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Entrevista

JUCA CHAVES

“Político tem que trabalhar de graça”

“Político tem que trabalhar de graça”

Com a língua afiada, o humorista completa 50 anos de carreira, conta sua relação com o poder e critica a Lei Rouanet

IVAN CLAUDIO E MÁRIO SIMAS FILHO
Edição 20/02/2008 - nº 1998

Reconhecido como humorista, Juca Chaves prefere ser tratado como cantor e compositor de formação erudita. No entanto, por mais que ele deseje, é impossível separar as coisas. Em seus 50 anos de carreira, a marca registrada do artista reside nas inteligentes sátiras políticas, boa parte delas em forma de modinhas como O Brasil vai à guerra e Presidente bossa nova, por exemplo. São cinco décadas de piadas. De Juscelino Kubitschek, que o recebeu descalço no Palácio do Planalto, ao presidente Lula e seus ministros, não há autoridade brasileira – inclusive os sisudos militares que governaram o País de 1964 a 1984 – que não tenha servido de matéria- prima ao menestrel. "O político brasileiro é um prato cheio para piadas", diz Juca Chaves, que, às vésperas de completar 70 anos, enfrenta o desafio de obter patrocínio para seu novo espetáculo, Jubileu de ouro – 50 anos de menestrel. "Estou há mais de um ano tentando obter recursos pela Lei Rouanet. Mas tudo fica na gaveta", lamenta. O projeto de Juca é estreá-lo em março no seu teatro, o Espaço Cultural Juca Chaves, localizado no bairro do Itaim, em São Paulo. O teatro, aliás, é outra preocupação do artista. Inaugurado no ano passado, com a presença da primeira-dama de São Paulo, o espaço dispõe de 1.250 metros quadrados, um teatro de 360 lugares e três salas de ensaios. Atualmente, boa parte da estrutura é utilizada para projetos voltados a crianças carentes, como aulas de dança, música e artes cênicas. "Faço com prazer, mas não tenho incentivo nenhum e não posso continuar a bancar isso só com o meu bolso", diz o humorista. "Se continuar assim, transformarei o espaço cultural em espaço sexual. E, se mesmo assim não conseguir dinheiro, farei o espaço espiritual e sairei do Brasil com dólares na cueca." Foi nesse amplo centro, por enquanto cultural, que Juca Chaves concedeu à ISTOÉ a seguinte entrevista:

ISTOÉ – Metade de sua carreira foi composta com sátiras aos presidentes militares. No entanto, o sr. nunca foi exilado ou preso. Havia algum esquema de proteção?
JUCA

Eu não fui preso nem cassado porque recebi informações privilegiadas e saí do Brasil antes de a coisa estourar.

ISTOÉ – Recebeu informação de quem?
JUCA

Meu pai era grão-mestre da maçonaria e, por intermédio da maçonaria, no finalzinho de 1963 fiquei sabendo que iria estourar a revolução de 1964 e que seria preso pelo Cenimar, da Marinha, por causa da música do porta-aviões. A canção dizia: "Brasil já vai à guerra, comprou um porta-aviões. Um viva para a Inglaterra de 82 bilhões, ah ah, mas que ladrões." O Jango estava numa fase já muito difícil, o Brasil cheio de greves. Era evidente que estava mesmo para estourar. Eu saí quatro meses antes e, quando estourou, estava em Portugal. Lá é que fui preso.

ISTOÉ – Como foi essa prisão?
JUCA

Fui preso por causa de uma piada que soltei sobre o primeiro-ministro e também por causa de uma frase que cantei. Era assim: "Me levaram para conhecer a Avenida da Liberdade/ eu disse quando é que inaugura?" Essa piada ficou famosa. Em Portugal, em compensação, recebi a maior homenagem da minha carreira. Os estudantes de Coimbra jogaram as capas negras ao chão para que eu passasse por cima. Falavam que eu era o menestrel da liberdade.

ISTOÉ – Como se deu sua volta ao Brasil?
JUCA

Voltei definitivamente em 1970. Mas em 1968 dei um pulo aqui porque minha mulher, Yarinha, junto com alguns amigos, articulou para que eu fosse recebido no porta-aviões. Não foi de graça. Tive que fazer um elogio à embarcação e disse: "Isso dá uma boate incrível." O capitão, que era muito simpático, riu, e aí eu percebi que no Brasil os grandes não se incomodam com a sátira. São os pequenos que querem ser mais realistas que o rei.

