NO LLORES!

“Carlota Joaquina tinha obsessão por sapatos. Sua mãe, rainha de Espanha, deu a ela um par de sapatos para cada dia do ano”


Li, já faz algum tempo, que Carlota Joaquina tinha verdadeira obsessão por sapatos. Sua mãe, Maria Luisa de Parma, rainha de Espanha, como presente de noivado, deu a ela um par de sapatos para cada dia do ano. Segundo a lenda, Maria Luisa, ao despedir-se de Carlota que, aos dez anos de idade, partia para o casamento com dom João de Portugal, disse à infanta: no llores!

E isso foi tudo. Carlota seguiu o conselho da mãe e rumou para Vila Viçosa, onde foi recebida pela corte portuguesa, no Paço Ducal.
Vila Viçosa, desde que comecei a nutrir particular ­interesse por esse período da história, passou a ser um ponto naquele mapa das visitas que um dia se pretende fazer; se é que se pretende fazer alguma, porque para algumas almas basta o desfile do circo pela rua principal para que a África tenha estado bem ali, debaixo de sua janela. Enfim, voltei a Portugal duas vezes, depois disso, e não consegui encaixar a esperada visita na agenda. Vila Viçosa parecia afastar-se cada vez mais, até que um dia, estando em Lisboa, em cartaz no Teatro Tivoli, com Cláudia Raia na “Batalha de Arroz Num Ringue Para Dois”, do saudoso Mauro Rasi, numa tarde no Chiado, Joaquim Monchique não acreditou que eu ainda não ­conhecesse Vila Viçosa.

– Amanhã mesmo vou-te levar! Saímos cedo, ­almoçamos no São Rosas, que é um restaurante espetacular, tu visitas o Paço e voltamos a Lisboa a tempo para o espetáculo.

(E abro aqui um longo parêntese para lembrar que o nome do restaurante é alusivo à lenda do milagre das rosas de Santa Isabel de Aragão, que costumava dar tudo para os pobres. Certo dia, vinha ela, em pleno inverno, com o regaço cheio de moedas para distribuir entre os famintos, quando foi interpelada pelo soberano.

– O que trazes aí?
– São rosas – disse a rainha.
– Rosas em pleno inverno?
Isabel então mostrou o interior de seu regaço e eram ­rosas! Vovó adorava esse conto! Eu secretamente me perguntava quem tinha ficado com as moedas.)
De volta à história. Na manhã seguinte, Monchique ­apanhou-me no hotel, pontualmente, às nove e meia da manhã, conforme o combinado. Preocupado com a sessão logo mais à noite no Tivoli, certifiquei-me da distância do percurso e seguimos viagem. Lá pelas tantas, reclamei:

– Alguma coisa deve estar errada, Joaquim! – eu disse. – Eu vi na internet que a distância entre Lisboa e Vila Viçosa é de 200 quilômetros. Já estamos na estrada há mais de duas horas e a mais de 100 quilômetros por hora. É matemática! Ele lançou-me um olhar de desdém.
– Tu agora queres me ensinar a andar em Portugal? – e mudou de assunto.

Pois muito bem, ele errou o caminho e só se deu conta quando li, alarmado, o aviso “Última paragem ­antes do Algarve”. Era tarde para voltarmos e acabamos almoçando num turismo rural em Almodovar, com um encantador casal de velhotes que nos serviram migas e um delicioso licor de medronho, porque era só o que tinham, já não esperavam ninguém àquelas horas.

Depois, como já se fazia tarde, resolvemos pegar a estrada de volta.
– Já não há tempo para visitar nada com calma – eu disse.
– Tens razão. Voltamos a Lisboa – ele disse e finalizou.
– No llores! No llores!
Até hoje não conheço Vila Viçosa.

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