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A absurda escola de Luiz Marinho

Construído aos pés de um barranco, colégio vira arapuca para alunos e prefeito de São Bernardo prefere ironias a tomar providências

A absurda escola de Luiz Marinho

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PROTEÇÃO
Prefeito defende policiais e critica jornalista agredido na porta do colégio

São 600 crianças estudando aos pés de um barranco sem vegetação sobre o qual se penduram mais de 20 caminhões. O risco de desabamento é evidente e desde o início do ano assusta os pais dos alunos matriculados na Escola Municipal Júlio de Grammont, no bairro Planalto, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Em vez de providenciarem logo uma solução para o problema, as autoridades da cidade acham melhor acobertar a ação de policiais que agrediram uma equipe de televisão que esteve na escola para denunciar a situação. O prefeito Luiz Marinho, ex-presidente da CUT e ex-ministro do Trabalho e da Previdência, prefere ironizar a agir para evitar uma tragédia: diz que o repórter agredido está com boa aparência.

O complexo que abriga a escola foi construído há cinco anos, ainda na gestão do ex-prefeito tucano William Dib. O barranco que se ergue ao fundo da escola não teve nenhuma proteção e hoje já mostra o desgaste da infiltração de água da chuva. Apesar disso, a prefeitura deu licença para que, no topo do barranco, fosse instalado um estacionamento para caminhões. O terreno foi alugado para uma transportadora.

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SEM SOLUÇÃO
Cerca de 600 crianças esperam por conclusão de obras da prefeitura

A secretária de Educação, Cleusa Repulho, conferiu o local e entendeu que o risco de deslizamento, apesar de existente, não é iminente. “Temos engenheiros que visitam semanalmente a escola para vistoriar e garantir a segurança”, diz ela. A posição da secretária, contudo, não acalma os pais. “Há dois anos aconteceu um deslizamento aqui”, conta Joelma Ribeiro Fonseca, que tem uma filha na escola. “Depois disso, eles resolveram interditar o parquinho das crianças.” A área de lazer, junto ao precário muro de contenção, é a que fica mais exposta ao risco de deslizamento. Para Célia Maria dos Santos, outra mãe de aluno, a interdição do parque, porém, não garante a segurança, já que as salas de aula ficam a poucos metros de distância. Os pais temem que a situação se agrave se as obras não forem executadas antes do período de chuvas. O terreno em que foram construídas a escola e a transportadora vizinha era utilizado anteriormente como aterro de lixo, fato que o torna ainda mais instável. A secretária de Educação alega que os índices pluviométricos também são avaliados periodicamente e que as obras estão dentro do cronograma. “Uma obra deste porte leva pelo menos 90 dias para ser concluída, e apenas o muro de contenção custa cerca de R$ 2 milhões”, afirma.

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Esta não é a primeira vez que a Prefeitura de São Bernardo do Campo enfrenta denúncias na área da educação. Desde que assumiu o cargo de prefeito, em janeiro de 2009, Luiz Marinho (PT) é criticado pela gestão nesta área. A cidade, com mais de 800 mil habitantes, tem hoje mais de 11 mil crianças entre 0 e 5 anos de idade fora da escola por falta de vagas. As escolas da rede estadual do município também estão sendo investigadas pela Promotoria de Justiça da Infância e Juventude de São Bernardo, que abriu inquérito para apurar a qualidade da merenda escolar. A prefeitura é responsável por 200 escolas; destas, 90 estão em obras ou com projeto em andamento e quatro precisam com urgência de muros de contenção. Mas nenhuma outra acusação tomou tanta proporção quanto o caso da Grammont. O motivo foi a tentativa desastrada da Guarda Civil Municipal de São Bernardo do Campo de coibir uma reportagem do programa humorístico “CQC”, da Rede Bandeirantes. Após gravar imagens do local e realizar entrevistas o repórter Danilo Gentili foi covardemente agredido pelos policiais. Quando levou o caso a Luiz Marinho, o prefeito não quis ver as imagens da agressão e sugeriu que o próprio repórter havia provocado os hematomas que apresentava pelo corpo. A Secretaria de Comunicação de São Bernardo do Campo alega que Gentili teria desacatado os policiais e, com isso, inexplicavelmente justifica a agressão.