Comportamento

O evangelho segundo Saramago

Morre José Saramago. Genial como escritor, ele tornou-se também um pensador universal ao analisar, com eterno pessimismo, a natureza humana

O evangelho segundo Saramago

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“Não tenhamos pressa, mas não
percamos tempo”

José Saramago (1922-2010)

O escritor José Saramago, um dos principais nomes da literatura portuguesa e mundial, morreu na sexta-feira 18, em sua casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias – levou-o uma falência múltipla dos órgãos após longo período de enfermidade. Tinha 87 anos. Ou tinha 20? Explica-se: no país que traz a tradição de ter criado um vocábulo que traduz um dos mais belos e doídos sentimentos humanos, fala-se aqui da expressão e do sentimento saudade, Saramago era um homem “apressado no tempo” e para quem a saudade, muitas vezes paralisante, não batia como bate no peito dos melancólicos, não doía como dói no peito de seus românticos conterrâneos. Dito isso, pode-se ir agora à resposta da questão: Saramago morreu com 87 anos ou 20 anos? Velho ou jovem? Dê-se voz ao morto, que em 2005 declarou: “Quanto à morte, ela chegará no seu dia, nem antes nem depois. Quem morre aos 20 anos morre na sua velhice e não o sabia.” Também é de sua autoria uma declaração enxuta, ansiosa e contundente, no mesmo sentido: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.” Para a tristeza da boa literatura, Saramago, nascido escorpiniano a 16 de novembro na aldeota de Azinhaga, no Ribatejo, foi apressado, demasiadamente apressado, morrendo aos 87 anos. Nós gostaríamos que ele tivesse esperado mais por aqui, nesse mundo que o decepcionava a cada segundo dada a rudeza da espécie humana a se contrapor com a sua delicadeza de alma – não a delicadeza dos gentis, mas a delicadeza dos que sabem que a vida é rara.

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Um homem sem estilo é apenas mais um na multidão, um homem com estilo é um José Saramago – e das páginas de seus romances, o primeiro deles de 1947 intitulado “Terra do Pecado”, uma variação de estilos transbordou até que ele encontrasse aquele que o marcou como gênio: “Memorial do Convento”, vindo à luz em 1982, no qual a escrita é irmã gêmea da fala. Quem for ler – e deve ler – esse romance, tem de experimentá-lo em voz alta para ganhar a compreensão desse estreito parentesco entre a linguagem oral e a linguagem posta no papel. Em alguns momentos de sua vasta obra, composta de cerca de 30 livros, muitas vezes o estilo surge, com licença da expressão, amarfanhado, como amarfanhados eram seus ternos e casacos, até mesmo quando foi receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1998 pelo conjunto de seu trabalho mas, sobretudo, pelo romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Nesse livro o estilo literário estava lapidado. Aliás, foi devido a ele que Saramago se autoexilou. Sob pressão da Igreja Católica, a obra foi proibida em Portugal porque quebrava e desconstruía dogmas e conceitos arraigados do Vaticano. O escritor partiu então para as Ilhas Canárias. É surpreendente que um dos relatos mais apaixonantes da vida de Jesus tenha vindo de um homem que sempre se declarou ateu “mais que convicto”. Voltou ao tema em “Caim”, seu último romance, já lançado no Brasil.

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As convicções de Saramago, na verdade, não se restringiam ao ateísmo. Na mais pura vertente intelectual do pensador italiano Antonio Gramsci, José Saramago era um “otimista na ação e pessimista na inteligência”. Via o mundo e a humanidade com o pessimismo que leva à relativização da vida: “O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas; o que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.” Anacronicamente, extemporaneamente comunista, o escritor atravessou o seu tempo contrapondo-se ao capitalismo. Cobriu-se de glórias e racionalidade em 1976 num conto intitulado “Cadeira”, propondo alegoricamente a queda do famigerado ditador de Portugal, Antonio de Oliveira Salazar – nele, seres roedores destroem a cadeira do tirano. O mesmo essencialmente-Saramago-político está décadas depois em “Ensaio Sobre a Cegueira” (virou filme de Fernando Meirelles), uma crítica ao capitalismo moderno – numa metrópole, há uma epidemia de cegueira, uma durkheimiana anomia social e, por fim, os protagonistas só voltam a enxergar quando adquirem responsabilidade política e sentimento de solidariedade. “Sou um comunista hormonal”, costumava ele se autodefinir. É fato que também hormonalmente Saramago foi um gênio da literatura. E, com certeza, serão esses hormônios, os da escrita e não os do comunismo, que o farão viver para sempre.

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