ISTOÉ – Era fácil lidar com o poder?
JUCA

Com os grandes era fácil. O Juscelino, que tirou o sapato ao me receber, tinha um assessor chamado Geraldo Carneiro que era contra a minha ida a Brasília. Ele era confrade, era poeta lá na corte. Aí eu escrevi um soneto para o Juscelino. Era assim: "São Paulo, 2 de julho, cordialmente venho propor à simpática excelência o nosso encontro na maior urgência no palácio em Brasília. Anteriormente já propus ao Carneiro seu servente, que, também sendo autor por coincidência, não me levou temendo a concorrência…"

ISTOÉ – E o presidente então o recebeu?
JUCA

Ele achou gozado e me recebeu em Brasília. Eu tirei o sapato, ele tirou também, mas ficou de meia – não furada. E ficamos cantando modinhas. Eu sempre gostei de modinhas, tanto que comecei cantando esse gênero de música, depois passei para a sátira política e o humor veio paralelo. Mas não sou humorista, não gosto de humor.

ISTOÉ – Foram muitos problemas com a censura?
JUCA

Das minhas sátiras políticas, setenta e pouco foram censuradas. Mas, como disse, os grandes não se importavam. O Geisel, por exemplo, não conheci pessoalmente, mas sua filha foi assistir a um show meu. Eu contava piadas maravilhosas e eles gostavam. O poderoso sempre acha divertido. Eu cantei piadas de Maluf, de prefeitos, de governadores. Eles riem porque são piadas inteligentes. Com eles não acontecia nada, eram os outros que cortavam. Isso aconteceu com o presidente João Figueiredo.

ISTOÉ – Como foi?
JUCA

Na época, eu fiz uma grande sátira chamada A semana do João, que começava assim: "Baptista Figueiredo, presidente, o que nos devolveu a eleição." Uma vez eu encontrei o general Figueiredo fazendo ginástica. Ele me falou: "Ô, Juca Chaves, você me poupou. Nem precisaria falar porque todo mundo sabe que eu devolvi a eleição para o brasileiro. Na verdade, A semana do João continuava assim: "Segunda dá um beijinho na criança, no estudante grosso um bofetão." Mas essa música não tocou. Quando a cantei para o presidente, ele achou divertido e quis saber por que não tinha sido tocada. Expliquei que um assessor havia vetado. Mas, na verdade, foi o Figueiredo quem deu a abertura, que eu chamava de abertura saia de menina paulista: feita nas coxas.

ISTOÉ – Hoje, com democracia, os políticos brasileiros não propiciam farta matéria- prima aos humoristas?
JUCA

Não, porque tudo ficou muito explícito. É como sexo: bons tempos aqueles em que você tinha que levar a menina ao apartamento. Hoje é tudo tão fácil. E isso é ruim porque o humor caiu, a cultura também caiu.

ISTOÉ – Mas o presidente Lula não oferece um bom material?
JUCA

Ele é um material ótimo, tanto que os caricaturistas deitam e rolam. Eu, modéstia à parte, tenho quatro piadas do Lula, que não vou contar porque senão vai para o e-mail. Indo para o e-mail, acaba, destroem sua piada. São piadas maravilhosas que eu criei para ele. Para ele e para o PT, culminando com aquela frase, que foi uma das mais gozadas do Brasil: nos últimos 28 anos nada foi tão ético, moral e honesto do que o PT.

ISTOÉ – Por que o sr. tentou se eleger senador pela Bahia?
JUCA

Meu objetivo era saber como funciona o jogo político. Me candidatei sabendo que chegaria em quarto lugar, mas cheguei em terceiro. Recebi 20 mil votos tendo só 20 dias de publicidade, apenas com versinho. Foi dizendo número num único programinha de televisão. Não gastei um tostão.

