Economia & Negócios

Mundo animado

Mercado de animação publicitária vive bom momento, mas perde espaço para comerciais feitos com gente

Mesmo com o Anima Mundi já em sua 13ª edição, o cenário da animação no Brasil ainda é o publicitário. O boneco dançante da Vivo, o rato da Folha, o robô da Aiwa, a galinha dos caldos Sazon, os siris e a tartaruga da Brahma, os homenzinhos do energético Red Bull, a lesma da Audi, o nordestino das Casas Bahia, o frango e o S da Sadia são apenas alguns exemplos de animação comercial. “A grande produção de animação no Brasil está voltada para a publicidade. Não construímos ainda uma indústria cinematográfica porque a iniciativa privada não percebeu isso como um negócio”, diz Alberto Lopes, da produtora Vetor Zero. Veterano na área, Lopes ensina que para entrar nesse mercado não basta dominar a computação gráfica. É preciso ter talento. Ele é um exemplo disso: há 15 anos, quando começou, mal sabia usar o computador. Hoje, junto com mais quatro sócios, comanda a Vetor Zero, uma das maiores produtoras da América Latina.

Walbercy Ribas – outra fera da animação e criador de ícones da publicidade
como a barata do inseticida Rodox, o homenzinho azul e o bebê dos cotonetes Johnson & Johnson – tem saudade dos velhos tempos. “A animação perdeu
espaço para os filmes feitos com gente”, afirma Ribas, dono da Start Desenhos Animados, fundada em 1965, e ganhador de mais de 200 prêmios. “Os clientes querem rapidez, e comercial animado demora mais tempo para ser feito”, explica. Criador do Grilo Feliz, em 2001, o primeiro longa-metragem brasileiro de animação
a ganhar projeção internacional, Ribas demorou 20 anos para concluir o filme por falta de patrocinador. Ao contrário dos países do Primeiro Mundo, o Brasil não
possui uma universidade de animação, mas exporta talentos para o mundo todo.
“Eu já perdi uns oito ou dez, entre eles Rodolfo Damaggio, que hoje trabalha com George Lucas”, lembra Ribas. Carlos Saldanha é outro que hoje trabalha em Nova York, na produtora Blue Sky, braço da Fox Filmes.

Apesar dos problemas, o mercado está crescendo e vive um bom momento. Hoje, cerca de 90% dos comerciais têm algum efeito de animação. Os grandes animadores do mundo são formados em Vancouver, de onde saem com emprego garantido em qualquer estúdio de Hollywood. Mesmo assim, São Paulo é o maior pólo de animação comercial da América Latina. De acordo com Marcello Laruccia, diretor da Laruccia Animação & Efeitos, que faturou R$ 15 milhões no ano passado, um minuto de animação pode custar US$ 15 mil ou mais. “A qualidade e a complexidade do trabalho determinam o preço”, diz ele. A falta de mão-de-obra especializada em maior escala, ou seja, animadores com criatividade e sólida formação para lidar com os softwares de última geração, e a necessidade constante de investimentos, na avaliação de Laruccia, são as maiores dificuldades do setor. Além disso, a tecnologia envelhece muito rápido e todo ano é preciso renovar os equipamentos e as ferramentas de trabalho. Hoje, tirando as grandes produtoras, em torno de dez, o número exato de empresas e profissionais atuando no mercado é desconhecido. Trabalho para a recém- criada Associação Brasileira do Cinema de Animação (ABCA), que prepara para breve uma radiografia de quem é quem no setor.