Comportamento

Você é o que você fala

Dicas para ser ouvido e compreendido num mundo em que cada palavra conta

Você é o que você fala

i56925.jpg

Relações afetivas: Troque o "POR QUE" pelo "O QUE" ou "COMO"

SITUAÇÃO: O marido chega em casa exausto depois de um dia de trabalho. Durante o jantar, sem apetite, deixa o prato pela metade. A mulher, depois de horas na cozinha preparando a refeição, interpreta a atitude do marido com uma pergunta-acusação. "Por que você não gostou da minha comida?!", conclui. A palavra "por que" gera um ciclo de questionamentos sem solução, não leva à ação, e, geralmente, vem acompanhada da interpretação sumária do fato (para a mulher, a única explicação possível para a falta de apetite do marido é o sabor da sua comida).

SOLUÇÃO: "O que aconteceu com você hoje?" e "como posso te ajudar a resolver o problema?" A expressão "o que" amplia as possibilidades de interpretação do fato. A palavra "como" sugere um interesse do interlocutor em entrar em ação para ajudar o outro.

Faça um exercício.
1) Não pense num fundo preto de bolas brancas.
2) Não ouça o toque do seu celular.
Certamente, você acabou de enxergar o fundo de bolas brancas e ouvir o som do telefone. Isso ocorre porque nosso cérebro não reconhece a palavra "não" e processa aquilo que a sucede imediatamente. Esse é o motivo pelo qual muitas placas de advertência ao cigarro substituíram o "não fume" por "proibido fumar". Da mesma forma, quando você diz "não quero lembrar", lembra em seguida daquilo que quer esquecer. Estes são alguns dos muitos exemplos de como nossa mente pode ser programada por palavras e influenciar a percepção que temos do mundo. Com base nesta teoria, a programação neurolingüística (PNL), técnica que surgiu na década de 70 nos Estados Unidos, tem sido cada vez mais utilizada em tratamentos psicoterapêuticos, cursos de treinamento em gestão e liderança e até em disciplinas acadêmicas, alcançando altos índices de satisfação pelos resultados rápidos que proporciona. A PNL se propõe a mostrar como a linguagem pode interferir nos nossos padrões de comportamento e como é possível "reprogramar" o cérebro através das palavras, para que algo que se deseja – mudar ou alcançar – seja conquistado
A técnica foi criada pelo psicólogo Richard Bandler e pelo lingüista John Grinder, americanos que aliaram as teorias da neurolingüística (movimento iniciado no século XIX que estuda a elaboração cerebral da linguagem) à gramática transformacional de Noam Chomsky (que associa a palavra à interpretação) e às linhas de psicoterapia gestalt e behaviorista. A PNL foi trazida ao Brasil na década de 80 por alguns psicólogos interessados em inseri-la nas sessões de terapia, mas perdeu credibilidade nos anos 90, após ser pasteurizada como uma "solução para todos os males". "Alguns marqueteiros fizeram um curso de fim de semana nos Estados Unidos e voltaram ao Brasil cheios de promessas milagrosas. Transformaram a PNL em mercadoria e cobravam fortunas nas palestras para empresas", critica a psicóloga Clô Guilhermina, uma das pioneiras no Brasil e fundadora do Instituto de Programação Neurolingüística Aplicada, o primeiro a ser validado pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. Nos últimos anos, após a iniciativa de pesquisadores em validar cientificamente a técnica no meio acadêmico, ela voltou a ser respeitada. Em maio do ano passado, foi reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia como uma prática da psicoterapia.

i56926.jpgRelações Profissionais: Troque o "ACHO" pelo "PENSO" ou "SINTO"

SITUAÇÃO: Numa reunião de negócios, um funcionário deve apresentar ao chefe uma proposta para resolver um problema específico. Ele diz: "Eu acho que a melhor solução para este problema é….". A palavra "achar" sugere incerteza, como se o interlocutor não tivesse elaborado a sua opinião e encontrasse aleatoriamente uma solução. Sem sentir segurança por parte do funcionário, o chefe transfere a atenção para outra pessoa.

SOLUÇÃO: "Eu penso que …". A palavra "pensar" sugere que a idéia não foi "encontrada", mas elaborada pelo funcionário. "Eu sinto que …" é eficaz nos casos em que os argumentos lógicos não forem suficientes, pois sugere um sentimento, uma intuição que não pode ser questionada.

i56928.jpg

SITUAÇÃO 1: Uma pessoa sonha em viajar para a Europa e diz com freqüência: "Um dia conhecerei a Europa." A expressão no futuro e sem uma data definida gera no cérebro uma programação vaga, sem clareza quanto à concretização do fato.

