ 130 milhões, bancados pela prefeitura. “Os grandes prédios, de formas exacerbadas, são objetos de desejo no mundo, inclusive no Brasil”, diz o arquiteto e urbanista José Magalhães Jr., professor da Faculdade de Arquitetura do Mackenzie.

Além de Calatrava, várias grifes da arquitetura desembarcaram no País nos últimos cinco anos. Criadores do Instituto de Arte Contemporânea de Boston (EUA), Elizabeth Diller, Ricardo Scofidio e Charles Renfo, do escritório americano Diller Scofidio + Renfo, respondem pelo projeto do Museu da Imagem e do Som (MIS), no Rio. Parceria do governo carioca com a Fundação Roberto Marinho, o prédio foi orçado em R$ 70 milhões e terá sete mil m². O terreno foi desapropriado e está sendo preparado para as obras. O desenho surgiu de uma brincadeira com uma tira de cartolina com a calçada de Copacabana. “Dobramos e desdobramos e nasceu uma boa ideia”, diz Elizabeth. Também há projetos em andamento, no Rio, do francês Christian de Portzamparc; em São Paulo, dos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron – autores do estádio Ninho do Pássaro, em Pequim –; e do escritório alemão GMP (Gerkan, Marg and Partner), que fez as arenas de Durban e da Cidade do Cabo para a Copa da África do Sul, em Manaus, Belo Horizonte e Brasília. Inaugurado em 2008, em Porto Alegre, o prédio da Fundação Iberê Camargo, do português Álvaro Siza, se tornou parada obrigatória na cidade.

A presença desses arquitetos no Brasil intensificou-se com a crise mundial, em 2008, que reduziu contratos de trabalho nos EUA e na Europa. Os mercados emergentes viraram, então, opção. Neste momento, a presença deles no País está mudando de patamar. Antes eram contratados apenas por órgãos públicos. Agora, começam a ser chamados por empresários. Responsável pelo complexo de prédios que será erguido no local das Torres Gêmeas, em Nova York, o polonês Daniel Libeskind acaba de ser convidado pela incorporadora JHSF para assinar uma torre residencial de 13 andares em São Paulo.

Apesar de abocanharem bons projetos, os estrangeiros não estão livres dos tradicionais problemas que envolvem obras públicas no Brasil. Contratados pelo governo de São Paulo para erguer o Teatro da Dança, no degradado centro da cidade, os suíços Herzog e De Meuron desenvolvem o projeto básico para a região e aguardam o início das obras desde 2008. Eles foram contratados sem licitação, com a prerrogativa de que têm “notória especialização” neste tipo de construção. Tal argumento é questionado na Justiça por arquitetos brasileiros, o que contribui para o atraso das obras. “Não somos a favor da reserva de mercado, mas da igualdade de direitos”, diz Rosana Ferreira, presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). “Em 2009, a França promoveu 1.200 concursos públicos. No Brasil, foram apenas 16.” Com a demora, a construção encarece. Dos R$ 311,8 milhões iniciais, deverá custar o dobro.

Ganhador do prêmio Pritzker em 1994, o Oscar da arquitetura, Christian de Portzamparc também caiu na teia das obras públicas brasileiras. Contratado pelo então prefeito carioca, Cesar Maia, para projetar a faraônica Cidade da Música, ele viu a obra ficar paralisada por dez meses. A interrupção foi motivada pela troca de gestão na prefeitura e pela suspeita de superfaturamento. A construção, iniciada em 2002, foi retomada no ano passado, após um reforço de R$ 50 milhões. O prédio que custaria R$ 90 milhões já está em R$ 670 milhões. “No Brasil, as licitações para as obras são feitas com base num projeto básico, que não prevê todos os custos”, diz Rosana, do IAB.

A Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 vão atrair mais arquitetos de grife para o Brasil. Mas os problemas devem continuar. Autores de projetos nas últimas Copas do Mundo na África do Sul e Alemanha, os alemães do GMP já enfrentam os primeiros percalços na obra da Arena Amazônia, em Manaus, que é acompanhada pelo alemão Ralf Amann e nem sequer começou a ser erguida. Sempre em parceria com escritórios de arquitetura brasileiros, o GMP está envolvido também na reforma do Mineirão, em Belo Horizonte, e do Mané Garrincha, em Brasília. No início do mês, o Ministério Público Federal encontrou indícios de sobrepreço de R$ 63 milhões no edital de licitação da Arena Amazônia. Os arquitetos são estrangeiros, mas os problemas, tipicamente brasileiros.

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