Cultura

O segundo sexo

Coletânea reúne os caprichos antifeministas do filósofo de língua alemã Schopenhauer

Boas profissões para as mulheres seriam as de educadoras e babás, já que elas “são infantis, tolas e têm visão curta. Em poucas palavras, são crianças grandes”. Mas, como mulheres existem “somente” para a propagação da espécie, necessitam se casar – fato que acaba por resolver outra questão ao dar um “amo para guiá-las”, já que a natureza as destina à obediência. O homem, “este, sim, uma pessoa de verdade”, é obrigado a descer do patamar da genialidade para lidar com essa figura tagarela, dissimulada, com inclinação para o esbanjamento, mentirosa e feia. Sim, feia: “Somente o intelecto masculino, turvado pelo instinto sexual, poderia chamar de belo pessoas de estatura baixa, ombros estreitos, ancas largas e pernas curtas.” Em suma, as mulheres são o segundo sexo, sob qualquer ponto de vista, inferior. Assinado: Arthur Schopenhauer.

Ao apresentar o livro A arte de lidar com as mulheres (Martins Fontes, 112 págs.,
R$ 19,80), que reúne o pensamento demolidor de Schopenhauer (1788-1860) sobre o sexo feminino, o organizador Franco Volpi lembra, em boa hora, que “os grandes filósofos em geral não se saem bem com as mulheres e no amor”. O aclamado filósofo pessimista não foge à regra. Sua trajetória de infortúnios com o sexo feminino começa com a mãe, Johanna, uma escritora considerada liberal demais e com quem ele mantém uma relação mais permeada pelo ódio do que pelo amor. Quando ela morre, são contabilizadas duas décadas de total distância entre os dois. Com as mulheres ele viveu muitos amores intensos ou platônicos, mas sempre fracassados. A fatura de toda essa alta conta emocional é descontada em seus livros, nos quais ele barateia o perfil feminino até quase não sobrar nada de valor.

O que Volpi fez foi extrair alguns textos das obras de Schopenhauer, em especial
da célebre Metafísica do amor sexual, e reuni-los neste painel que poderá ser
lido de duas formas: com repugnância ou com humor. A segunda opção é
a melhor. Mas é bom levar em conta o contexto patriarcal da época e a visão pessimista do autor em relação ao universo. “Casar-se significa enfiar a
mão em um saco de olhos vendados na esperança de descobrir uma enguia no meio de um monte de cobras”, disse ele. Nascido na Prússia, atual Polônia, Schopenhauer nunca contraiu matrimônio nem deixou filhos. A velhice foi passada em Frankfurt, na Alemanha, solitariamente. Ou nem tanto: a decrepitude foi compartilhada com um amigo, o poodle chamado Atma, que significa “alma do mundo”. Se tivesse ganhado atenção em livros, certamente o cãozinho mereceria melhor verbete do que as mulheres.