Brasil

E agora, Palocci?

Militante do PT e ex-assessor, Buratti diz que ministro recebia propina de R$ 50 mil mensais quando era prefeito

A avalanche de denúncias que
já dura mais de três meses
conseguiu enlamear dois dos
três mais próximos ministros do presidente Lula: José Dirceu (ex-chefe da Casa Civil) e Luiz Gushiken (que perdeu status de ministro na Secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica). Junto com o todo-poderoso ministro da Fazenda, Antônio Palocci, formavam um trio poderoso, eram uma espécie de três mosqueteiros do presidente. Discreto durante toda a crise – como é de seu temperamento –, Palocci escapara do tiroteio. Até o final da manhã da sexta-feira 19, quando o disparo partiu de um de seus mais antigos colaboradores: o advogado Rogério Buratti. Em acordo com o Ministério Público, Buratti aceitou fazer a delação premiada, em troca de redução da pena, e mirou em seu ex-chefe: disse que quando Palocci era prefeito de Ribeirão Preto na segunda gestão (iniciada em 2001), recebia propina mensal de R$ 50 mil da empresa Leão & Leão, que fazia serviços de coleta de lixo. Esses recursos, segundo Buratti, seriam repassados a Delúbio Soares, então tesoureiro do PT, para financiar campanhas entre janeiro de 2001 e novembro de 2002. Palocci deixou a prefeitura para assumir a coordenação do programa de governo da campanha de Lula em 2002, substituindo Celso Daniel, o prefeito de Santo André que havia sido assassinado.

A mais recente denúncia ameaça o jogador mais precioso de Lula. Palocci sempre serviu como um escudo entre a crise política e a economia, que até agora não havia sido contaminada. Buratti é um antigo e conhecido quadro do PT de São Paulo, vindo de Osasco, base eleitoral do ex-presidente da Câmara dos Deputados João Paulo Cunha (PT), a quem foi ligado inicialmente. Depois aproximou-se de José Dirceu, como seu assessor na Assembléia Legislativa de São Paulo. O advogado passou a trabalhar com Palocci quando ele foi eleito prefeito de Ribeirão pela primeira vez em 1992. Segundo o promotor Sebastião Sérgio da Silveira – que ouvia o depoimento de Buratti e saiu no meio para passar informações à imprensa –, o esquema do lixo envolvia várias cidades. “Ele diz que ouviu do Ralf (Barquete), então secretário da prefeitura, que Palocci determinava a entrega do dinheiro ao diretório nacional do PT em São Paulo”, contou o promotor no final da manhã de sexta-feira. Barquete seria uma testemunha-chave no caso, mas morreu no ano passado de câncer. O depoimento provocou fortes reações, a começar pelo Ministério da Fazenda. Em nota oficial, Palocci negou “com veemência a veracidade da informação de que recebeu recursos da empresa Leão & Leão quando exercia o cargo de prefeito” e que seu antigo assessor Ralf Barquete recebesse dinheiro da empresa para ser repassado ao PT nacional.

Palocci informou que recebeu da Leão & Leão em sua campanha a prefeito contribuições que estão registradas na prestação de contas na Justiça Eleitoral.
A nota faz uma crítica contundente à forma como o promotor divulgou a denúncia:
“A indiscrição de autoridades e o modo como foram dadas as declarações configuram total desrespeito a regras jurídicas e podem prejudicar o bom
andamento das investigações. A Lei Orgânica do Ministério Público Estadual obriga os promotores a resguardar o sigilo do conteúdo de documentos ou informações obtidas em razão do cargo ou função.” O procurador-geral de Justiça, Rodrigo Pinho, rebateu: “Toda a investigação deve, quando não sigilosa, ser acompanhada pela imprensa e pela sociedade, como em qualquer país democrático.” Vários políticos reagiram, alertando para o perigo de uma “onda de denuncismo”, como o vice-presidente José Alencar (PL), que saiu em defesa de Palocci, apesar de ser um
dos integrantes do governo mais críticos à política econômica do ministro: “É
preciso verificar até onde vai a verdade. Tenho Palocci na conta de um homem de bem, até prova em contrário.” O presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS), disse que o “denuncismo” pode prejudicar o País e mexer com a economia. Ele disse que é preciso ter cuidado, lembrando que todos os acusados agora querem fazer a delação premiada.

O secretário-geral do PT, Ricardo Berzoini, também pregou a necessidade de se
ter serenidade com mais esta denúncia, mas ressaltou que, se elas forem verdadeiras, se configurarão em “grave falta de conduta que, evidentemente, influenciará toda a crise política”. A oposição não perdeu tempo. Logo que a acusação veio a público, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) discursou no Senado:
“Se existem provas, fica insustentável a situação do ministro Palocci.” Em seu depoimento, Buratti disse ainda que empresários do bingo contribuíram com R$ 2 milhões para a campanha de Lula. No Rio, R$ 1 milhão foi arrecadado por Waldomiro Diniz e, em São Paulo, a mesma quantia foi arrecadada por Ralf Barquete. Buratti citou também vários nomes de políticos do PT, PSDB e PMDB que estariam envolvidos no esquema de corrupção. No mercado, o estrago foi imediato. Logo após a divulgação do depoimento de Buratti, às 11h, o dólar disparou pouco mais de 4%, atingindo R$ 2,48, a Bovespa chegou a despencar 2,78% e o risco-país bateu nos 421 pontos, alta de 3,7%. Às 12h30, a moeda americana mantinha a alta
e era vendida a R$ 2,483, valorização de 4,35%. No mesmo horário, a Bolsa registrava queda de 2,38%. No final da tarde, o nervosismo no mercado diminuiu. Mas os nervos do País continuam à flor da pele.