Cultura

O eterno retorno

Ressuscitada depois de 30 anos, a mitológica banda The Doors se apresenta em São Paulo e no Rio de Janeiro numa temporada nostálgica que traz também Brian Wilson, líder dos Beach Boys Luiz Chagas

Ex-vocalista da banda inglesa The Cult, Ian Astbury não tem a mesma estampa e aura mítica do roqueiro Jim Morrison, morto em 1971. Mas, quando ele puxar os primeiros versos de Light my fire nos shows do ressuscitado grupo The Doors, será como se o tempo tivesse parado naquela década de paz e amor. A música do quarteto The Doors, cujas letras despertaram o interesse da juventude pela poesia beat, poderá ser ouvida na sexta-feira 29 no Credicard Hall, São Paulo, e no sábado 30 no Claro Hall, Rio de Janeiro. No outro fim de semana, será a vez de o surf rock criado por Brian Wilson, líder dos Beach Boys, sacudir a noite de encerramento do Tim Festival em São Paulo, no dia 7 de novembro. The Doors of 21st Century, que reúne depois de três décadas os membros originais do grupo – o guitarrista Robby Krieger e o tecladista Ray Manzarek –, desafia-se a executar com o máximo de fidelidade os grandes sucessos do quarteto. Wilson, que sobe ao palco escoltado por dez músicos, além de cordas e metais, apresentará a versão integral de Smile, o disco que tentou gravar em 1967 em parceria com o letrista Van Dyke Parks, finalmente concluído este ano. O preço para se embalar na onda nostálgica é salgado: R$ 180 para ver assentado os Doors, e R$ 150 para fazer o mesmo na apresentação de Wilson, lotada com 15 dias de antecedência.

De sua casa em Los Angeles, pelo telefone, um brincalhão Manzarek resumiu a ISTOÉ o que o público deve esperar do show do D21C. “Paixão! Hard rock! Excitação! Músicas dos Doors como Ligth my fire, Break on through (to the other side), Roadhouse Blues”, afirmou, com voz de vendedor. Para Manzarek, Jimmo – apelido de Morrison – não era um deus ou Dionísio, mas o letrista da banda, um colega de escola, a University of California (UCLA). “Às vezes doidão, às vezes sombrio, mas meu amigo”, assegura. Feliz, diz que o guitarrista Robby está tocando melhor do que nunca e que os dois estão se divertindo ao lado de Ian Astbury, um vocalista brilhante. Perguntado sobre o que Morrison acharia de tudo, Manzarek vestiu-se de discípulo. “Jimmo ficaria feliz pois Ian tem uma grande voz. Ele está cantando as palavras de Jim, fazendo com que sua poesia seja ouvida. É isso que interessa.” Só lamenta a ausência de John Densmore, o baterista original, afastado por causa de uma infecção no ouvido – e responsável pela adoção do novo nome do grupo, uma forma de evitar ações judiciais.

Gênio – No caso de Brian Wilson a situação é oposta. Ele seguiu e quem ficou para trás foi a música – seus dois irmãos Carl e Dennis, integrantes dos Beach Boys, já morreram. Amado por notáveis como Paul McCartney, para quem God only knows é a melhor música pop de todos os tempos, e o cineasta Carlos Reichenbach, que já proferiu palestras sobre sua figura, Wilson pode ser considerado um gênio. Foi por causa de Pet sounds, de 1966, que Sgt. Pepper’s lonely-hearts club band foi criado, fazendo com que Wilson mergulhasse no estúdio para tentar superar o lançamento dos Beatles com o projeto conceitual batizado Smile. Só que o tiro saiu pela culatra. Tamanho empenho só fez crescer os problemas mentais do compositor, que a partir de então teve dificuldades de comunicação, passando a maior parte das últimas décadas recluso. Fez poucos shows e lançou discos esporádicos – um deles, Brian Wilson, de 1988, em parceria com seu psiquiatra, dr. Eugene Landy.

Em 2002, aconteceu o que ninguém esperava. O músico decidiu voltar para a estrada tocando nada menos que todo o Pet sounds, e na ordem do disco – o que deve ter enlouquecido McCartney de vez, já que Sgt. Pepper’s nunca foi executado ao vivo. A idéia de retomar Smile partiu do tecladista Darian Sahanaja, que ajudou a adaptar Pet sounds para o palco e testemunhou o “renascimento” de Wilson. A obra foi gravada e deve chegar às lojas esta semana. Brian Wilson presents Smile é a continuação natural de Pet sounds em termos de requinte e instrumentação variada. A primeira das 17 faixas, Our prayer/Gee, é adornada por um coro a capela típico dos Beach Boys e a última, a consagrada Good vibrations, surge com uma nova letra. Heroes and villains, Vega-tables, Wind chimes, Wonderful, Cabin essence e Surf’s up são músicas que entraram em discos do grupo, em versões mais simples.

No palco, Wilson se mostra solto, dando-se ao luxo de até empunhar uma furadeira elétrica em Mrs. O’Leary’s cow, quem sabe inspirado no baiano Tom Zé. Como se vê, humor é o que não falta aos sessentões do rock. Perguntado sobre o que achou do musical The Doors, dirigido por Oliver Stone, Manzarek foi taxativo. “Não gostei. Ninguém ri naquele filme. Os personagens estão sempre bêbados, não se vê o artista criando.” E emenda: “Veja o Kyle!”, esbraveja, referindo-se a Kyle MacLachlan, que o encarna na história. “Você está muito duro, falei para ele. Fume alguma coisa, relaxe! Estamos nos anos 60!” Olhando em volta, parece mesmo.