Brasil

Ligações perigosas

Relações promíscuas entre celebridades e traficantes revelam a chocante conivência com o poder paralelo

Quando desembarcar no Brasil para a próxima partida da Seleção Brasileira contra o Chile, em Brasília, no dia 4 de setembro, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, o camisa 9 da Seleção Brasileira e do Real Madrid, Ronaldo Nazário, o Fenômeno, receberá um convite no mínimo constrangedor para um atleta que é exemplo para jovens em todo o mundo. Será intimado por policiais do Serviço de Repressão a Entorpecentes de Niterói para dizer o que sabe de uma das maiores quadrilhas de venda de drogas no Estado, que fornecia ecstasy em boates, festas, pela internet e pelo telefone – o delivery do tráfico.

O bando foi desmontado há um mês na chamada Operação Oceânica, levando à prisão dez garotos de classe média alta do Rio de Janeiro, Niterói e Região dos Lagos. Em meio a horas de escutas telefônicas, obtidas com autorização judicial, ISTOÉ teve acesso a conversas interceptadas no final de junho em que três deles discutem como se tornar fornecedor do craque e descrevem uma festa na casa de um amigo de Ronaldo, que teria ocorrido no dia 22 de junho, onde um seleto grupo de convidados estaria consumindo drogas.

– Ontem eu fui lá conhecer o Ronaldo e tudo – conta Amon de Magalhães Lemos, 19 anos, numa conversa gravada no dia 23 de junho. Na época, Ronaldo, que pedira para não jogar a Copa das Confederações, curtia suas férias no Rio ao lado da ex-namorada, a modelo Lívia Lemos, e de seu irmão Amon.
– Ontem foi irado, mané – relata Amon.
– Foi pra onde? – pergunta seu comparsa, Thiago de Vasconcelos Tauil, 23 anos, um dos principais distribuidores de ecstasy do Estado.
– Nós fomos na casa de um amigo dele. Tava lá ele (Ronaldo), o Gabriel Pensador, o caralho… – lista Amon, referindo-se ao cantor que tem entre seus sucessos o hit O cachimbo da paz”, no qual aborda o uso da maconha.
A conversa passa a girar sobre o consumo de drogas.
– Ele gosta muito, ele gosta muito – insiste Thiago, falando do músico.
– Todo mundo gosta – responde Amon.
– É, né? Ronaldo também? – pergunta Thiago.
– Todo mundo! – garante Amon.
– Ah…!!! – comemora o parceiro.
Thiago então liga para outro traficante do grupo, André Kohler Archiles, 26 anos. E comemora a aproximação de Amon com Ronaldinho.
– (Amon) Falou que o canal agora pros caras lá é a gente.

Presos por tráfico de drogas e associação com o tráfico, Amon, Thiago e André botaram lenha numa fogueira que nos últimos dias não parou de queimar. “Um grupo de traficantes aparece se associando para se tornar fornecedores de um jogador. Um deles conta que estava numa festa onde todos consumiam entorpecentes. Quero que o Ronaldo esclareça o que é verdade nisso tudo”, informou o delegado Luiz Marcelo Fontoura Xavier, titular da Entorpecentes de Niterói e responsável pelas investigações que derrubaram Amon e companhia. O cantor Gabriel o Pensador também será ouvido no inquérito.

A Polícia Civil do Rio divulgou nos últimos dias grampos telefônicos de outra investigação, chamada de Papa-Léguas, que flagrou um dos reis do morro, o traficante Bem-Te-Vi, envolvendo celebridades que desfrutariam de sua intimidade. Em algumas dessas conversas, o traficante se refere a um jogador a quem chama de R9 – nome da marca com que Ronaldinho batizou sua linha de produtos na Nike, entre outros empreendimentos. Num dos diálogos, Bem-Te-Vi corre para arrumar 30 garrafas de lança-perfume para R9. Em outro, gravado na manhã do dia 27 de dezembro, o traficante é acordado para um encontro com seu “compadre” famoso, que o esperava em um shopping da cidade.

– O amigo aqui tá falando que só quer te dar um abraço e uns presentes e sair fora para não tumultuar o bagulho – avisa um traficante.