ISTOÉ – É possível se eleger sem gastar um tostão?
JUCA

Político tem que trabalhar de graça. Em Israel não ganha. Lá, eles têm que lutar porque o Estado é pequenininho, à noite tomam o país. Mas o brasileiro não está nem aí. Você chega em Brasília na manhã de terça-feira e ninguém chegou ainda. Todo mundo começa a chegar às quatro horas da tarde. Bom, não é? Por isso que quero ser senador. Brinco que quero terminar a minha vida na Bahia fazendo curso para ministro. Eu fico olhando do nascer ao pôr-do-sol com a bunda na areia. Se ficar quatro anos sem fazer nada, posso ser ministro. Ou então ser vice-presidente, que é melhor do que ser presidente.

ISTOÉ – O sr. completa 50 anos de carreira quando se comemoram os 50 anos de bossa nova…
JUCA

Não gosto de bossa nova. Tem gente que escreveu que eu faço paródia. Eles confundem paródia com sátira. Eu jamais fiz uma paródia na minha vida, principalmente de bossa nova. Eu apareci bem antes, cantava minhas músicas em São Paulo quando um amigo veio me mostrar um cara que cantava parecido comigo, dizia que era um baiano chamado João Gilberto. Se João Gilberto fosse um bom cantor, ele não cantaria tão baixinho.

ISTOÉ – Por que o sr. tem enfrentado dificuldades com a Lei Rouanet para montar o espetáculo comemorativo dos 50 anos de carreira?
JUCA

Levei um ano com meu projeto de captação literalmente engavetado. Liguei para a secretária do ministro Gilberto Gil e ela, muito simpaticamente, correu para ver o que estava acontecendo: estava dentro de uma gaveta. A comemoração ia ser feita com 30 espetáculos por todo o Brasil, eu e uma grande orquestra sinfônica. Era para começar em outubro do ano passado. Depois que consegui liberar o projeto, demorou mais um tempo para sair no Diário Oficial.

ISTOÉ – Por que tanta demora?
JUCA

É que o homem que decide, que entende de cultura, disse que o que eu faço não é erudito, apesar de tocar com instrumentos eruditos. Aí eu liguei para todo mundo e, como eles viram que eu ia partir para uma CPI, mandaram o processo para a Funarte. Abrir uma CPI não é difícil e, se eu parto para uma CPI ali, rolam pelo menos 200 cabeças com milhões de reais que já sumiram na vida.

ISTOÉ – Que procedimentos o sr. tomou?
JUCA

Quero um processo contra o governo para ver o tempo que se perde por causa de uma pessoa colocada e que não tem competência. No Brasil é assim: o que fazia em criança? Ah, eu brincava de médico com a minha prima. Então, vai ser ministro da Saúde. Pessoas que não sabem de modinha nem poderiam falar sobre música erudita ou popular.

ISTOÉ – A Lei Rouanet não funciona?
JUCA

Não está funcionando por causa da corrupção. Se os militares, que já eram educados para serem honestos, deram uma balançada.

ISTOÉ – O que o sr. acha da televisão brasileira?
JUCA

O Brasil tem excelentes atores, quase todos da velha geração. Tinha que usá-los, não apenas para fazer novela. Novela é arte de terceira, para passar tempo, para as antigas donas-de-casa. Só que a dona-de-casa também evoluiu. Na minha casa eu não deixo entrar tevê aberta. Tranquei. Eu quero que minhas filhas aprendam coisa melhor. O Big Brother é programa para uma vez. Duas vezes, acabou. Agora não tem mais graça, já colocaram profissionais do negócio. Se o pessoal quer ver gente trepar, então liga o canal Sexy, que é melhor.

ISTOÉ – O sr. diz que não é humorista. Por quê?
JUCA

Humorista é quem faz humor. Há os intérpretes de humor, mas eu sou só uma pessoa que gosta de humor e, dizem, tem um timing bom para contar piada. Para interpretar bem no humor, quanto mais rápido, melhor. Eu tenho um jeito todo meu, que sem querer eu criei. Me dei bem pela parte satírico-política.

ISTOÉ – O sr. gosta do humor atual?
JUCA

As coisas do Casseta & Planeta são gozadíssimas. Eu adoro. Gosto também do Chico Anysio, que é maravilhoso. Ele, aliás, é um gênio, o melhor nome da televisão. No programa do Carlos Alberto de Nóbrega, a Praça é nossa, você ouve as melhores piadas e pouca gente sabe disso. As pessoas acham brega, mas não é não. Esse é o verdadeiro humor brasileiro.

 

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