Quando Nélida Piñon começa a falar, as palavras fluem como fragmentos de romances, construções espontâneas que testemunham seu permanente estado de criação. Os freqüentes sorrisos e a simpatia radiante contribuem para estreitar ainda mais os pequeninos olhos de traços orientais, contidos pelo peso das pálpebras. A escritora carioca tem um grande motivo para sorrir: ela
acaba de receber o prêmio espanhol Príncipe das Astúrias, uma das maiores honrarias da literatura internacional, conferida pela sua trajetória de romancista. Nélida concorreu com grandes nomes internacionais, como o americano Philip Roth, e levou a melhor, na votação final, por 17 a 3. “Foi
uma vitória arrasadora”, exulta a autora de A república dos sonhos.

Recém-chegada de uma viagem ao Sul do País, Nélida acordou às 6 horas, mas continua lépida depois do almoço, naquela horinha em que seus ancestrais espanhóis costumam fazer a sesta. O raciocínio é rápido e as frases são acompanhadas de gestos que pontuam o contexto com vivacidade juvenil. Sentiu-se muito honrada com o prêmio, sobre o qual não alimentou nenhuma expectativa. Mas sabe que vai esquecer a sensação assim que voltar a se sentar à frente do computador para retornar à solidão de seu ofício. Descreve seu processo criativo com uma paixão visceral: “Faço uma espécie de arqueologia, onde vou tirando a pele do texto até chegar ao coração de Tróia. É esse o texto que quero.” Em certos momentos da escrita, ela acha bem-vinda a sensação de insegurança. “É como deslizar por uma rampa e mergulhar no oceano”, descreve, com uma larga risada.

Nélida viaja muito, mas adora voltar ao apartamento na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio de Janeiro, com deslumbrante vista para o perfil das pedras cariocas. A sala, dividida em vários ambientes, alterna belas obras de arte – como seu majestoso retrato assinado por Glauco Rodrigues – com diplomas de seus diversos títulos, CDs, fitas cassete e vídeos. Os arquivos literários ocupam todo um andar. É ali que a escritora exerce um de seus maiores prazeres: receber os amigos, que cultiva com afinco. Conta, sem disfarçar o orgulho, que foi uma jovem bonita, inspiradora de grandes afetos, mas nunca se casou. “Sempre quis ser uma entidade autônoma, construí minha carreira sem dever favores a ninguém”, afirma. Mas desconversa sobre maiores detalhes de sua vida pessoal.

Um dos capítulos mais importantes de sua história, por sinal, foi ter sido a primeira presidente mulher da Academia Brasileira de Letras, para a qual entrou há 15 anos. O período coincidiu com o centenário da casa, agremiação mais cobiçada entre os acadêmicos. Nélida descreve a experiência como muito rica, mas se abstém de comentar possíveis olhares invejosos. Sabe que a vaidade impera na Casa de Machado de Assis – onde só entra depois de cumprimentar o busto do autor de
Dom Casmurro –, mas não se identifica com os ouropéis. “Não me vejo como um ego espantoso.” O imortal Antonio Olinto elogia seu equilíbrio entre a ponderação
e as idéias avançadas. “Ela aceita as novidades, seu pensamento é lógico e articulado.” Para Olinto, Nélida se beneficiou do ambiente do pós-guerra, quando
se graduou em Letras.

A formação foi apenas o ponto de partida para uma fortíssima vocação, alimentada pela dupla nacionalidade, de quem nasceu no subúrbio de Vila Isabel e passou a infância nas aldeias da Galícia, terra natal do pai e dos quatro avós. Aos dez anos, costumava subir sozinha um pequeno morro que considerava seu Everest. Embora fosse muito falante, ficava horas sozinha, escutando o uivo dos lobos e o som cortante dos ventos. Bebeu muito da água dos velhos galegos, grandes contadores de histórias. “Entendi que eles tinham uma vocação para o sobrenatural e o panteísmo”, recorda-se Nélida, que nunca aceitou as ofertas de um passaporte espanhol. “Me sinto feliz como brasileira”, declara, diante do retrato verde-amarelo.

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