O encontro é frustrado, mas os presentes são entregues – camisas da Seleção Brasileira e tênis Nike que viriam a ser distribuídos numa festa na Rocinha. Bem-Te-Vi, nome de guerra de Erismar Rodrigues Moreira, é o chefe do tráfico na Rocinha, favela de 150 mil habitantes entre a Gávea e São Conrado – o maior escoadouro de drogas para o consumidor da zona sul carioca. Vaidoso, gosta de promover peladas com jogadores conhecidos, a quem presenteia com balas de fuzil. “Essas celebridades se deixam usar como verdadeiros promoters do tráfico”, condena o chefe de Polícia Civil do Rio, delegado Álvaro Lins. Tantos nomes têm aparecido – e, dizem, muitos ainda podem vir – que Lins determinou que seja aberta uma investigação independente, já batizada de Celebridades, para apurar o uso, por traficantes, de artistas, cantores e jogadores de futebol em bailes funk e partidas de futebol “beneficentes” para aumentar a capacidade de venda de drogas na favela.

Na maioria dos casos, não há crime – diferentemente do que aconteceu com o ex-goleiro Edinho, filho de Pelé, e com o pagodeiro Marcelo Pires Vieira, o Belo, ambos gravados em conversas que comprovavam seu envolvimento com traficantes. Álvaro Lins garante que se ficar demonstrado que alguma celebridade contribuiu, ainda que indiretamente, para o tráfico, será enquadrada por associação. Na maioria das vezes, porém, a questão não é criminal, mas moral. “Essas pessoas estão legitimando o poder paralelo”, avalia a inspetora Marina Maggesi, chefe do setor de investigações da Polinter.

Muitos contatos entre jogadores do Rio e o traficante Bem-Te-Vi foram intermediados pelo advogado Marcelo Santoro, irmão da modelo Mônica Santoro e ex-cunhado do jogador Romário. Santoro será ouvido pela polícia nos próximos dias. Ele apresentou Bem-Te-Vi ao goleiro da Seleção Brasileira e da Inter de Milão, Julio César. No dia 11 de junho, o goleiro dá uma demonstração de como, para muita gente hoje no Rio, é melhor chamar o bandido do que a polícia. Ao relatar um crime para o traficante, ouve um conselho.

– Quando for assim, tem que entrar pro morro, vem pro morro (…) que aqui é tranqüilo, que aí já pega logo e passa fogo – diz Bem-Te-Vi.

Na quarta-feira 17, o jogador Jorginho, camisa 10 da Seleção Brasileira de beach soccer, tentou explicar na polícia por que, na noite de 9 de janeiro, esteve na festa de aniversário de um dos “gerentes” de Bem-Te-Vi. Criou uma nova máxima carioca: diz que convive com o traficante, mas jura que não é seu amigo. Entra para a galeria de uma cidade partida onde pessoas clamam pela paz sem abrir mão de consumir sua droga e reclamam da inoperância da polícia sem se importar em se aproximar do bandido. Essas relações perigosas entre a sociedade e traficantes, mesmo que nenhum crime seja cometido, mostram como é fácil driblar a barreira entre a convivência e a conivência com o poder paralelo.

O atacante Romário, do Vasco, é citado em gravações que envolvem dois traficantes: Bem-Te-Vi, da Rocinha, e Edmilson Ferreira dos Santos, o Sassá, chefe do tráfico no Complexo da Maré – hoje o maior revendedor de drogas para bocas-de-fumo do Rio. Um taxista, que fora até a Rocinha entregar três fuzis de Sassá para Bem-Te-Vi, conta ter visto Romário numa festa promovida por traficantes no dia 19 de maio.

– Mermão, tinha que ver a festinha que tava lá, parceiro! – surpreendeu-se o taxista.
– Romário e o caramba, né? – retruca Tadeu Nascimento Silva, o Bola, gerente do tráfico de drogas na Vila dos Pinheiros, que faz parte da Maré.
– Tava Romário e vários amigos lá, pesadão, várias gatas, várias louras.

Na polícia, onde depôs na quinta-feira 18, Romário acrescentou um detalhe insólito à pelada na Rocinha – e ao seu currículo. Campeão mundial em 1994, Romário afirmou que o traficante Bem-Te-Vi não apenas esteve presente na pelada “beneficente”, como jogou por dez minutos no seu time. Romário não mencionou na polícia, mas participou de pelo menos uma outra pelada com traficantes do mesmo grupo. Inquérito policial informa que o craque foi a estrela de uma partida no dia 16 de junho em um campo na Vila dos Pinheiros, cercado por homens armados com fuzis. A pelada foi registrada pela câmera de um telefone celular. Quem talvez melhor resuma o problema é um ex-jogador, hoje dedicado a outros campos. “Cada vez que um jogador dá um mau exemplo, muitos meninos o seguem”, lamenta Ivan Manoel de Oliveira, o Badeco. Ex-jogador da Portuguesa, Badeco preside a Cooperativa Craques de Sempre, que, em parceria com a polícia paulista, realiza palestras alertando crianças da periferia de São Paulo sobre o risco do uso de drogas. Enfim, um bom exemplo.