SOLUÇÃO: "Dia 10 de dezembro de 2009 e estou em Paris." A afirmação no tempo presente faz com que o cérebro se prepare para realizar a ação. Com uma data determinada, a pessoa vai agilizar a preparação para a viagem. Obter informações, estabelecer prazos, elaborar os roteiros e economizar. A probabilidade de a viagem se concretizar é maior.

SITUAÇÃO 2: "Quero uma mansão de R$ 1 milhão." Ninguém quer um objeto, mas o que ele pode proporcionar. No caso da mansão, alguns querem espaço para reunir os amigos, outros querem um quarto para cada um dos filhos e há quem queira simplesmente mostrar aos outros quanto venceram na vida.

SOLUÇÃO: Defina exatamente por que quer uma mansão (e se quer mesmo). Talvez descubra que a sensação que terá com o objeto não necessita dele para se realizar. É possível que os seus amigos se sintam à vontade em um apartamento ou que seus filhos se relacionem melhor dividindo o mesmo quarto numa casa. E existem várias formas de obter o reconhecimento dos outros sem, necessariamente, ostentar.

Segundo a PNL, o cérebro funciona a partir de uma relação contínua entre os cinco sentidos e a leitura mental (ou interpretação) que a pessoa faz do mundo, o que os estudiosos chamam de "significação". O indivíduo recebe os estímulos através da visão, audição, tato, olfato e paladar e gera um modelo de realidade com base em suas experiências passadas, crenças e valores. Essa interpretação reforça a percepção das próximas experiências, como se a pessoa criasse um filtro. O olho de um esquimó, por exemplo, vê diversos tons de branco porque tem uma vivência maior com a neve do que uma pessoa que mora numa metrópole. "Uma grávida enxerga muitas iguais a ela pela rua. Parece que o mundo inteiro engravidou. Como está completamente imersa na gestação, sua visão se condiciona a enxergar apenas aquilo", explica Regina Maria Azevedo, mestre em programação neurolingüística pela Universidade de São Paulo (USP), que introduziu o tema na grade curricular de faculdades da instituição.
Pesquisas também indicam que a linguagem reforça o processo mental. É o caso de um negro que tenha sofrido algum tipo de discriminação de um branco e, após a experiência negativa, passou a afirmar que "todos os brancos são preconceituosos". Com o modelo definido, ele tenderá a ser reativo com qualquer indivíduo de pele clara. "As palavras restritivas criam significados internos que levam algumas partes do cérebro a serem desativadas e isso gera a distorção na percepção", complementa o psicólogo George Vittorio Szenészi, diretor do Instituto Metaprocessos Avançados, especializado em cursos de PNL em Florianópolis (SC).

Os padrões negativos de comportamento são reforçados pelo uso de algumas palavras "vilãs", como "jamais"; "nunca", "sempre"; "todos" e "nenhum", que generalizam situações e eliminam as demais possibilidades. Outras ainda são responsáveis por distorções na construção da auto-imagem durante o diálogo, como "vou tentar", que sugere ao ouvinte que o interlocutor não vai se esforçar. Já o "eu acho" reflete incerteza. "A pessoa passa uma imagem de comodismo. O ideal é substituir o ‘tentar’ pelo ‘conseguir’ e o ‘achar’ pelo ‘pensar’, até para que o cérebro dela reaja com segurança", recomenda a psicóloga Clô Guilhermina. Segundo os especialistas, o grande desafio da PNL é fazer com que as pessoas ampliem seu modelo de mundo. Assim, garantem, elas conseguirão encontrar outras interpretações para aquilo que as incomoda e remodelarão o uso da linguagem. A essa mudança comportamental é dado o nome de "ressignificação", que pode começar com uma simples alteração na fala. A pessoa deve substituir frases como "sou obrigado a fazer isso" por "decidi fazer isso", para que tenha confiança na sua autonomia. "Mesmo que alguém tenha que fazer alguma coisa contra a sua vontade, geralmente pode escolher como fazer", avalia Szenészi.

A PNL promete conseguir resolver frustrações, traumas e fobias rapidamente. A base da técnica é descolar as experiências ruins das sensações e palavras, até que o indivíduo elimine a memória desagradável. "O sofrimento é gerado pela associação do fato negativo com uma imagem, som, cheiro, gosto ou sensação. Quando a pessoa consegue fazer esse descolamento, supera o problema", garante Szenészi. A linguagem ainda pode reforçar padrões de atividade ou passividade. "Pessoas que usam muitas palavras para dizer o que querem geralmente são reativas e motivadas pelo medo. Aquelas que falam o que querem com objetividade são pró-ativas e empreendedoras", afirma o cardiologista Lair Ribeiro, especialista em PNL. Segundo os pesquisadores, uma vez dominadas, as técnicas podem ser aplicadas sem auxílio profissional.

i56931.jpgRelações sociais: Troque o "MAS" pelo "E"

SITUAÇÃO: A conjunção "mas" remete à idéia de oposição. Se você pretende elogiar alguém e diz: "Você é muito bonita, mas muito jovem. Será ainda mais experiente na sua profissão daqui a dez anos." No lugar do elogio, o ouvinte entenderá uma crítica ("sou bonita, porém, inexperiente").

