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Felipão, o conquistador

Com estilo duro e agregador, Scolari eleva a auto-estima da equipe portuguesa, incendeia o país, mas continua a brigar com os críticos

Felipão, o conquistador

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Lá vem Luiz Felipe Scolari. Sorri. Sabe que os jornalistas portugueses na sala de conferências do Franken-Stadion de Nuremberg, afeitos a um bom julgamento, desta vez estarão calmos e solícitos. Logo atrás de Felipão vem o volante Maniche, autor do único gol da vitória diante da Holanda, pelas oitavas-de-final, uma partida com quatro expulsões e 12 cartões amarelos. O jogador é eleito o melhor em campo pela Fifa. O treinador levanta-se e puxa palmas. “Os senhores não vão festejar o grande nome da partida?”, provoca. Muitos riem, poucos aplaudem. Maniche agradece ao chefe, responde a duas perguntas e pronto. A estrela é Scolari. No banco, em 90 minutos, andou e gritou como sempre. Anunciou substituições para cancelá-las logo em seguida, de modo a ganhar tempo. “Perdi dois quilos, mas hoje à noite como e bebo tudo de novo”, disse. Induzido a tratar da cabeçada desferida por Figo em um holandês, foi rápido. “Figo não é Jesus Cristo.”

O Brasil, em partidas pelo Grêmio e Palmeiras na Libertadores, além da Copa de 2002, aprendeu a conhecê-lo – sempre sisudo, vermelho, agitado. Sempre duro, mas sem deixar de ser agregador. Ao atravessar o Atlântico rumo a Portugal, esse estilo conquistou um país. “Os portugueses são recatados, contidos, quase reflexivos”, diz o escritor José Eduardo Agualusa, angolano radicado em Lisboa, um dos mais celebrados autores da nova geração da última Flor do Lácio. “A sinceridade do Scolari entusiasmou as pessoas. E as vitórias na Copa terminaram por acender o pavio da auto-estima.” Ao alcançar as quartas-de-final, independentemente do que lhe esperava o embate contra a Inglaterra, fez a sua Copa vitoriosa. Mas não há unanimidade. Em uma entrevista ao jornal Zero Hora, de Porto Alegre, antes do Mundial, ele disparou tiros na direção dos cronistas esportivos do além-mar. “Um diz que é cineasta. O outro, o pai dele foi um grande escritor. O pai, né, porque ele é um b…”, disse. O jornalista cujo pai foi o renomado escritor é Miguel Sousa Tavares, ele também monumento da literatura lusa contemporânea, autor do livro Equador. É como se, no Brasil, Scolari comprasse briga com Chico Buarque de Hollanda. A resposta veio na lata. “O selecionador nacional é um sujeito mal-educado, arrogante, ignorante e saudoso de regimes sem liberdade de imprensa”, escreveu Sousa Tavares, referindo-se ao apreço do brasileiro pelo chileno Augusto Pinochet.

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É inquestionável que a heróica vitória diante da Holanda, na marra, levou o povo às ruas de Portugal como não acontecia desde o 25 de abril de 1974 da Revolução dos Cravos. É curioso que seja um brasileiro a deflagrar o movimento, mas os portugueses pouco ligam para isso. O que os cativa é o jeitão direto de Scolari, a emoção e não a razão. Ele viveu esse dilema quando começou a dirigir a “equipe dos quatro costados”, apelido do escrete português. Queria que seus jogadores rezassem antes das partidas. Embora católicos, não quiseram. Em uma conversa com o cantor Roberto Leal, aquele do “bate o pé, bate o pé, bate o pé”, hoje em Lisboa, ele percebeu o que havia de errado. “Você nunca vai conseguir uni-los dessa maneira”, disse Leal. “Eles são movidos a patriotismo, à defesa da pátria. Essa é a chave para entusiasmá-los”. Desde então, Scolari seguiu essa trilha em suas preleções. Na Copa da Alemanha, diante do México, ele chegou a cantar, de cor e salteado, o hino de Portugal. Um deputado lisboeta chiou, disse não ser atitude correta para um brasileiro. De pirraça, a seu modo, Felipão fez silêncio quando os times se perfilaram antes da partida contra a Holanda, o histórico jogo que o levou a outro patamar, independentemente do avanço de Portugal às semifinais. Quando retornar a Cascais, onde mora com a mulher e os dois filhos, ele receberá das mãos do escultor José Coelho uma peça com 55 centímetros de altura. O nome? “Guerreiro de Nuremberga”, assim mesmo, da maneira como os portugueses referem-se à cidade que entrou para a história duas vezes: em
1945, com o julgamento dos nazistas, e agora, na batalha comandada pelo gaúcho de Passo Fundo.

 

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