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Nunca sem meus filhos

O drama da brasileira Vagna Abbas, que tenta no Líbano resgatar os filhos seqüestrados pelo seu próprio marido

Nunca sem meus filhos

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A brasileira Vagna Bandeira Abbas, 42 anos, já tentou de tudo: fez greve de fome por 15 dias no Líbano, ficou acampada cinco dias num aeroporto, escreveu para o presidente Lula e, para não enlouquecer, recorreu à psicoterapia. Tudo para trazer de volta do Oriente Médio seus dois filhos menores, seqüestrados por seu marido há nove anos. No Brasil, o pai das crianças, Atef Said Abbas, 45 anos, foi condenado em primeira instância a quatro anos e meio de prisão pelo crime de “subtração de incapazes” e “falsificação de documentos”. Foragido no Exterior, não cumpriu a pena. Caçado pela Interpol, ele chegou a ser preso duas vezes, no Líbano e na Romênia. Como os dois países não têm tratado de extradição com o Brasil, foi libertado em seguida. Nesta semana, Vagna fará uma viagem de 24 horas até Zahlé, cidade no Vale do Beqaa, norte do Líbano, para fazer o que pode ser sua última tentativa de resgatar suas crianças. No dia 6, ela estará frente a frente com o ex-marido Atef no Tribunal Confessional Sunita, onde pretende apresentar as provas contra o marido. “Ele roubou meu direito de ser mãe”, disse ela a ISTOÉ, preparando-se para partir. “Tenho toda a esperança do mundo de voltar para o Brasil com meus meninos.” A verdade é que não será fácil.

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O seqüestro aconteceu em 1997. Vagna e Atef já viviam em separação de corpos. Ela ainda amamentava nos seios o pequeno H. S. A., oito meses, e seu outro filho, B. S. A., então com três anos, vivia dependurado em sua saia. Depois de uma discussão com o marido, Vagna foi agredida por ele com tapas no rosto. Naquele momento, anunciou que passaria a viver sozinha com as crianças. O pedido de separação foi aceito oficialmente pela Justiça brasileira em 5 de junho daquele ano. Oito dias depois, numa sexta-feira 13, os primos de Vagna tentaram reconciliar o casal. Marcou-se um jantar familiar com Atef. Ele brincou com as crianças, lançou flertes à ex-companheira e, sem sucesso, simulou uma dor de cabeça. Pegou os dois filhos e disse aos anfitriões que iria à farmácia. A verdade é que Atef – e os dois filhos – nunca mais voltaram. Para seqüestrá-los, Atef tinha tudo preparado. Falsificou a assinatura da mulher num cartório da capital paulista e, com o golpe, tirou os passaportes dos meninos. Em seguida, forjou autorizações de viagem dos menores. Voou com eles para o Líbano.

Três anos após o seqüestro, em 2000, Vagna prestou vestibular para Direito, à fim de melhor travar as batalhas judiciais que estavam pela frente. Ela conseguiu o direito a uma indenização milionária do cartório que facilitou o seqüestro das crianças, ao atestar a assinatura fraudulenta. “Ainda não recebi o dinheiro, mas já o coloquei em testamento para meus filhos”, afirma Vagna, que concluiu o documento na quarta-feira 28, pouco antes da viagem. “Sei que, no Líbano, Atef pode mandar me matar”. Também derrotou o Estado brasileiro no tribunal que o obrigou a reparar a falha na confecção do passaporte. Hoje, os meninos vivem com a avó paterna em algum lugar do país árabe.

A viagem de Vagna é de alto risco para ela, que pode até sair presa do Tribunal Sunita. Essa advertência foi feita por seu próprio advogado naquele país, registrada num e-mail. Contra Vagna pesa um processo no Judiciário islâmico libanês, movido pelo marido, de abandono do lar. Em 1998, Vagna esteve em Zahlé com toda a documentação comprobatória do crime cometido por Atef. Durante 15 dias, ela teve contato com as crianças do lado de fora da casa da avó, sempre acompanhada por representantes da Embaixada Brasileira. Essas visitas, porém, levaram Atef a pedir a condenação de Vagna por abandono do lar. Seu argumento é o de que a casa dela é, na verdade, a casa em que estão seus filhos. Para piorar a situação da mãe brasileira, as leis libanesas favorecem francamente os pais quando há litígios pela guarda de filhos. “As chances dela são mínimas ou iguais a zero”, disse a ISTOÉ uma fonte do Itamaraty familiarizada com o caso. A ONU estima que 30 mil crianças estão na mesma situação dos dois filhos de Vagna. Qualquer semelhança com o filme americano Nunca sem minha filha, protagonizado pela atriz Sally Fields, não é mera coincidência. Infelizmente.

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