SOLUÇÃO: Se o interlocutor substitui o "Mas" pelo "E", confere a idéia de inclusão, de soma. "Você é bonita, jovem e imagine a profissional que será daqui a dez anos." O ouvinte entende o elogio. ("Sou bonita, jovem e terei um futuro brilhante").

Superação de traumas: Circunscreva o problema

i56930.jpgSITUAÇÃO: Ana sofreu várias decepções amorosas. Ficou noiva duas vezes e foi traída pelos pretendentes. Após a última experiência, concluiu: "Nenhum homem presta." A partir da afirmação, o cérebro elimina a visualização de todos os homens confiáveis e só "enxerga" os que não são. Presa à própria generalização, Ana continua a se relacionar com homens que se assemelham às suas experiências anteriores.

SOLUÇÃO: Redimensionar o problema. "Quantos homens existem no mundo?" Bilhões. "Quantos deles eu conheço?" 120. "Dos que eu conheço, quantos são infiéis?" 20. "Destes, quantos foram infiéis a mim?" Dois.

Em busca de uma possibilidade de cura rápida para suas angústias, milhares de brasileiros recorrem aos cursos intensivos de PNL. O método consiste em levar um grupo de até 30 pessoas a um hotel fora da cidade num fim de semana para participar das dinâmicas terapêuticas. No local, os celulares são desligados e é proibido qualquer contato com o mundo exterior. São aplicadas técnicas de autoconhecimento, que deverão ser mantidas em sigilo pelos participantes após a experiência. "É fundamental que a pessoa não conte o que fez no encontro para não estragar a experiência das outras que ainda vão participar do programa. O fator surpresa é fundamental", afirma Emerson Feliciano, que implementou o programa "Ser Líder" em São Paulo. Quem participou, aprova. Amanda Costa, 25 anos, especialista em recursos humanos, garante que mudou radicalmente após um treinamento semelhante. "Saí de casa e terminei um namoro. Tomei atitudes que eu já sabia que deveria tomar, mas não tinha coragem. A gente aprende a não se sentir impotente, a assumir os desafios e a entender que a nossa vida só muda se a gente mudar", afirma. Essas transformações também foram vivenciadas pelo engenheiro de telecomunicações Emerson Moreira, 32 anos, logo após o treinamento. "Aprendi a soltar as minhas emoções e a compartilhar meus problemas. É um curso que faz a gente rir, chorar e, principalmente, mudar", atesta.
Mas nem todos os terapeutas acreditam na eficácia da PNL. A prática recebe críticas por prometer "soluções imediatas" que não se sustentam com o tempo. "Não existem resultados rápidos quando se trata do comportamento humano e é uma mentira essa história de cura de fobias em 20 minutos. O sugestionamento do paciente propicia uma solução momentânea, mas os problemas voltam em alguns dias, se ele não tiver um acompanhamento adequado, com sessões de terapia", fala o psicoterapeuta Gildo Angelotti, de São Paulo. "O sucesso da técnica depende de a pessoa querer mudar. Se ela não consegue, o desafio é descobrir que parte nela resiste à mudança", pondera Szenészi. Como tudo na vida, com programação neurolinguística ou não.

i56932.jpgFamiliares: Amplie as interpretações

SITUAÇÃO: Pedro é o filho do meio e se sente inferiorizado em relação aos irmãos. Acredita que o mais velho é o preferido por ter sido o primeiro e o caçula é o protegido dos pais por ter sido o último. Com esta visão de mundo, elimina as demais possibilidades (como tudo que os pais fazem por ele) e só enxerga aquilo que é feito aos irmãos. "Meus pais dão mais atenção ao meu irmão caçula do que a mim. Eu só fico com as cobranças."

SOLUÇÃO: Ampliar as possibilidades de interpretação do fato. "Meu irmão precisa mais do meu pai do que eu." Talvez o filho mais novo esteja com algum problema na escola ou tenha mais dificuldade de enfrentar os problemas do mundo. "Meu pai cobra muito de mim porque me considera uma pessoa responsável." O nível de exigência pode ser proporcional à expectativa que se tem do outro.