Brasil

Mão na cabeça, vagabundo!!!

Policiais brasileiros pagam do próprio bolso curso com oficiais da Swat americana e vivem situações próximas do real

São 21 horas da quente segunda-feira 25 de outubro, no tranquilo bairro de Coqueiral, na cidade de Aracruz, Espírito Santo, a 83 quilômetros de Vitória. Uma viatura da Polícia Militar está na frente de uma casa branca e espaçosa, cercada por um cordão de isolamento que evita a aproximação de dezenas de curiosos. Lá dentro, um bandido ameaça se matar. Doze policiais descem de um ônibus e, protegidos por um escudo à prova de balas, caminham agachados em direção à casa. Passam o portão, dividem-se em dois times e alcançam os fundos pelas laterais. No jardim com piscina e bela vista para o mar, explodem as flashbangs, bombas que produzem clarões e estampidos. Depois, novamente silenciosos, se comunicam piscando lanternas pela casa escura. Uma das equipes parte para o andar superior, onde está o criminoso. Usam coletes à prova de balas e máscaras. Uma conversa amigável abafa as intenções suicidas e a ocorrência termina sem nenhum disparo. Foi emocionante, mas tudo não passou de uma realista simulação. O exercício, parte do evento de treinamento policial 5º Swat, é um sucesso de público. “Me senti vendo o seriado da tevê ao vivo”, diz a dona-de-casa Maria Nazareth da Silva, 40 anos. Nazareth cantava o tema do seriado S.W.A.T., famoso nos anos setenta.

Realizado entre os dias 22 e 31 de outubro, o 5º Swat trouxe dez policiais americanos da Swat (táticas e armas especiais, na sigla em inglês) – divisão de elite dos departamentos locais de polícia dos Estados Unidos – para dar cursos como resgate de reféns, assalto a ônibus e tiro em baixa luminosidade. Quem trouxe os americanos foi o empresário Marcos do Val, 33 anos, dono do Centro Avançado em Táticas de Imobilização (Cati), que promove os cursos cuja inscrição custou R$ 1.950 a cada um dos 128 participantes. As despesas – pagas pelos próprios policiais – aumentam com a estadia, transporte e equipamentos, e chegam a R$ 4 mil. Alguns policiais ou militares – os únicos aceitos – obtêm patrocínios privados e outros têm parte das despesas pagas pelo governo de seus Estados. Outros, porém, tiveram até os dez dias descontados das férias. O policial civil Marcelo G. Rafael, 34 anos, membro do Grupo de Operações Especiais (GOT) da seccional de Santo André, na Grande São Paulo, guardou dinheiro por um ano e meio. “Queria vir desde o 4º SWAT, mas não tinha como bancar. Os policiais que estão aqui querem se aprimorar para trabalhar melhor, sem matar ninguém.” A inspetora da delegacia da mulher de Caxias do Sul (RS), Flavia el Andari, 27 anos, teve ajuda financeira da mãe.

É unânime, porém, que o dinheiro é bem gasto. Além da simulação na casa, os alunos fizeram exercícios dentro de um ônibus. Na aula, aprendem que o bandido não pode deixar o ônibus sem se render. A entrada dos policiais no veículo é a última opção, somente depois de esgotadas as negociações. São dois times na invasão. Um deles se posiciona nas janelas laterais, enquanto o outro invade o ônibus aos berros – “Polícia! Mão na cabeça, vagabundo!!!” é o preferido –, neutraliza o bandido e investiga os demais passageiros.

Bebê baleado – A origem do curso que movimentou Aracruz é curiosa. Antes de abrir o Cati, Marcos do Val foi instrutor da Academia de Polícia Civil capixaba e desenvolveu uma técnica eficiente de imobilização baseada no aikido, arte marcial que pratica desde os 18 anos. “Percebi que os policiais tinham dificuldade de imobilizar e algemar os suspeitos sem o uso da violência ou da arma.” Ele foi convidado para dar o curso à equipe da SWAT de Dallas e surgiu o intercâmbio entre o Cati e algumas unidades da SWAT do Texas. Para alunos e instrutores, a razão de assumir uma rotina perigosa é a mesma dos praticantes de esportes radicais: adrenalina. A inspetora Flavia está na polícia há nove meses e é formada em direito. “O trabalho de juíza ou promotora é muito parado para mim.” Flavia ainda não precisou atirar em ninguém, mas não hesitaria se fosse preciso. Uma das cinco mulheres no evento, Flavia foi alvo de gracejos. O melhor deles veio de um PM do Pará: “Gracinha, não esquece, o meu telefone é 190.”

Quem participa das operações especiais tem sangue-frio. Em 15 anos de  SWAT, Jerry Lowe, 39 anos, líder do time de Beaumont, Texas, e eleitor de George W. Bush, teve um colega atingido apenas uma vez (o tiro pegou no colete), mas viu um bebê ser baleado na sua frente. “O cara saiu da casa segurando o bebê pelos pés, atirou na barriga dele, jogou-o no chão e voltou para dentro, de onde continuou disparando. Felizmente os paramédicos conseguiram salvar a criança.” Para pertencer à SWAT é preciso estar na polícia por pelo menos dois anos, passar por testes de uso de drogas e realizar periódicos exames físicos. As armas utilizadas são mais pesadas. “Usamos uma pistola Glock, uma submetralhadora MP5 e um fuzil de assalto M16. Carregamos tudo isso – mais as granadas, flashbangs e muita munição – no porta-malas da viatura. E o pager – pelo qual é avisado das emergências – está sempre próximo”, diz. E o rendimento de um oficial da SWAT está entre US$ 70 mil e US$ 80 mil anuais. Em São Paulo, o salário de um policial civil fica entre R$ 14 mil e R$ 80 mil por ano.